'Brasil e EUA são bons vizinhos, mas não aliados', diz analista

Por Leda Balbino - em Nova York* | - Atualizada às

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Controvérsia sobre espionagem mostra quanto relação política bilateral deve ser problemática no longo prazo

Os EUA chamam o Brasil de país aliado, enquanto o governo brasileiro caracteriza a relação com Washington como estratégica. Mas, para analistas ouvidos pelo iG, o discurso feito há uma semana pela presidente Dilma Rousseff denunciando a espionagem americana é uma mostra do quanto a relação política entre as duas maiores economias das Américas é problemática e deve se manter complicada no longo prazo. “O Brasil e os EUA são bons vizinhos – mas não bons amigos, parceiros ou aliados”, disse Peter Hakim, presidente emérito do Inter-American Dialogue.

Na ONU: Dilma diz que espionagem é 'afronta' e 'fere direito internacional'

AP
Presidente dos EUA, Barack Obama (D), senta-se ao lado de presidente Dilma Rousseff durante início da sessão de trabalho do G20 em São Petersburgo, Rússia

Dia 17: Dilma decide cancelar viagem de chefe de Estado aos EUA

Para o especialista nas relações dos EUA com a América Latina, mais do que o discurso, a decisão de Dilma de cancelar a visita de Estado que faria à capital americana em outubro dá um sinal claro de que Washington deveria priorizar a relação com o Brasil. Hakim, porém, duvida que isso ocorra.

O motivo? A falta de uma estratégia dos dois países para a aproximação e o fato de que questões como o conflito sírio, o programa nuclear iraniano e assuntos domésticos como orçamento, limites da dívida, reforma migratória e controle de armas consomem muito tempo e energia do governo de Barack Obama. “Há tantos desafios atualmente à imagem de Obama, que acho difícil que a posição de Dilma (sobre a espionagem) tenha sequer um impacto mínimo”, afirmou o especialista.

Depois de terem ficado bastante estremecidas em 2010, quando Washington descartou um acordo costurado por Luiz Inácio Lula da Silva e a Turquia com o Irã, as relações entre EUA e Brasil vinha melhorando gradualmente sob Dilma. A situação mudou após documentos vazados pelo ex-técnico da CIA Edward Snowden terem revelado que milhões de comunicações por email e telefone de brasileiros, incluindo as da própria Dilma, de seus assessores e da multinacional Petrobras, teriam sido interceptados pela Agência Nacional de Segurança (NSA, na sigla em inglês).

Reprodução/ Guardian
Edward Snowden, o ex-funcionário terceirizado da NSA que revelou o programa de monitoramento da agência

Denúncia de espionagem contra o Brasil:
- Brasil pede esclarecimentos aos EUA após denúncia de espionagem 
- Presidente Dilma foi alvo de espionagem dos EUA, diz TV
- Documentos revelam que Petrobras foi alvo de espionagem dos EUA

Ao abrir o debate na 68ª Assembleia Geral da ONU no dia 24, Dilma denunciou a espionagem como uma "grave violação dos direitos humanos e das liberdades civis" e uma "afronta aos princípios que devem guiar as relações entre os países". A líder brasileira também anunciou que o Brasil apresentará propostas para o estabelecimento de um marco civil multilateral para a governança e uso da internet, com o objetivo de assegurar a efetiva proteção dos dados que navegam pela internet.

Repercussão: Jornais internacionais destacam ataque 'feroz' de Dilma

O pronunciamento de Dilma repercutiu na imprensa internacional. Para o New York Times, foi uma denúncia forte contra os EUA sobre as ações da NSA, ressaltando que Obama, ao discursar logo após Dilma, tomou nota das queixas ao afirmar que os EUA estão repensando suas atividades de vigilância. Segundo o Washington Post, a presidente brasileira proferiu uma "reprimenda pungente" contra a espionagem eletrônica da NSA, enquanto o britânico Guardian afirmou que a fala de Dilma “representou a reação diplomática de mais alto nível até agora" às revelações feitas por Snowden.

Subsecretária: EUA revisam espionagem após críticas de aliados como o Brasil

O discurso foi proferido exatamente uma semana depois do cancelamento da visita de Estado, que poderia ter sido uma plataforma para acordos na exploração de petróleo e na tecnologia de biocombustíveis e ter garantido aos EUA uma nova oportunidade para defender a aquisição pela Boeing de um contrato brasileiro de mais de US$ 4 bilhões em caças. Em nota a seus clientes, analistas da empresa de consultoria Eurasia avaliaram que o cancelamento “reduz de forma significativa” as chances da Boeing.

Apesar de reconhecer que a espionagem dos EUA “passou dos limites” e não foi “sensata”, Eric Farnsworth, vice-presidente do Conselho das Américas e das Sociedades Americanas (AS/COA, na sigla em inglês), lembra que os EUA indicaram que revisarão, mas não porão fim aos controvertidos métodos de interceptação de dados. “(A denúncia de espionagem) é realmente infeliz, mas tem de haver um reconhecimento mútuo de que a relação é maior do que isso”, disse. “Se não for visto assim, os impactos negativos de longo prazo não serão bons para o Brasil nem para os EUA”, afirmou.

Para Farnsworth, os riscos se concentram na relação política e no âmbito dos acordos bilaterais comerciais e fiscais, mas não tanto no setor econômico. “O setor privado é que impulsiona a relação econômica, e as empresas continuarão investindo em ambos os países”, disse. “Precisamos uns dos outros”, completou.

AP
Presidente Dilma Rousseff faz discurso de abertura da 68ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York

O especialista recorda que o Brasil não foi o único país impactado pela espionagem, pois os documentos vazados por Snowden apontam que a NSA mantém um amplo esquema de vigilância em todo o mundo, incluindo aliados dos EUA como União Europeia e México. “Da mesma forma, China e Rússia espionam todo mundo, e devemos imaginar que o Brasil também faça isso com algumas pessoas. Se não faz, deveria”, opinou.

Chanceler: Países se solidarizam à posição do Brasil contra espionagem

Para o presidente emérito do Inter-American Dialogue, o fato de nenhum país da projeção do Brasil ter adotado uma posição tão explícita quanto à de Dilma contra a espionagem diminui os riscos de impacto negativo para os EUA. “A influência crescente do Brasil vem de seu potencial econômico, da grande qualidade de seus líderes políticos desde 1995 e da liderança em questões regionais e internacionais”, disse Hakim. “(Mas) o Brasil tem sido um dos poucos países grandes a se pronunciar sobre a espionagem, significando que outras nações não estão seguindo a liderança de Dilma (nessa questão)”, concluiu.

*Repórter viaja como bolsista da Dag Hammarskjöld Fellowship, da ONU

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