Arendt em clima de Walking Dead

Por iG Rio de Janeiro - Paulo Ghiraldelli Jr |

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Filme sobre filósofa alemã de origem judia ajuda a entender a ferocidade de Israel nos dias de hoje

O que é realmente humilhante? Morrer como um inseto, mas se sabendo um inseto. Isso é humilhante. Mas morrer como um inseto, reconhecendo-se inseto e sob as botas de um idiota que o derrotou, isso sim é humilhante para valer. O que Hannah Arendt fez com os judeus logo após o julgamento de Eichmann foi humilhar os judeus ainda mais que isso. O que ela fez foi contar ao mundo que eles haviam sido mortos como insetos nas botas de um vencedor que não era um monstro ou um demônio, mas simplesmente um simplório, um medíocre qualquer, um idiota.

Isso quase a transformou em uma partidária do antissemitismo aos olhos da comunidade judaica de Nova York. Até seus amigos mais queridos, lá em Israel, lhe viraram o rosto. Como já havia acontecido em Atenas e, depois, em tantos outros lugares, o filósofo não foi entendido e teve de pagar um preço alto pela burrice alheia e pela sua necessária ingenuidade. Afinal, um filósofo não ingênuo não seria filósofo.

Esse é o conteúdo do filme Hannah Arendt (Margarethe von Trotta, Alemanha, 2012). É uma película com dupla (ou tripla?) linguagem. Para quem leu alguma coisa de filosofia, soa interessante, para quem não leu nada, mas não é inculto, soa como um filme quase didático, mas não necessariamente chato. Para quem é filósofo, o filme é mais que um desafio, é um grande tapa na cara.

Cena do filme 'Hannah Arendt'. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Hannah Arendt'. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Hannah Arendt'. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Hannah Arendt'. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Hannah Arendt'. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Hannah Arendt'. Foto: Divulgação

O filme requisita o filósofo para a responsável inconsequência da filosofia, que é a essência do filosofar, exatamente aquilo que professores de filosofia hoje em dia, os filósofos que temos, mais temem. Tudo que eles não querem é cair na desgraça entre seus pares e diante do poder. Por conta disso, permanecem como professores, mas abandonam a filosofia. Por exemplo, eles gostam de acreditar que podem desprezar a mídia e, com isso, fingir que estão afrontando o poder. Mas eles não fazem nada disso. Eles não têm a coragem intelectual necessária para o que Arendt propôs: antes de tudo, entender.

Entender é para Arendt o que ela diz no filme, película bastante fiel aos escritos da filósofa, a tarefa que pode muito bem ser separada dos juízos morais de condenação, principalmente os que pedem urgência de modo a reiterar os julgamentos já feitos. Tudo que pede urgência deve ser visto com desconfiança, não para que se possa fazer o elogio da morosidade e da preguiça, mas para que se possa levar em conta uma questão a mais: por que urgência?

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Arendt apresentou seus artigos sobre o julgamento de Eichmann, que ela viu ao vivo, somente quando achou que eles estavam prontos. Os judeus do mundo todo esperavam ler aquilo que eles próprios, sem filosofia, já haviam decidido encontrar em qualquer texto sobre Eichmann. Ele era um monstro. Um monstro com poder. Uma inteligência do mal. Eichman era a encarnação do mal de modo que o mal pudesse ser o protagonista da história cavalgando um bruto horrível e importante. No entanto, nos artigos de Arendt, como o filme mostra bem, Eichmann emerge como um zero à esquerda.

Os judeus mortos na Guerra, os seis milhões, nada haviam sido senão elementos bovinos que não reagiram não porque o inimigo era sagaz, mas por razões outras, inclusive algumas não nobres. O carrasco não era outro senão aquele tipo de burocrata que nunca poderia fazer outra coisa senão lamber os selos, colá-los e bater um carimbo sobre eles. Eichmann não era um oficial nazista imponente. Ou melhor, Eichmann era sim um oficial nazista e, como tal, com casca imponente. Um nazista típico.

Arendt o chamou de idiota porque ele era igual a todos os outros nazistas, apenas um simplório que jurou diante de outro homem que ele iria lamber selos, e lambeu. Cumpria ordens. De fato! Cumpria ordens exatamente porque jamais faria outra coisa no mundo complexo que é o mundo moderno. Essas ordens não eram outras senão as de lamber selos e bater carimbos. Mandar pessoas para a câmara de gás era exatamente isso. A crueldade de Eichmann não vinha dele esfregar as mãos ao mandar judeus para os campos de concentração. A crueldade dele se fez sem ele pensar nelas, nas pessoas que colocou na direção do campos de concentração. Exatamente: ele não tinha a capacidade de pensar.

