Latino-americanos preparam declaração conjunta de repúdio à espionagem dos EUA

Por iG São Paulo |

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Documento deve ser divulgado na sexta, em reunião do Mercosul. Milhões de dados foram interceptados, diz jornal

Os presidentes latino-americanos preparam para sexta-feira (12) a formalização de um documento em que repudiam o monitoramento pelos EUA de dados na internet e de telefonemas de cidadãos da América Latina.

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Agência Brasil
O ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, disse que o Brasil não vai conceder asilo político ao norte-americano Edward Snowden (09/07)

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Inicialmente, a ideia é que a declaração exponha a preocupação com as denúncias de espionagem, a gravidade que elas representam e o fato de serem inaceitáveis. Além do Brasil, o Chile, Colômbia, o México, Equador e a Argentina se manifestaram sobre o assunto, condenando o monitoramento externo de informações de cidadãos.

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O tema será abordado na Cúpula do Mercosul, em Montevidéu, no Uruguai, nesta quinta (11) e sexta. Mas antes, os chanceleres do Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Venezuela - o Paraguai está suspenso temporariamente) e da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) se reúnem nesta quinta para definir os termos do documento. O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Antonio Patriota, ressaltou que o tom do documento será coerente com as premissas da política externa brasileira.

Ao ser questionado se o governo do Brasil pretende elevar as críticas e reações aos EUA, como fizeram alguns países da região, o chanceler disse que os brasileiros têm uma posição bem definida. “O Brasil ouve (os demais países), mas não costuma seguir. O Brasil formula suas próprias posições de acordo com os interesses nacionais e com a política externa brasileira”, destacou.

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Na Cúpula do Mercosul, também serão discutidos outros temas polêmicos envolvendo os parceiros latino-americanos. A expectativa é de que presidentes dos países da Unasul (composta por 12 nações, apesar de o Paraguai estar suspenso) participem da reunião no dia 12. Em pauta, o fim da suspensão do Paraguai do Mercosul e da Unasul.

Os paraguaios querem que o retorno seja imediato, mas o Uruguai avisou que a suspensão só acabará após 15 de agosto, depois da posse do presidente eleito Horacio Cartes. O Paraguai foi suspenso dos blocos regionais porque os líderes entenderam que houve rompimento da ordem democrática durante o processo de impeachment do então presidente Fernando Lugo, em junho de 2012.

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Também está em pauta a moção de apoio ao presidente da Bolívia, Evo Morales. Ele teve o avião proibido de sobrevoar e aterrissar na França, em Portugal, na Itália e na Espanha, quando voltava da Rússia, onde participou de reuniões técnicas sobre produção de petróleo.

A proibição, segundo as autoridades bolivianas, foi causada pela desconfiança dos europeus de que o ex-técnico da CIA Edward Snowden, que trabalhava para uma prestadora de serviços da Agência Nacional de Segurança (NSA, na sigla em inglês), estivesse na aeronave presidencial.

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Com informações vazadas pelo americano Snowden, o jornal brasileiro O Globo afirmou na terça que a NSA realizou atividades de espionagem, priorizando Colômbia, Brasil e México. Mas as atividades de vigilância também atingiram Argentina, Equador, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, Paraguai, Chile, Peru e El Salvador, de acordo com o jornal.

A exemplo dos representantes do Mercosul, em Cochabamba (Bolívia), na semana passada, e da Organização dos Estados Americanos (OEA), os presidentes deverão aprovar uma declaração exigindo explicações e desculpas a Evo pelos quatro europeus.

Vulnerabilidade brasileira

No Brasil, o embaixador norte-americano, Thomas Shannon, foi convocado a prestar esclarecimentos às autoridades. Ele conversou com os ministros Antonio Patriota (Relações Exteriores), Paulo Bernardo (Comunicações) e José Elito Siqueira (Gabinete de Segurança Institucional). Shannon prometeu colaborar com as autoridades e investigar as denúncias.

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AP
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Segundo informações do Globo, emails e telefonemas de brasileiros foram monitorados. As reportagens mostram também que havia uma espécie de escritório da NSA em parceria com a CIA em Brasília.

Na quarta, o ministro da Defesa brasileiro, Celso Amorim, admitiu que o Brasil está "na infância" em temas como segurança cibernética. "As vulnerabilidades existem e são muitas", afirmou em reunião da Comissão de Relações Exteriores do Senado.

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Amorim ressalvou, por outro lado, que o Brasil não está sozinho nessa situação. O próprio secretário da Defesa dos EUA, Chuck Hagel, reconheceu o risco de o país viver um "Pearl Harbor cibernético", em referência ao ataque que foi uma operação aeronaval à base norte-americana, efetuada pela Marinha Imperial Japonesa na manhã de 7 de Dezembro de 1941.

Países europeus, como a Alemanha, foram igualmente pegos de surpresa pela dimensão do suposto monitoramento dos dados. O sistema brasileiro é particularmente frágil porque os programas de segurança são todos estrangeiros. "Meu computador, por exemplo, eu aperto um botão e ele deve ligar direto na Microsoft", afirmou. "E sou ministro da Defesa."

Ele defende o desenvolvimento de equipamentos e programas nacionais. O País é vulnerável também porque todas as comunicações, "inclusive as de Defesa", passam por um satélite que não é do País. "Isso torna mais frágil a segurança", afirmou. O governo prepara a montagem de um satélite geoestacionário brasileiro. "É prioridade da Defesa, inclusive porque ela terá uma faixa própria", declarou.

*Com Agência Brasil e Agência Estado

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