Aproximação do papa Francisco com Teologia da Libertação preocupa Opus Dei

Por iG São Paulo |

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Jornal espanhol El País diz que encontro do pontífice com o padre peruano Gustavo Gutierrez, considerado um dos pais dessa teoria, foi mal visto pela corrente conservadora

“Como eu gostaria de ter uma Igreja pobre e para os pobres!”, disse o papa Francisco pouco tempo depois de ter sido eleito para o cargo. Discursos, como este, em favor dos pobres somados aos costumes simples do novo líder da Igreja Católica começaram a aumentar as suspeitas de que o jesuíta argentino fosse simpático à Teologia da Libertação - movimento que interpreta os ensinamentos da Igreja como uma libertação das injustiças sociais. A discussão acendeu o alerta da organização católica conservadora Opus Dei.

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AP Photo/Domenico Stinellis
Tom quase revolucionário dos discursos do papa fizeram ruído entre ultraconservadores da Igreja

Artigo do jornal espanhol El País, publicado nesta segunda-feira (16), afirma que “os passos de abertura de Francisco, principalmente a sua simplicidade e austeridade revolucionárias, além do tom quase revolucionário de alguns dos seus discursos, começam a fazer ruído nos setores ultraconservadores da Igreja Católica”. A preocupação cresceu, principalmente, depois que Francisco teve um encontro com o próprio Gustavo Gutiérrez, um dos fundadores da Teologia da Libertação.

O jornal afirma ainda que o recado de desaprovação foi dado pelo cardeal-arcebispo de Lima, Juan Luis Cipriani, que integra a Opus Dei. Ele “reforçou a execração” ao chamar de “ingênuo” o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o alemão Gerhard Müller, por promover o encontro e acolher Gutiérrez em Roma “como se fosse um grande pensador ortodoxo”. Em declaração à Rádio Programas do Peru (RPP), Cirpriani acrescentou: “Müller é um bom alemão e bom teólogo, um tanto ingênuo. A minha leitura é que quis se aproximar do amigo Gutiérrez, por quem tem carinho, e quer ajudá-lo de alguma forma a se retificar e inserir na Igreja Católica. A reunião está sendo usada para descrever uma aproximação com uma corrente teológica que causou muito dano à Igreja.”

O El País lembra, no entanto, que na viagem ao Brasil, durante a Jornada Mundial da Juventude, o papa Francisco procurou negar ser a favor de experiências relacionadas ao marxismo, ideologia que teria forte influência sobre a Teologia da Libertação. “O fato de a primeira encíclica escrita por Francisco se intitular Beati pauperes (Bem-aventurados os pobres) não é aval para os que supõem que ele se inclina pela Teologia de Libertação. Pelo contrário, ele deixou claro o que pensa na viagem ao Brasil no mês passado”, afirma o jornal.

Mas, em seguida, o artigo usa a declaração de um bispo brasileiro para colocar em dúvida se isso significa necessariamente que Francisco seria contrário à Teologia da Libertação. “Por acaso a Teologia da Libertação é marxista?”, questiona o texto antes de provocar debates com uma declaração do famoso bispo do Recife, Hélder Câmara, morto em 1999: “Quando dou esmola a um pobre, me chamam de santo; quando pergunto por que há tantos pobres e tento ajuda-los, me chamam de comunista.”

A publicação diz, inclusive, que “há um debate” entre os bispos católicos “sobre a vigência desta teologia ao qual os bispos espanhóis não são indiferentes”. Mas estes religiosos evitam falar sobre o tema. “A mídia deles reflete isso, quase sempre de modo hostil. Contudo, calam-se ao serem perguntados. Diversos prelados se negaram a tratar o assunto ao serem procurados pelo El País. É como se esperassem um sinal do Vaticano”, conclui o texto.

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