Pensar! Nos livros de Arendt como no filme, o pensamento não é a atividade comum que nos faz levar a vida que levamos quotidianamente, mas a atividade que ela vê, em suas primeiras descrições feitas por Platão e Aristóteles, no que eles notaram como uma conversa que fazemos estando sozinhos. Nos livros, não no filme, Arendt chama isso de "o dois em um" de Sócrates (em especial no livro A vida do espírito). Trata-se daquilo que ela mesma saca do Hípias maior, de Platão, quando Sócrates diz que precisa entender bem Hípias, o sofista com quem dialoga, porque ao chegar em casa será questionado por um amigo que mora lá com ele, e esse amigo, sendo "uma peste", irá fazer perguntas toscas, rudes, sempre não entendendo e não entendendo uma vez mais.

Arendt avalia que Sócrates está descrevendo, da maneira que pode, sua própria atividade de pensamento enquanto atividade reflexiva e de consciência. Tomada de consciência - é isso. Isso é pensar, e é assim que ela tem de ser entendida quando diz que Eichmann era um homem comum, fazia o que todos fazem: possuem um monte de coisa na cabeça, mas pensar, não pensam.

O filme não chega a esse pé de didatismo - felizmente! Mas o filme não passa por cima disso. Diz-se claramente, ali, que o Eichmann de Arendt é aquele que se encaixou onde se encaixou, no âmbito da SS, exatamente por ser o que a SS requisitava de todos, até mesmo de Hitler: a idiotia. Alguém incapaz de ter uma conversa consigo mesmo e "por a mão na consciência" - eis aí o nazista típico. Eichmann nunca se importou para onde iam os judeus porque nem mesmo se perguntava isso, tão preocupado que estava com sua língua encostada em seu selo. Eichmann era o suprassumo da raça que um dia Weber achou que poderia ter alguma utilidade, os burocratas.

Weber quis mostrar que a burocratizarão do Estado e das instituições modernas garantiam a elas um certo profissionalismo, a saber, a continuidade da atitude de isenção, necessária para que de fato no mundo moderno, diante do balcão político, a política não atrapalhe. Eichmann foi escolhido a dedo para tal serviço. A política não o atrapalhou. Nem a guerra. Nada. Ele recebia os judeus e os encaminhava para setores adrede preparados, como qualquer elemento de RH de uma empresa grande, já incapaz de saber de fato as qualidades de cada funcionário. Ao mostrar isso, Arendt deixa todos perplexos: então nós, judeus, somos essa raça passiva, aferrada ao dinheiro e ao mundo, incapaz de reagir a um homem que lambe selos? De certo modo, a resposta de Arendt na época do julgamento, e como o filme mostra, é um fervoroso "sim". O nazismo não corrompeu só os que se tornaram nazistas, mas toda a Europa, inclusive as fileiras das vítimas. Elas se tornaram tão burocratizadas quanto seus algozes.

Sempre o que o assunto é nazismo, e sempre que chegamos a esse ponto, não há como não lembrar das análises de Adorno. Ele escreveu (no Minima moralia) que em algum momento da Guerra as perdas e derrotas, ao menos algumas, começaram a ser noticiadas pelo governo nazista sem qualquer censura. Era necessário chocar a população. Ele conta que um líder nazista dizia: "podem nos acusar de tudo no futuro, menos de que éramos um tédio". Mas havia, sim, o tédio. E as notícias tinham uma utilidade. Era como se tivessem que injetar adrenalina via imprensa em um povo que estava completamente anestesiado, e que, portanto, poderia começar a decair na sua fúria necessária para o esforço da Guerra. Aqui, não há como não fazer um paralelo com situações nacionais, nossas e atuais.

No Brasil atual há uma praia em que os tubarões comeram duas moças. Aliás, elas foram avisadas que não podiam nadar ali, mas caminharam para a morte saltitantes. Após esse episódio, essa praia passou a ser mais frequentada o que já ocorria. As pessoas foram para lá em busca de uma única coisa: adrenalina. Sim. O Brasil é um país de paz. Tivemos a Guerra do Paraguai, bem esquecida. Tivemos nossa ida para Monte Castelo, propositadamente esquecida. Até mesmo nosso período negro na Ditadura Militar foi menos sangrento que o de outros países. Como dizia Monteiro Lobato, em uma frase que às vezes é mais mal entendida do que merece, aqui no Brasil sequer conseguimos ter uma KKK.

