Entre as reformas de Erdogan estão suspensão de restrições da linguagem curda e da vestimenta islâmica

O primeiro-ministro da Turquia anunciou nesta segunda-feira um aguardado pacote de propostas destinado a reformas democráticas, incluindo a suspensão de algumas restrições no uso da linguagem curda e na vestimenta islâmica.

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Primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, se pronuncia durante coletiva em Ancara
AP
Primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, se pronuncia durante coletiva em Ancara

As reformas são vistas como fundamentais para a perspectiva política de Recep Tayyip Erdogan, o poderoso líder, que enfrentou uma série de protestos de turcos que consideravam seu governo linha-dura.

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Erdogan e seu partido enfrentarão uma série de eleições nos próximos dois anos, mas ainda não é certo que as reformas seriam suficientes para amainar as críticas, dar energia à sua base de conservadores e ajudar a restaurar o impulso para as negociações de paz com a minoria curda, que tem buscado mais autonomia.

Erdogan caracterizou seu pacote de reformas como um passo histórico para solidificar a democracia turca. "A Turquia está progredindo de maneira irrevogável no caminho da democratização", disse.

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O anúncio do pacote de reformas foi adiado inúmeras vezes enquanto os diálogos com a minoria curda estão paralisados. Os rebeldes curdos afirmaram nesse mês que estavam suspendendo sua retirada da Turquia para bases no norte do Iraque, alegando que o governo de Erdogan não realizou reformas para melhorar os direitos da minoria.

As reformas tinahm sido mantidas em segredo até que Erdogan as anunciasse diante de jornalistas em Ancara. Elas não chegaram a atender todas as expectativas.

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Era esperado que Erdogan, por exemplo, anunciasse a reabertura do seminário grego ortodoxo Halki, em Istambul, que foi fechado por autoridades turcas há mais de 40 anos. A escola, localizada em uma ilha do Mar de Marmara, treinou gerações de patriarcas ortodoxos gregos até seu fechamento em 1971.

A manutenção do fechamento do seminário, apesar de ser uma questão com pouca repercussão doméstica, é um problema que deverá provocar repercussões na Europa e nos EUA. O presidente Barack Obama, deputados dos EUA e da União Europeia, que pressionam a Turquia para melhorar seus direitos religiosos, pediram ao governo turco que permitissem que o seminário voltasse a funcionar.

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Os grupos curdos também exigem que Erdogan vá mais longe na suspensão de restrições do uso de sua linguagem, para que as crianças curdas possam ter o direito de ser educadas em sua língua nativa.

Os curdos enxergam as atuais restrições como uma das principais ferramentas de repressão cultural na Turquia e a questão tem sido fonte da tensão que há mais de 30 anos se tornou um conflito violento. Os curdos representam 20% da população de 75 milhões de turcos.

A proposta de Erdogan permitiria que escolas privadas tivessem algumas aulas em curdo. As reformas também permitiriam que as letras "q", "w" e "x", que fazem parte do alfabeto curdo mas não do turco, fossem usadas em documentos oficiais.

As propostas incluem outra medida para aliviar as restrições no uso de lenços islâmicos na república de maioria muçulmana que foi fundada sob princípios seculares. O movimento permitiria que mulheres usassem lenços que cobrem a cabeça. Erdogan disse que as restrições continuariam para juízes, promotores, e oficiais de segurança e do Exército.

Erdogan reconheceu que o pacote de reformas não atenderia todas as expectativas, mas caracterizou-o como o conjunto mais amplo de reformas na história da república. Algumas das reformas ainda precisariam de aprovação parlamentar, mas com expressiva maioria, o partido de Erdogan conseguiria aprová-la mesmo sem apoio da oposição.

Com AP

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