Com crise na Síria, Dilma imprime estilo mais discreto à política externa

Por Luciana Lima - iG Brasília |

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Presidente dá continuidade à linha adotada por Lula e por FHC, mas se mostra mais recatada ao analisar situações de conflito na cena internacional

Ao defender uma solução negociada para a questão da Síria em contraposição à intenção dos Estados Unidos de uma intervenção armada, a presidente Dilma Rousseff demonstrou que, em política externa, sua orientação é a de seguir a tradição firmada na diplomacia brasileira. Nesse episódio, entretanto, Dilma dá mais uma demonstração de que possui um estilo próprio em comparação ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva: é mais discreta, prefere falar pouco e age com precisão.

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Dilma não fez críticas a nenhum governo, limitou-se a falar sobre o Brasil. Não esboçou nenhuma frase que pudesse dar a dimensão de horror em relação à morte em massa de pessoas, inclusive de crianças, relacionadas ao uso de armas químicas e ao ataque ocorrido no dia 21 de agosto, em Damasco, capital da Síria.

AP
Dilma possui estilo próprio em questões externas: é mais discreta, fala pouco e age com precisão


Lula, mesmo fora da Presidência, não perdeu a chance de opinar e dizer que ficou “horrorizado com aquela imagem das crianças mortas”. Também condenou a posição norte-americana com base na incerteza da autoria do ataque. “Eu gostaria de ter passado pela terra sem ter visto aquilo. Agora, quem é que disse quem foi que fez aquilo?", declarou o ex-presidente. O episódio serviu para que Lula também criticasse a atuação das Organizações das Nações Unidas (ONU) no Oriente Médio e a espionagem dos Estados Unidos ao Brasil.

Dilma tem optado por defender o esgotamento de uma solução negociada em meio à reunião do G-20, em São Petersburgo, na Rússia. O Brasil só tomou conhecimento de sua opinião por meio da seguinte frase, publicada no Blog do Planalto: “O Brasil não reconhece uma ação militar na Síria sem a aprovação da ONU".

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Para analistas de política externa, Dilma adota a continuidade, mas difere de Lula e até de Fernando Henrique Cardoso (FHC) no estilo. “Ela não inovou e fez bem em não mudar”, avalia Antonio Jorge Ramalho, professor de Relações Internacionais da UnB. “A postura adotada em relação à Síria tem sido a tônica do governo brasileiro há pelo menos 20 anos. Lula e Fernando Henrique Cardoso se mantiveram fiéis a esse princípio, independentemente das críticas que todos fizeram e a própria presidente Dilma também faz à composição e funcionamento do Conselho de Segurança da ONU”, lembrou Ramalho.

Protagonismo

Ressalvado o episódio em que a própria presidente se viu vítima de espionagem por parte do governo norte-americano e, portanto, no centro das atenções, o estilo mais discreto de Dilma não contribui para que ela experimente uma imagem de protagonista nas questões internacionais.

Pelo menos, não da mesma forma vivida por Lula. O ex-presidente liderou discussões importantes tanto no campo regional, puxando uma maior integração da América do Sul. Também se destacou em contextos mais distantes, como no Oriente Médio, ao encarar discussões sobre a estratégia nuclear iraniana, por exemplo.

Embora a discrição não renda à presidente esse protagonismo, a política externa de Dilma tem se mostrado eficiente quando se trata de ocupar espaços nos organismos multilaterais. “Dilma é mais sóbria, mas não menos atuante”, afirmou Ramalho, que diz identificar um foco da gestão de Dilma nos grandes fóruns internacionais.

Representação

Desde o início da administração de Dilma, o Brasil colheu resultados dessa política de priorizar a inserção de brasileiros em cargos estratégicos. O país emplacou na direção-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC) o embaixador Roberto Carvalho de Azevêdo e o ex-ministro de Direitos Humanos Paulo Vannuchi foi eleito para uma das vagas da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), órgão da Organização dos Estados Americanos (OEA).

É certo que parte dessas articulações teve início com Lula, como a que resultou, por exemplo, na nomeação do ex-ministro José Graziano da Silva para o cargo de diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), em 2011. Depois disso, a diplomacia brasileira conquistou cargos em mais duas dezenas de instâncias de discussão multilateral.

“Lula foi um desbravador, Dilma consolidou”, avalia o presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, deputado Nelson Pelegrino (PT-BA). “A diferença entre os dois é mais de estilo. A impressão que temos é de que Lula gostava mais da política externa. Ele ficava mais à vontade para falar com a imprensa, não só em relação à política externa, mas sobre todos os assuntos. Por isso, aparecia mais. Dilma não fala, mas tem mantido as políticas”, defende o deputado.

Casamento

Para Ramalho, até quando se viu vítima da espionagem norte-americana, Dilma optou por uma posição “menos emocional” e com vistas em longo prazo. “A relação entre Brasil e Estados Unidos é como um casamento de conveniência e, quando ocorre uma crise dessas, há duas opções. Ou reage com resmungos, com ameaça de rompimento da relação, ou se entende que a relação é importante e que a traição, mais cedo ou mais tarde, poderá ser superada. Parece-me que a presidente optou por esse segundo caminho”, aposta Ramalho.

Entre os pontos semelhantes entre Lula e Dilma estão as políticas de integração da América Latina e Caribe, com um esforço de colocar o Brasil como liderança nessa região. Dilma mantém essa linha, mas com uma proximidade menos intensa das lideranças de esquerda, que foi demonstrada por Lula em inúmeras viagens, encontros e discursos inflamados.

A cooperação entre países do hemisfério sul também é outro ponto de honra na política externa dos dois governos petistas. E Dilma tem enfatizado essa aliança como estratégica para encontrar soluções para a crise internacional.

Irã

O pesquisador da Universidade de Brasília (UnB) e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Antônio Flávio Testa, também entende que a postura de Dilma em relação à Síria faz parte da tradição diplomática brasileira, que esteve presente tanto nas posições assumidas por Lula, quanto pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Essa postura, para ele, não guarda incoerência com outro traço marcante da política externa de Dilma: o de ser intolerante com países violadores de direitos humanos e, principalmente, com os que adotam políticas repressoras em relação às mulheres. “Esse talvez seja o ponto que faz de Dilma um pouco diferente de Lula”, destacou.

Já no início de seu governo, Dilma deu sinais de que não teria com o então presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, a mesma disposição apresentada por Lula, que o recebeu em 2009, o visitou em Teerã, em 2010, e tentou convencer a comunidade internacional sobre a legitimidade do programa nuclear iraniano.

Ao contrário, alegando falta de horário na agenda, Dilma se recusou a receber Ahmadinejad no ano passado, quando o iraniano já havia desembarcado no Rio de Janeiro para participar da Rio + 20.

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