Crise no Egito preocupa outros países do instável Oriente Médio

Por Nahum Sirotsky - colunista em Israel | - Atualizada às

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Nações da região prometem ajuda financeira a país para evitar contágio do ímpeto de revoltas em seus territórios

O Oriente Médio é uma das regiões mais antigas do nosso mundo, com história de milhares de anos. A lenda diz que foi onde Deus criou Adão e Eva, no encontro dos dois grandes rios Tigre e Eufrates, origem da civilização. O homem vivia da pesca e da caça e verificou, acidentalmente, que bastava jogar sementes na terra para que se transformassem em alimento. Daí nasceram os primeiros assentamentos de seres humanos em Babel, Babilônia, onde houve o desencontro das línguas e a grande confusão que existe no mundo desde então.

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Partidários do presidente deposto Mohammed Morsi rezam depois da quebra do jejum durante o mês sagrado do Ramadã em Nasr City, Cairo, Egito

Depois do dilúvio, diz a lenda que foi na Turquia onde Noé parou seu navio e começou então a chamada “Geração de Noé”, a nossa, pois a anterior morreu afogada. Durante milhares de anos, no Oriente Médio atuaram grandes conquistadores como Alexandre, além de na região terem sido inventadas armas, técnicas de combate, táticas e estratégias. Mas até agora todas as religiões monoteístas que nasceram na região, começando com o primeiro contato de Abraão com Deus no que é hoje Iraque, incluem em suas preces o sonho jamais realizado da paz entre as nações.

É a região mais intranquila do mundo de hoje. O choque entre rebeldes das tendências menos compatíveis entre si contra o presidente da Síria, Bashar Al-Assad, já resultou na destruição de alguns dos mais antigos e preciosos monumentos da antiguidade. Cerca de 100 mil já teriam sido mortos, mas a comunidade internacional ainda não conseguiu definir que tipo de conflito lá existe para poder interferir e trazer de volta a paz.

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A Síria faz fronteira com Israel. O Hezbollah, partido líbanês xiita, combate ao lado de Assad contra a vontade do povo do Líbano, que não tem forças para lhe impor outro comportamento. O Jerusalém Post, tradicional diário editado em inglês, informou na madrugada de quinta-feira que os israelenses estão reforçando, por todos meios, a força que mantém no norte, pois existe a suspeita de que o Hezbollah poderá lançar operações a partir dos limites sírios.

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No entanto, a preocupação maior do Oriente Médio é com o caso egípcio. A maioria dos muçulmanos do Egito é sunita. A Irmandade Muçulmana, criada em 1928, também é, mas seus planos para a desejada conquista do poder são de criar um país sob a sharia, Lei do Alcorão. Com a ascenção de Mohammed Morsi à presidência por eleições diretas no ano passado, a Irmandade imaginou que sua hora estivesse chegando.

O levante popular atual com uso intensivo de redes sociais como meio de comunicação levou cerca de milhões de egípcios às ruas, com a Irmandade dizendo que defendia os direitos democráticos. Com vivência de um país mais liberal, grande parte da população não aceitou Morsi. Quer preservar os direitos de livre acesso a meios de divertimento, beber, ler livros, ver filmes, além de revoltar-se pelo alto índice de desemprego.

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O governo provisório instalado após a deposição de Morsi está sob pressão do Exército para dar prioridade à criação de novo mandato por meio de eleições. A polícia, com apoio militar, tenta impor a ordem, incluindo atirando contra multidões. Muitos dirigentes da Irmandade foram detidos. Outros passam à ilegalidade.

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Os demais países árabes querem o Egito mais liberal como era antes. Todos eles são infiltrados por grupos da Irmandade Muçulmana, ameaça permanente à estabilidade existente. E enquanto o governo americano não decide se o que houve no Egito foi um golpe militar ou uma revolta da massa, pois a legislação americana proíbe o uso de ajuda militar a governos “ilegais”, a Arábia Saudita , sunita fundamentalista, já prometeu uma grande contribuição ao Egito. Kuwait, Catar, entre outros, também garantem remessas.

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Partidários do presidente deposto do Egito Mohammed Morsi seguram seus cartazes em protesto perto da Universidade do Cairo, no Egito

Falta de tudo no Egito. É urgente criar a sensação de que dias melhores virão. Os países árabes do Oriente Médio não querem nenhuma intranquilidade na região, muito menos o contágio do ímpeto de revoltas. É possível uma censura à televisão, às redes sociais, mas há elementos incontroláveis que representam o maior instrumento já criado para congregar massas em torno de objetivos. Ainda é cedo para afirmar que voltará, em breve, a tranquilidade.

Pouco se tem destacado que os EUA estão muito próximos da autonomia em fontes energéticas. Em termos geopolíticos, o Oriente Médio cresce como aborrecimento e diminui como importância. Os países de grande significado estratégico para a região são Turquia, Irã e Israel. São os que concentram as maiores preocupações americanas na região. As questões que ganham dimensão estão no Oriente, que passa ter maior importância na política americana.

*Com colaboração de Nelson Burd

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