Fábula ilustra clima de desconfiança nas relações do Oriente Médio

Por Nahum Sirotsky - colunista em Israel | - Atualizada às

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Temor de que Irã desenvolva armas nucleares deixa Israel em alerta em meio à aproximação com Estados Unidos

É uma fábula antiga, mas sempre atual no contexto do Oriente Médio. Começo contando que a tartaruga estava às margens de um rio, preparando-se para atravessá-lo, quando o escorpião chegou e pediu uma carona. A tartaruga lhe disse: "Estás louco? Depois, Tu me picará e eu vou morrer." O escorpião retrucou: "Se você morrer, eu também morrerei, pois não sei nadar."

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A tartaruga deu carona e começou a travessia. Na metade do caminho, o escorpião a pica. "O que você fez? Nós dois vamos morrer. Caráter não muda mesmo", disse a tartaruga, ao que o escorpião afirmou: "Não pude me conter, é a minha natureza."

No Oriente Médio, ninguém confia em ninguém inteiramente. A prometida entrega de armas químicas e respectiva destruição, conforme acordo da Síria com os EUA, pode levar meses. Quem precisa acompanhar o processo de perto, está cumprindo. Se o presidente sírio, Bashar Al-Assad, falhar uma única vez, pode ser que receba uma punição severa.

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O Irã tem extensão territorial de 1.648.000 km² e população de 76,5 milhões. Israel tem 8 milhões de habitantes, sendo 1,5 milhão de árabes, 80% deles muçulmanos, com uma área similar ao Estado do Sergipe. Barack Obama vem mantendo seu esforço sobre Israel para dar ao presidente iraniano Hassan Rouhaní a oportunidade de provar o que vem dizendo. Ele insiste que o programa atômico de seu país tem objetivos civis.

O premiê israelense Benjamin Netanyahu acredita que Rouhaní, como líderes anteriores do Irã, querem levar o Ocidente na conversa, até chegarem a condições de explodirem sua primeira bomba. Os persas tem experiência diplomática de milhares de anos e respeitável jogo de corpo. Eles dizem que Israel é injusto, pois nunca atacaram país algum. Contudo, na guerra Irã x Iraque (1980-1988), os xiitas foram os primeiros a atacar.

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Além do mais, o Irã é a Pérsia, cuja língua fala até hoje. Procurem nos livros de história o seu passado. Os americanos afirmam e reafirmam que não permitirão, de forma alguma, e utilizarão de todos os meios necessários, para evitar que o Irã se transforme numa potência atômica no Oriente Médio, pois a consequência mais imediata seria uma corrida nuclear na região, com inúmeros países árabes, a começar pela Arábia Saudita, dedicando-se a se transformar também.

O mundo perderia o controle da questão da nuclearização. Entretanto, é antes de explodirem a bomba, pelo que afirmam os dirigentes israelenses, que é preciso agir. Os americanos também, provavelmente. Rouhani precisa dar demonstrações práticas, com fatos, de que não tem o caráter lamentável do escorpião.

A vida aqui, nessa região toda, vai na sua rotina. No Iraque, sunitas e xiitas seguem se matando. O Egito está empenhado em recuperar a estabilidade interna, enquanto atravessa uma crise sem precendetes na sua história. Tem muitos outros angustiantes problemas e vamos todos aqui esperar mais um tempo para saber em que mundo estaremos ingressando, de tranquilidade, ou de uma tragédia imensurável.

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