Dilma quer lutar contra 007 americano

Por Paulo Ghiraldelli , especial para o iG | - Atualizada às

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Filósofo discute a reação do governo às denúncias de espionagem contra a presidente Dilma Rousseff

O governo brasileiro reagiu à espionagem americana de modo hilariante. Veja só!

Os militantes petistas rezam uma cartilha única abobalhada, utilizada por Jânio e Brizola, onde é ensinado que a Rede Globo manipula tudo e todos. Todavia, uma vez que a Rede Globo denunciou que houve espionagem americana sobre Dilma, o governo e o petismo agiram do modo que dizem que “o povo” reage quando os desobedece: acreditaram sem pestanejar na notícia e convocaram uma reunião de ministros para discutir o assunto. Agiram como se o Brasil estivesse à beira de uma guerra. Foi como se nas semanas anteriores já não tivesse surgido uma notícia parecida.

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Depois, o governo deu declarações nacionalistóides, entre elas a de que faria um “e-mail nacional”, contra as bisbilhotices de Obama. Sem se lembrar de que o Brasil sequer investe em infraestrutura mínima para conseguir ter uma internet que não seja cara e ao mesmo tempo, em presteza, a 53ª do mundo, o governo simulou falar grosso.

Nosso país é sério. Nossa gente é séria. Mas nós, realmente, nem sempre nos fazemos representar por gente que nos leva a sério. Um governo que reage como o governo atual reagiu diante de uma notícia da Globo, de duas uma: ou quis transformar o episódio em patriotada no estilo daquelas que Geisel promoveu para comprar usina nuclear (fajuta) da Alemanha e não dos Estados Unidos, ou realmente é um governo tolo que acredita em seu próprio antiamericanismo ideológico. Talvez as duas coisas. É aquele tipo de atitude que fez com que nós, quando não ganhamos uma Copa, levamos adiante: saímos do campo dizendo que havíamos recebido o título de “campeão moral”. Não dá! É arroto infantil para além da conta.

Precisamos aprender a nos valorizar no que temos valor e não nos portarmos como ridículos naquilo que estamos sempre tendendo a ser ridículos. Nossa tecnologia é ridícula. Nossa infraestrutura é medíocre. Em termos de internet, então, estamos mais que atrasados. Há dezenas de coisas mais importantes para fazer no campo da informática e da internet do que tentar se preocupar com bloqueios da rede e criação dessa besteira de e-mail nacional. Aliás, exatamente pelo nosso atraso estrutural e tecnológico, e também de mão de obra – por conta da falta de investimento no salário dos professores –, nem temos como cogitar em nos defender de qualquer espionagem real.

Desse modo, mesmo que fosse relevante a espionagem americana, mesmo que os Estados Unidos por tal mecanismo viesse a ficar sabendo de algo que já não sabe por outros meios (inclusive o meio mais fácil, que é o da corrupção), é bem tolo imaginar que temos condição de parar a ação de qualquer outro país nesse sentido. FHC, Lula e Dilma não fizeram a lição de casa. Fizeram parte da lição, o controle da inflação (FHC) e uma ação determinada de política social (Lula-Dilma). Correto! Mas não puderam superar o eleitoralismo e, no meio do caminho, tanto a dupla PSDB-PFL quanto a dupla PT-PMDB deixaram em segundo e terceiro planos o trabalho duro de governar pensando no futuro imediato, o que implicaria em levar adiante nossa melhoria de infraestrutura.

Aliás, exatamente por isso, não é só a nossa internet que é obsoleta, mas são também fracas as ideias do governo para aprofundar, agora, a política social. Nisso, tende, em alguns aspectos, antes ir pelo populismo que por uma correta tentativa de criar um real Welfare State no Brasil. Não criou boas condições para médicos e professores e, então, põe na praça o indecoroso “Mais Médico” e anuncia o tenebroso “Mais professor”. Também essas políticas são fruto de arrocho salarial e falta de condições de trabalho. Claro que tais coisas vieram de outros governos, mas, meu Deus do céu, o ciclo FHC-Lula-Dilma já adquiriu maioridade, tem mais de 18 anos! De certo modo, também essa situação deteriorada é falta da chamada infraestrutura que, em mais de duas décadas, não encaminhamos para melhor.

Não há dúvida que a era FHC-Lula-Dilma criaram um tempo que é cem mil vezes melhor que outros, em especial o da Ditadura Militar. A renda média do brasileiro em 1992 era de 2.500 dólares e hoje é de 4.500. Melhoramos vivendo em democracia e sob os presidentes gerados na oposição ao Regime de 64. Mas, podíamos ter feito mais.

Às vezes nosso governo faz coisa que nos dá a chamada vergonha alheia. A situação de resposta à espionagem americana foi o caso. É o caso.

Paulo Ghiraldelli, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ – http://ghiraldelli.pro.br

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