Menor dependência de petróleo do Oriente Médio altera política dos EUA na região

Por Luciana Alvarez - especial para o iG |

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Intervenções militares tendem a diminuir enquanto EUA caminham para a autossuficiência por volta de 2035

Até hoje, a razão de fundo para envolvimento americano nas recentes disputas e conflitos no Oriente Médio costumava ser uma só: petróleo. Mas os EUA estão passando por mudanças que em poucos anos podem pôr fim à dependência de combustível externo. Embora analistas internacionais não prevejam um desengajamento total, a dita “revolução energética” americana já altera as políticas do país para a região.

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Bomba de petróleo opera no deserto de Sakhir, no Bahrein (1/8)

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Com um menor apetite pelo combustível do Oriente Médio, o governo americano tem optado por intervenções de cunho mais diplomático, reduzindo substancialmente sua presença militar. Para citar exemplos recentes, os EUA preferiram não promover nenhuma ação direta na guerra civil na Síria nem no golpe de Estado no Egito. Em comparação, tiveram papel muito mais assertivo em conflitos anteriores, como na Guerra do Golfo.

Segundo especialistas, foi essa nova fase nas relações com o Oriente Médio que motivou Obama a patrocinar a atual rodada de negociações entre israelenses e palestinos: uma tentativa de deixar um legado, mas com intervenção de “baixo custo”. 

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“Ainda há muitas razões de interesse dos EUA no Oriente Médio. Mas a tendência é que a relação econômica direta com a região não seja tão importante para os americanos quanto é para a União Europeia (UE) e as principais economias do leste asiático”, afirmou ao iG o economista e escritor americano Daniel Altman.

A questão da escassez de recursos dominava as preocupações econômicas americanas e afetava a geopolítica global ao menos desde a Segunda Guerra (1939-1945). Os EUA, que no início do conflito eram o principal produtor de petróleo do mundo, tornaram-se em poucos anos o grande importador. Para sustentar o seu “vício em petróleo”, os americanos acabaram dependentes dos países produtores – e o acesso ao petróleo se tornou uma preocupação central de sua política externa.

Agora, graças a novas tecnologias, a produção de petróleo em território americano cresceu depois de mais de 30 anos de declínio. A nação também tem diversificado os países dos quais importa, usado novas fontes energéticas e tornado o consumo mais eficiente. “A enorme dependência levou os EUA a adotar políticas intervencionistas em determinadas partes do mundo. Ao buscar a independência energética, o objetivo tem sido o de reduzir seu nível de vulnerabilidade”, afirma Marcus Vinícius de Freitas, coordenador do Curso de Relações Internacionais da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap).

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E parece que têm conseguido. As importações americanas de combustível da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) caíram mais de 30% nos últimos três anos. Em 2011, os americanos importaram 2,5 milhões de barris por dia de países do Oriente Médio, equivalente a 26% do montante que importam. A Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) prevê que os EUA podem ser autossuficientes em petróleo por volta de 2035.

A China, em compensação, está cada dia mais sedenta do combustível do Oriente Médio. Em 2011, foi o principal importador, com 2,9 milhões de barris por dia, quantidade equivalente a 60% de suas necessidades. A projeção da IEA é que, até 2035, as importações cresçam para 6,7 milhões barris/dia. Outro grande dependente do petróleo da região é o Japão: em 2011, as importações vindas do Oriente Médio cobriram 87% de suas necessidades.

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Embora tragam mudanças políticas, esses novos números sobre produção e importação de petróleo não representam uma simples passada do bastão intervencionista, das mãos dos americanos para a dos chineses e japoneses.

Para começar, a economia americana, assim como a de boa parte do mundo, se manterá ainda por muito tempo inexoravelmente sob influência do preço internacional do petróleo. “Mesmo que os EUA não importem nenhuma gota, seu futuro econômico estará atrelado ao preço mundial. Afinal, as pessoas dentro do país ainda comprarão petróleo”, explica Altman. Uma eventual alta de preços no mercado internacional implicará em alta também em solo americano, afetando a economia local.

Há ainda outras preocupações que não terminam com o possível fim da dependência energética, como a temor de o Irã desenvolver armas nucleares e a importância de se manter aberta a rota comercial pelo Estreito de Suez, lembra o economista americano.

A questão do contraterrorismo pode permanecer como preocupação imediata, mas, em longo prazo, se os EUA de fato intervirem menos no Oriente Médio, ela deve ser amenizada, acredita Freitas. “O terrorismo é uma contra resposta à presença americana na região. Um dos objetivos de Osama bin Laden era, justamente, a remoção da presença americana do território saudita. Uma diminuição da presença poderia implicar a redução da ameaça terrorista”, explica.

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E, como a China tem usado cada vez mais o combustível do Oriente Médio, é provável que seu governo passe a ter um papel mais ativo na região, ao menos em situações que ameacem diretamente o fornecimento de petróleo. Um exemplo da nova postura ocorreu em janeiro de 2012, quando o então primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, fez uma crítica pública ao Irã, algo até então inédito.

Mas não é só a China que terá de rever suas estratégias para a região, diz Freitas: Japão e UE também podem ser afetados. “Considerando que um eventual desengajamento dos EUA implicaria uma desestabilização no mundo árabe, isso poderia, no caso europeu, resultar em um aumento do fluxo migratório, o que constitui um dos grandes temores europeus em face de seu baixo crescimento demográfico”, diz.

E existem mais elementos com o potencial de alterar o cenário de interesses políticos e econômicos no Oriente Médio. Freitas cita as pesquisas em desenvolvimento pelos americanos para aproveitar o xisto betuminoso, matéria orgânica precursora do petróleo, como fonte de energia substituta.

“Projeções estimam que os EUA possuam reservas de óleo de xisto de mais de 2 trilhões de barris, o equivalente a oito vezes o tamanho das reservas de petróleo da Arábia Saudita”, afirma o professor, lembrando que também a China é detentora de uma das maiores reservas de xisto betuminoso no mundo.

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