Ausência forçada de Cristina Kirchner evidencia falta de herdeiro político

Por Luciana Alvarez - especial para o iG |

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Fora do governo e da campanha das eleições legislativas por causa de uma cirurgia no cérebro, presidente argentina vê vice questionado e sem carisma ocupar seu lugar

A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, que passou na terça-feira (9) por uma cirurgia para drenar um hematoma cerebral, deve ficar cerca de um mês em repouso e, portanto, afastada de suas funções. O período de licença pode trazer impactos políticos imediatos e, acima de tudo, evidenciar a falta de um nome forte para uma possível substituição da presidente.

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AP
Mensagens de apoio a Cristina em imagem do lado de fora do hospital Favaloro, em Buenos Aires

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Na terça-feira: Cristina Kirchner opera hematoma cerebral

O reflexo mais imediato deverá ser visto nas eleições parlamentares de 27 de outubro, quando os argentinos votarão para renovar 24 das 72 vagas no Senado e 127 das 257 da Câmara de Deputados.

A eleição coincide com a metade do mandato de Cristina e pode servir de termômetro de sua popularidade. Como a Argentina enfrenta atualmente uma grave crise econômica, as perspectivas não são as mais favoráveis para o governo, que já viu a perda de apoio aos seus candidatos nas primárias eleitorais em agosto.

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Cristina ficará fora dos palanques justamente na reta final da campanha, mas isso não significa necessariamente perder votos. “O argentino é muito sentimental – veja o exemplo do tango. Quando Cristina passou a aparecer de preto depois da morte de seu marido, cresceu em popularidade. Sua cirurgia agora dá um toque dramático às eleições”, afirmou o argentino Mario Sacchi, professor de Relações Internacionais da Faap.

AP
Mulher lê mensagens deixadas em muro por partidários de Cristina Kirchner do lado de fora do hospital Favaloro em Buenos Aires

Segundo uma pesquisa de opinião da Polldata, publicada nesta quarta-feira (9) pelo jornal Clarín, 61,4% dos argentinos acreditam que a cirurgia de Cristina não afetará a forma dos eleitores votarem, 14,6% dizem que favorece o governo, enquanto 11,8% dizem que favorece a oposição.

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Como a presidente ainda pretende tentar aprovar uma emenda constitucional que permita que ela concorra mais uma vez à reeleição - ela já está no segundo mandato consecutivo -, cada posto conquistado por seus aliados será importante.

No entanto, com ou sem doença, esse desejo deve ficar ainda mais difícil de ser realizado após a eleição. “A situação econômica do país está péssima e a maioria da população desaprova a condução da crise”, afirmou Sacchi. As projeções apontam que a oposição vai sair fortalecida no pleito deste mês.

Além da influência direta sobre a eleição legislativa, o afastamento temporário de Cristina lança luz sobre um outro problema do governo: a falta de um herdeiro político.

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Quem assumiu interinamente o governo na segunda-feira e deve ficar à frente dele durante toda a recuperação da presidente é seu vice, Amado Boudou, 50 anos, ex-ministro da economia (de 2009 a 2011). Ele, porém, é um político considerado de pouca expressão e mal visto pelo povo, e que ainda responde a processos na Justiça por corrupção.

“O vice não serve para substituir Cristina, ele é muito controvertido”, avaliou José Botafogo Gonçalves, membro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), que já foi embaixador especial para o Mercosul e também embaixador do Brasil na Argentina. “Como em todo regime personalista, em torno de um líder carismático, as pessoas que o cercam só têm importância à medida que o líder lhe dá papeis. São em geral pessoas sem voo próprio. É o que está acontecendo com Nicolás Maduro na Venezuela (atual presidente), mesmo sendo o herdeiro político de Chávez.”

EFE
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Com a possibilidade de um terceiro mandato cada vez mais distante, além das preocupações com a saúde de Cristina, o Partido Justicialista (PJ, também conhecido como partido peronista) deve começar a busca por um substituto. “Cristina é hoje a líder do peronismo sem que ninguém se aproxime de sua estatura política. Já deveria estar havendo uma rearrumação para encontrar uma pessoa de peso”, afirmou Botafogo.

Apesar do vácuo de um nome de destaque no peronismo, ainda é difícil vislumbrar que isso traga grandes vantagens para a oposição, defende o ex-embaixador. “É muito arriscado dizer que a oposição ganha com esse cenário. Na Argentina, nos últimos 30, 40 anos, a oposição tem se fragmentado muito, são sempre uns 4 ou 5. Ela nunca consegue se reunir em torno de um nome para fazer frente ao peronismo, e não vejo hoje a oposição organizada para isso.”

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