Em outras palavras: somos um povo que tem, como outros, uma história que contém sofrimentos, mas não uma história em que quotidianamente a adrenalina é posta na ordem do dia em nossa vida social. Nossa vida social é calma. Nunca aconteceu - como já ocorreu em Buenos Aires - de termos de apagar as luzes de São Paulo ou Rio ou Brasília, esperando um ataque aéreo. Isso é adrenalina. Isso muda um povo.

O americano está sempre em guerra. Há uma adrenalina constante na América. Nós estamos sempre na paz de Deus. Deus é brasileiro. Nós precisamos de artifícios para que em nosso sangue exista de volta alguma adrenalina. Caso contrário, o tédio nos toma. Procuramos tubarões como a classe média rica procurava FHC para discursos, nos anos setenta, onde ele falava mal da burguesia no meio da sala de estar desta mesma burguesia, e comendo seus queijos. As senhoras que o convidavam para falar, e que hoje estão mais recolhidas e preferem ter ídolos bem mais conservadores, inclusive filósofos, queriam ser ofendidas. Elas tinham um pouco de tesão pelo jovem sociólogo de cabelos então rebeldes. Hoje alguns da direita as fazem ficar rebeldes nos Jardins, em São Paulo, e alguns até falam para elas, no Rio, que devem colocar colar de tomate. Mas é a mesma coisa: um pouco de emoção é tudo que se precisa para não sermos consumidos pelo tédio, pelo amortecimento que existe em sociedades altamente embrutecidas pela modernização rápida, a burocratizarão crescente e a tecnologização incompreensível para muitos.

O Brasil da paz é a Alemanha da Guerra sob o totalitarismo: a burrice, a idiotia, a incapacidade de fazer outra coisa que não lamber o selo torna-se a regra. Então, se há rebeldia, ela é falsa ou conservadora. Qualquer rebeldia verdadeira - como os nossos protestos de junho - são então criticados pelos que até então posavam de rebeldes na imprensa. Afinal, estes até então eram os rebelde oficiais, os vociferastes contra o "o politicamente correto". Eles faziam a rebeldia semanal que era a de lamber o selo duas vezes. Lambiam mais que o permitido! Nossa, que rebeldes!

O que Arendt entendeu por "entender o fenômeno Eichmann" foi exatamente isso: ele era um criminoso de guerra, sem dúvida, mas ter sido morto por ele não podia transformar ninguém em herói. O que emergiu com o Estado de Israel, principalmente após esse episódio que o filme conta, talvez possa ser entendido melhor agora. Israel se tornou uma democracia orgulhosa de si e ao mesmo tempo belicosa. É como se os judeus tivessem todo dia que dizer: não somos mais os mesmos, os insetos do idiota Eichmann, agora, se morrermos todos, terá de ser nas mãos de alguém como alguma inteligência e efetivamente violento, alguém capaz de se fazer malevolente. Alguém que possa passar da teoria para a ação fazendo-se importante como instrumento, no sentido que Peter Sloterdijk tem caracterizado o sujeito moderno (tendo os jesuítas como exemplo).

Hoje, poucos entendem o Estado de Israel, quando este reage aos ataques com ataques redobrados e ferozes. É que os judeus não foram massacrados somente. Muitos outros povos o foram. Os judeus foram massacrados por um burocrata.

A ferocidade de Israel é quase que uma forma de fazer com que a praia tenha tubarões, de modo que a guerra não pare e de modo que ninguém no mundo do Oriente Médio possa sentir tédio. Todo mundo tem de ficar aceso, pensativo, reflexivo, tensionado entre a bonança e o serviço militar obrigatório de três anos para moços e moças. Ninguém deve ficar sem o seu tubarão. Ninguém pode se permitir matar colocando selos. Todos devem provocar a reflexão, inclusive a do inimigo, cujo fanatismo parece o dos nazistas, mas só parece. Os nazistas foram diferentes. Eles foram cruéis, eram fanáticos, mas antes de tudo eram simplórios, idiotas, lambedores de selo, batedores de carimbo. Estiveram durante todo o tempo comendo carne humana, mas como se faz no Walking Dead.

Os judeus querem viver. Mas se tiverem de morrer, não querem morrer por que o mal se tornou algo tão banal quanto Eichmann, ao menos na visão interessante da "aluna querida de Heidegger".

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