Mais uma lição de política: o que é a direita e a esquerda na América

Por Paulo Ghiraldelli especial para o iG | - Atualizada às

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No segundo artigo sobre direita e esquerda na política, filósofo trata da América

A política francesa do século 18 criou a denominação “direita” e “esquerda”. Paulatinamente essa terminologia foi adotada em diversos países por virtude da influência política e cultural da França. A “política dos ricos” seria a política de direita, enquanto que a “política dos pobres” seria a política de esquerda. Ao longo do século 20, a direita ficou com a política democrática e liberal, ainda que, como expliquei, tenha absorvido também uma vertente totalitária, contrária à democracia liberal, a chamada “política do fascismo”. A esquerda ficou com a política democrática, mas antes socialista que liberal – a “social-democracia”. Mas a esquerda também inventou um tipo de totalitarismo, que veio a se chamar “comunismo”.

Até aí é o que já escrevi no artigo “Uma lição básica de política: o que é direita e esquerda” (IG, 29/09). Todavia, é um esquema que precisa de reajustes aqui e acolá quando diante do quadro americano.

Leia também: Uma lição básica de política: o que é direita e esquerda

Nos Estados Unidos do pós-Guerra as pessoas se acostumaram a falar em “conservadores” e “liberais”. Assim, diferentemente do mundo todo, em que os liberais sempre ficaram mais próximos de uma postura conservadora, nos Estados Unidos, não raro, o termo “liberal” abarcou pessoas que, em certo sentido, seriam equivalentes aos social-democratas na Europa, os integrantes da chamada “esquerda democrática”.

Essa esquerda democrática ou social-democrata, em sua origem europeia, tinha em suas raízes as mobilizações sindicais segundo uma base social operária e segundo um ideário francamente marxista, mas não revolucionário. Para muitos, essa esquerda nunca deixou de ser a verdadeira herdeira do que deveria ser o socialismo. Ela tinha claramente abandonado qualquer postura revolucionária, optando por uma política de reformas graduais dentro do capitalismo e segundo as regras da democracia liberal. Essa democracia liberal, por sua vez, já não era propriamente a democracia liberal tradicional, mas uma democracia bastante articulada a um estado mais interventor na vida social e econômica. Tal estado foi forjado por conta do embate sindical diante do patronato, vindo a se tornar o que ficou conhecido como Welfare State ou Estado de Bem Estar Social.

Nos Estados Unidos o Welfare State nunca se desenvolveu da mesma maneira e com a mesma pujança do Welfare State europeu. Os Estados Unidos tiveram um movimento operário importante, mas nunca predominantemente marxista, recebendo grande influência libertária, ou seja, anarquista. Após a revolução russa de 1917, depois de um breve período de entusiasmo pela façanha de Lênin lá do outro lado mundo, o grosso da esquerda americana abandonou de vez os ideais já então chamados de “comunistas”, e desembarcou para o interior do grande guarda chuva liberal. Alguns traços de Welfare State só foram introduzidos com o New Deal do Presidente Roosevelt, aquele célebre grande pacto entre patrões e empresários, com participação governamental, com o objetivo de tirar o país da crise de 1929, a chamada “Grande Depressão”. A esquerda americana, desse modo, cresceu sempre muito voltada para a tradição liberal da nação americana, uma tradição herdada do liberalismo inglês, cioso da importância da liberdade individual perante o Estado.

Ora, isso quer dizer que a esquerda americana nunca cultivou a igualdade? Não! Claro que cultivou. A igualdade sempre esteve presente no contexto da política não conservadora. Todavia, não se tratava de exigi-la para aqueles que, enfim, podiam se sentir cada vez mais americanos, mas para os inúmeros grupos de imigrantes com menos sorte na América. Os Estados Unidos sempre foram um eterno lugar de minorias étnicas, e com o tempo também entraram para o jogo político as minorias de gênero, de orientação sexual e outras. A maior parte dessas minorias viu na política da esquerda, isto é, no conjunto da política antes liberal que conservadora, o melhor lugar para suas reivindicações. Como se pode ver hoje em dia, foi necessário um presidente negro para que um elemento de igualdade viesse a contar na política liberal americana com decisiva ênfase, a chamada reforma do sistema de previdência para a saúde nos Estados Unidos.

Por essas razões, talvez a esquerda americana, hoje, seja a que melhor lida com a busca de harmonia entre dois pilares essenciais da política liberal, a liberdade e a igualdade.

Mas, dito tudo isso, pode-se afirmar então que os Estados Unidos contém toda a sua esquerda, agora, no contexto do termo “liberal”?

A partir dos anos sessenta, principalmente com o impacto da Guerra do Vietnã na vida americana, os Estados Unidos desenvolveram a chamada Nova Esquerda. Nunca foi uma esquerda fortemente política, mas muito mais cultural. Na política essa Nova Esquerda produziu vozes isoladas, advogando um marxismo esquemático, às vezes de caráter juvenil e até mesmo idiossincrático. Trata-se de uma esquerda, ainda hoje, com muita dificuldade de mobilização política. Afinal, se não é uma esquerda revolucionária, pode perfeitamente integrar as fileiras dos “liberais” e se inserir na política do Partido Democrata. Bem, mas se é revolucionária, então está dizendo que, na pátria do capitalismo e da democracia liberal, ter-se-á que optar por um regime em que haverá a nacionalização dos meios de produção?

Ora, o americano é muito patriota, mas de modo algum nacionalista. O nacionalismo, para ele, é pensado como um estado que irá lhe tirar liberdades, como um regime que irá se parecer ou com a extrema direita, o nazi-fascismo, ou a extrema esquerda, o comunismo do tipo que existiu na URSS. Nesse caso, a esquerda mais radical, pautada em discursos à base de Marx, mas mesclando-o com Foucault e Nietzsche, tem pouco espaço na política que não seja a política acadêmica ou o que é desenvolvido nas revistas universitárias de “estudos culturais”.

A política brasileira, sempre muito influenciada pela política europeia, de uns tempos para cá tem buscado aproveitar certos elementos da política americana. Nossa esquerda, aqui, buscou aprender com os americanos as políticas ditas compensatórias, que visam integrar em nossa democracia as chamadas minorias – também de várias ordens, étnica, de gênero, de orientação sexual etc. Talvez falte aprender mais, também, com o cuidado diante da liberdade individual, o que demanda uma atenção a mecanismos de participação política antes do indivíduo que exageradamente em partidos e outras instituições.

Por tudo isso dito, não posso deixar aqui de sugerir a leitura do meu Filosofia política para educadores – democracia e política de minorias (Editora Manole, 2013), que contém uma série de pequenos artigos sobre todo esse assunto.

* Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ 

http://ghiraldelli.pro.br, http://horadacoruja.com.br e http://facebook.com/ghiraldelli.filosofia

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