Itamaraty ouve diplomata apontado como responsável por vinda de boliviano

Por iG São Paulo | - Atualizada às

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Admissão de responsabilidade de Eduardo Saboia pode ajudar a evitar uma crise diplomática entre Brasil e Bolívia

Reuters
O senador da oposição da Bolívia Roger Pinto Molina (foto de arquivo)

O Ministério das Relações Exteriores do Brasil, Itamaraty, ouve nesta segunda-feira (26) o diplomata Eduardo Saboia, apontado como principal responsável pela retirada do senador Roger Pinto Molina, 53 anos, da capital boliviana, La Paz, e por seu transporte ao Brasil. Ao longo da manhã, houve reuniões conduzidas pelo secretário-geral do Itamaraty, embaixador Eduardo dos Santos, que conversa com Sabóia nesta segunda-feira. A Bolívia cobrou o Brasil sobre o caso.

O clima no Itamaraty é de tensão, pois é a primeira vez na história recente que, em uma carreira guiada pela disciplina e hierarquia, um profissional tem sua conduta investigada por supostamente não seguir orientações de superiores, em uma questão envolvendo dois Estados – Brasil e Bolívia.

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Após nota divulgada pelo Itamaraty, informando que o Ministério das Relações Exteriores abrirá inquérito e tomará as medidas administrativas e disciplinares cabíveis, o assunto é tratado com o máximo de sigilo pelos diplomatas.

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Com mais de 20 anos de carreira, Saboia é apontado como um profissional disciplinado, competente e dedicado. No entanto, desde que assumiu como encarregado de negócios (substituto temporário do embaixador) na Bolívia, há dois meses, Saboia reiterava ao Itamaraty as dificuldades vividas por Pinto Molina, que ficou 455 dias abrigado na representação diplomática.

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Saboia esteve duas vezes em Brasília relatando que o senador boliviano sofria de depressão e estava com problemas renais. Na última ocasião em que esteve no Itamaraty, o diplomata pediu para ser removido (deixar o posto) de La Paz para outro posto no exterior ou mesmo no Brasil.

"Eu decidi falar com a imprensa e dizer que tomei a decisão de conduzir essa operação porque havia um risco iminente à vida e à dignidade de uma pessoa", disse Saboia em entrevista transmitida no domingo à noite pela TV Globo. A admissão de responsabilidade pode ajudar a evitar uma crise diplomática entre Brasil e Bolívia, um aliado e importante fornecedor de gás natural para o país.

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No Itamaraty, os diplomatas não informaram ao certo como será um eventual inquérito envolvendo Saboia. As punições, em geral, vão desde uma simples advertência oral até a exoneração da carreira profissional. Mas há os defensores de uma sanção intermediária que é a da suspensão (provisória) da carreira, considerando que seus antecedentes são todos positivos e há um histórico de bons serviços prestados.

Reação da Bolívia

O embaixador da Bolívia no Brasil, Jerjes Justiniano Talavera, pediu nesta segunda explicações ao Itamaraty sobre a retirada de Pinto Molina. O governo boliviano trata o senador como suspeito em mais de 20 crimes envolvendo corrupção e desvio de recursos públicos.

Hoje: Bolívia cobra explicações do Brasil sobre caso de senador Molina

Em entrevista à Agência Brasil, o senador boliviano negou envolvimento nos crimes financeiros e disse ser um “perseguido político” por defender o direito de a oposição ter voz na Bolívia.

A saída de Pinto Molina da Bolívia é tratada pelas autoridades bolivianas como fuga. Várias autoridades disseram que ele é um fugitivo. Mas o advogado do senador, Fernando Tibúrcio Peña, disse à Agência Brasil que o parlamentar é um “asilado diplomático” e dispõe de todos os documentos, que, inclusive, teriam sido submetidos às avaliações da Polícia Federal.

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Pinto Molina está temporariamente em Brasília, na casa do advogado, no Lago Norte, um bairro nobre da cidade. Na terça-feira (27) ele concederá coletiva na Comissão de Relações Exteriores do Senado às 15h. Em seguida, o parlamentar disse que pretende encontrar a mulher e as filhas que estão no Brasil desde o ano passado.

Percurso até o Brasil

Pinto Molina fugiu a bordo de um carro da embaixada brasileira, que percorreu 1,5 mil quilômetros até cruzar a fronteira. O advogado brasileiro do senador boliviano disse à Reuters que seu cliente saiu às 15 horas de sexta-feira da Embaixada do Brasil em La Paz em um automóvel diplomático e sob a escolta de fuzileiros navais do Brasil.

As autoridades bolivianas disseram que por esse motivo não houve revista ao carro. "Um veículo diplomático não pode ser objetivo de revista em nenhuma hipótese", disse o ministro boliviano do governo, Carlos Romero, à emissora de TV Unitel. "No trajeto eles foram parados cinco vezes pela polícia, mas Eduardo (Saboia) foi firme e impediu que revistassem o carro", disse o advogado à Reuters.

O Brasil concedeu asilo político a Pinto Molina em meados de 2012, mas as autoridades bolivianas não concederam ao senador um salvo-conduto necessário para sair do país.

"Havia uma violação constante, crônica de direitos humanos, porque não havia perspectiva de saída, não havia negociação em curso e havia um problema de depressão que estava se agravando", disse Saboia à TV Globo. "Ele começou a falar de suicídio, ele dizia constantemente que queria que nós o tirássemos de lá", acrescentou.

O encarregado de negócios disse que atuou sem a permissão do Ministério das Relações Exteriores. "Não preciso de autorizações específicas em situações de urgência."

*Com Agência Brasil e Reuters

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