Espionagem causa mal-estar, mas na prática não muda relações de EUA e Brasil

Por Luciana Alvarez - especial para o iG |

compartilhe

Tamanho do texto

EUA subestimam episódio por não priorizarem País. Sem poder retaliar, Brasil tem de se prevenir, dizem analistas

Oficialmente, a denúncia de que telefonemas, emails e mensagens de texto da presidente Dilma Rousseff e alguns de seus assessores foram alvo de espionagem da Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA, na sigla em inglês) abre uma crise de confiança na relação entre EUA e Brasil. Na prática, porém, o caso deve ter pouca repercussão, já que os dois países não têm sido aliados estratégicos, e as relações com a América Latina são de pouca importância na atual política externa americana, avaliam analistas.

TV: Presidente Dilma foi alvo de espionagem dos EUA

AP
Presidente Dilma Rousseff chega para encontro no Palácio da Alvorada, em Brasília (2/9)

Infográfico: Veja a relação dos EUA com Brasil e América Latina

Para o embaixador Luiz Augusto de Castro Neves, presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), as relações entre governos que partilham de valores comuns, ou seja, que não se veem mutuamente como “inimigos”, devem partir do princípio da boa-fé, algo que foi quebrado com a espionagem. “Isso é muito negativo para a relação bilateral e precisa ser resolvido. Até a perspectiva da viagem de Dilma para os EUA, em outubro, acaba ameaçada”, afirma.

Reação: Dilma reavalia visita aos EUA em outubro após denúncia

EUA: 'Coletamos inteligência estrangeira do tipo que coletam todas nações'

Entretanto, a falta de laços políticos relevantes faz com que o caso não traga graves consequências na prática. “Existe uma indiferença benigna entre os dois países. Apesar de terem uma boa identificação na parte cultural – ambos são países com grandes territórios, de formação multiétnica por causa da imigração, de forte mobilidade social – não se pode dizer que são aliados estratégicos”, diz Castro Neves.

O embaixador cita como exemplos da falta de cumplicidade entre os governos a relutância brasileira em apoiar a criação da Alca (Área de Livre Comércio das Américas), assim como a resistência americana em apoiar o Brasil como um membro permanente do Conselho de Segurança da ONU.

Uma semana: Dilma dá prazo para EUA explicarem espionagem

Desde o governo de George W. Bush (2001-2009), houve um distanciamento entre EUA e América Latina – com os ataques do 11 de Setembro, a política externa de Bush ficou fortemente voltada para o Oriente Médio e a Ásia. Foi um momento em que a América Latina começou a crescer mais economicamente, puxada pelo Brasil. Na época, Luiz Inácio Lula da Silva, então presidente do Brasil (2003-2010), deu enfoque para a diplomacia Sul-Sul.

Entenda: Distância entre EUA e América Latina cresce no pós-11 de Setembro

Mesmo a chegada de Barack Obama à presidência dos EUA não esquentou as relações. Um episódio marcante da “indiferença” na era Obama foi quando em 2010 os EUA conseguiram a aprovação no Conselho de Segurança da ONU de uma nova rodada de sanções ao Irã, ignorando um acordo nuclear com Teerã costurado por Lula e pela Turquia. Com Dilma na presidência brasileira, acabou a ênfase explícita na diplomacia Sul-Sul, mas tampouco houve sinais claros de uma aproximação com os americanos.

Resposta possível

Frente às provas de que o governo americano espionou o brasileiro, o País precisa denunciar a ilegalidade da ação, cobrar explicações e desculpas públicas, defende Javier Vadell, professor de Relações Internacionais da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de Minas Gerais. Mas a melhor resposta que o Brasil pode dar é passar a tomar precauções para evitar que o monitoramento se repita, argumenta. “O Brasil não tem a capacidade de retaliar. A única resposta possível é melhorar o controle sobre o fluxo de informações”, afirma Vadell.

Brasil: Leia todas as notícias sobre a espionagem no País

Além de implantar um sistema eficiente de criptografia, outra medida seria estabelecer certos controles sobre as companhias telefônicas e de internet. “Por que seria tão difícil fazer o mesmo com a China? Porque a China controla as empresas.”

Para Castro Neves, existe mesmo uma negligência das autoridades brasileiras com o tratamento de informações sensíveis.

Visita no dia 13: 'Esperamos que Brasil entenda e aceite', diz Kerry

Dia 14: Brasil pode levar caso de espionagem dos EUA à ONU

Vadell acredita que, do ponto de vista pragmático, não é interessante Dilma perder a oportunidade de um encontro com Obama e desmarcar a visita aos EUA. “É normal que o assunto cause comoção no Brasil, mas a verdade é que o tema é pouco relevante para os EUA. Diante da iminência de um ataque à Síria, qualquer questão envolvendo a América Latina, uma região pacífica, se torna uma questão menor para eles”, diz.

O professor da PUC-MG diz que o episódio serve para lembrar que a espionagem não acabou com o fim da Guerra Fria (1947-1991). “A espionagem – tentativa de se obter informações estratégicas por canais privilegiados – existe desde a Antiguidade. Só que hoje ela é feita via tecnologia. Seria ingenuidade acreditar que ela não existe mais ou que vai acabar algum dia”, afirma.

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas