Cenário global e busca por legado impulsionam diálogo de paz no Oriente Médio

Por Luciana Alvarez - especial para o iG | - Atualizada às

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Instabilidade da Primavera Árabe e desejo de governos de ficar na história marcam esforço entre Israel e palestinos

Mais uma vez, negociações de paz tentam pôr fim – ou pelo menos amenizar – a tensão que existe entre Israel e palestinos desde 1948, quando o Estado judeu foi fundado. Mais uma vez, o governo americano joga pesado para conseguir algum avanço. Desde janeiro, quando assumiu o cargo de secretário de Estado dos EUA, equivalente ao ministro das Relações Exteriores do Brasil, John Kerry já viajou seis vezes ao Oriente Médio tentando costurar as linhas gerais para uma aproximação entre os dois lados. E, em março, o próprio presidente Barack Obama foi a Israel.

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AP
Secretário de Estado John Kerry é visto entre a ministra da Justiça de Israel, Tzipi Livni (D), e o negociador-chefe palestino, Saeb Erekat, no Departamento de Estado (30/7)

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Para analistas internacionais, a nova configuração de forças globais, a busca por deixar um legado na política externa, assim como mudanças desfavoráveis a Israel e aos EUA em outros países do Oriente Médio, pressionam os governos a buscar um progresso nas conversas de paz com os palestinos, que por muito tempo ficaram congeladas.

Segundo Bernardo Wahl, professor de pós-graduação da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), Obama passou a dar mais atenção a outras partes do mundo, como a Ásia, e, portanto, está alterando a estratégia para o Oriente Médio. “Os EUA precisam de uma vitória de baixo custo em sua política externa, particularmente no Oriente Médio. Agora eles querem se basear mais em alinhamentos regionais e evitar qualquer intervenção direta nos conflitos. Basta atentar para seu tímido papel na guerra civil da Síria”, disse.

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A preocupação de como a história avaliará seu governo também conta. “O presidente Barack Obama chega a quase metade de seu segundo mandato sem haver deixado um legado para as futuras gerações na área internacional, apesar de haver recebido o Prêmio Nobel da Paz em seu primeiro ano de governo. No contexto internacional, muitas das promessas das campanhas foram relegadas a um segundo plano. Guantánamo segue operante e há um certo desengajamento dos EUA em muitas partes do mundo”, afirmou ao iG Marcus Vinícius de Freitas, coordenador do Curso de Relações Internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP).

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Para Freitas, um possível legado também pesaria muito para Kerry, que já teve pretensões presidenciais, assim como para o atual primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.

Outro fator a “incentivar” uma nova rodada de conversas de paz neste momento é que a região, que ainda mantém grande importância estratégica global, ficou mais volátil nos últimos anos, opinou Luiz Augusto de Castro Neves, presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).

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“O governo dos EUA resolveu investir tendo em vista, entre outros fatores, o fato de que tudo parece estar dando errado no Oriente Médio – Síria, Egito, o impasse nuclear iraniano”, afirmou. Assim, as negociações entre palestinos e israelenses passariam a ser “o único fato positivo” na região.

Para Israel, o momento também parece propício a fazer novos esforços, depois que a Primavera Árabe provocou a ascensão política de grupos religiosos ainda mais hostis à ideia da existência do Estado judeu. “A chamada Primavera Árabe foi mais um inferno do que primavera. Mas mesmo nesse campo parece haver alguma reversão. Em todo caso, os palestinos nesse contexto árabe são hoje os mais laicos, e uma negociação com Israel poderia ter avanços”, avaliou Castro Neves.

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Além disso, com a recente deposição do presidente Mohammed Morsi no Egito e, por consequência, da Irmandade Muçulmana, o Hamas, grupo islâmico que controla a Faixa de Gaza desde 2007, perde apoio e se enfraquece, lembrou Wahl. “Sob a perspectiva de uma negociação geral entre Israel e ‘Palestina’, isso dá mais poder de barganha aos israelenses”, afirmou.

Os palestinos querem um Estado com Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental, mas o Hamas não reconhece o presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, como seu representante nas negociações.

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Outro ponto que pode influenciar positivamente as novas negociações é o cenário internacional mais amplo. “Existe certa antipatia da comunidade internacional pela questão israelo-palestina, levando a um cansaço no tocante a uma situação conflituosa, que se perpetua no tempo”, explicou Freitas.

Portanto, seria importante para os dois lados aproveitar o momento atual e o forte comprometimento americano, acredita o professor da Faap: “A alteração em curso no quadro de dependência energética dos EUA poderá implicar um desengajamento da região, o que seria problemático para todas as partes envolvidas.”

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Obviamente ninguém espera um fim definitivo para um conflito tão longo e complexo, e ainda é cedo para arriscar qualquer prognóstico. “Se vai dar certo, ninguém sabe, mas pelo menos ganha algum tempo à espera de dias melhores na região”, completou Castro Neves.

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