Governo forçou The Guardian a destruir documentos de Snowden, relata editor

Por iG São Paulo | - Atualizada às

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Medida 'pareceu simbolismo peculiarmente sem sentido que não entende nada da era digital', afirma Rusbridger

Agentes britânicos supervisionaram a destruição de um número não especificado de discos rígidos do jornal britânico The Guardian depois que a publicação começou a veicular os vazamentos de Edward Snowden sobre um programa de monitoramento de uma das agências de espionagem dos EUA, informou o editor nesta segunda-feira (19).

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AP
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Alan Rusbridger fez o relato em um comentário publicado no site do Guardian, dizendo que dois funcionários da agência de escutas britânica GCHQ monitorou o processo em que caracterizou como "um dos momentos mais bizarros na longa história do Guardian".

Ele afirmou que os discos rígidos foram destruídos no porão do escritório do Guardian, localizado no norte de Londres, com "dois especialistas de segurança do GHCQ supervisionando a destruição apenas para garantir que não havia nada nos pedaços que poderiam ser de interesse de agentes chineses que estivessem de passagem".

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Em tom irônico, Rusbridger diz que a medida deixou o governo satisfeito, "mas pareceu uma peça de simbolismo peculiarmente sem sentido que não entende nada da era digital".

Não ficou exatamente claro quando o incidente ocorreu. Rusbridher foi vago, sugerindo que isso aconteceu por volta do mês passado. O porta-voz do Guardian Gennady Kolker se recusou a fazer mais comentários. Rusbridger disse que a destruição foi o ponto alto de semanas de pressão de autoridades britânicas sobre o jornal.

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Pouco depois que o Guardian começou a publicar reportagens baseadas nos vazamentos de Snowden no início de junho, ele disse ter sido contatado por uma "autoridade de alto escalão do governo, alegando representar as visões do primeiro-ministro", que exigia a devolução ou destruição do material de Snowden.

A isso se seguiu uma série de reuniões cada vez mais difíceis em que as autoridades exigiam que o Guardian comparecesse. Eventualmente, ele afirmou, autoridades ameaçavam entrar com uma ação na Justiça para impedir o Guardian de publicar as informações. Depois disso, os agentes britânicos decidiram entrar no porão e destruir os discos rígidos.

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Um porta-voz do premiê britânico David Cameron se negou a comentar.

Rusbridger disse que a destruição não impede o Guardian de publicar reportagens, sugerindo que cópias dos arquivos de Snowden estavam seguras em outro lugar e que as reportagens continuariam a ser publicadas fora do Reino Unido. Ele acrescentou que a recente detenção de David Miranda - parceiro do repórter do Guardian Glenn Greenwald - e a apreensão de seu computador, fones e outros aparelhos não afetaria o trabalho de Greenwald.

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Os vazamentos de Snowden - publicados no The Guardian, The Washington Post e outras publicações - expuseram os detalhes do aparato global de monitoramento dos EUA, provocando um debate internacional sobre os limites da vigilância americana. E, enquanto legisladores discutiam reformas e grupos de liberdades civis entravam com ações na justiça, jornalistas vinham lutando com as implicações do monitoramento de massa.

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Rusbridger disse na segunda-feira que espiões estavam ficando tão poderosos que "daqui a pouco será impossível para os jornalistas terem fontes confidenciais".

Com AP

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