Relembre os principais protestos ao redor do mundo nos últimos anos

Por iG São Paulo |

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Movimento desatado pela redução da tarifa do transporte público no Brasil ocorre em meio a contexto de ebulição e tomada de ruas em diversos países

Os protestos que se espalham por várias cidades no Brasil por causa do aumento das tarifas do transporte público ocorrem em um contexto mundial de ebulição e tomada das ruas por manifestantes. Apesar das demandas e históricos diferentes entre as mobilizações no Brasil e em países como Turquia e as nações-palco da chamada Primavera Árabe, por exemplo, as manifestações no exterior acabam sendo uma inspiração para os jovens brasileiros, que passaram a se apropriar de símbolos e denominações das mobilizações que acontecem ao resto do mundo.

Leia mais: Inspirados pela revolta turca, jovens engrossam passeatas pelo Brasil

AP
Manifestante usando máscara em referência ao 'V de Vingança' segura computador em Túnis, na Tunísia (7/2)

Um terreno comum entre todas as manifestações registradas desde 2009 é o uso intenso de mídias sociais - Facebook, YouTube, Twitter - como divulgadoras e catalisadoras dos protestos.

Relembre os principais protestos ao redor do mundo desde 2009:

Protestos pós-eleitorais no Irã

Onde: Teerã, Mashhad, Isfahan, Karaj, Tabriz e outras cidades

Quando: Junho de 2009

Motivação: As eleições do Irã foram extremamente disputadas entre o então presidente do Irã, o conservador Mahmouhd Ahmadinejad, e o ex-premiê moderado Mir Hossei Mousavi. Quando Ahmadinejad foi reeleito com 62,6% dos votos, Mousavi alegou fraude nas eleições e pediu para que uma nova votação fosse realizada. Milhares de manifestantes que contestaram os resultados nas urnas saíram às ruas, fato sem precedentes no país persa desde a Revolução Islâmica, em 1979.

Reivindicações: Anulação dos resultados eleitorais e liberdade de expressão.

Repressão: A violenta repressão do governo aos protestos deixou dezenas de mortos e centenas de feridos. Em uma das manifestações mais emblemáticas - que ficou conhecida como "Sábado Negro" -, ao menos dez manifestantes morreram em 20 de junho, incluindo Neda Agha-Soltan, uma estudante iraniana que virou símbolo da oposição.

Desfecho do movimento: Desde 2011, Mousavi e sua mulher estão em prisão domiciliar. Os protestos, conhecidos como Movimento Verde, foram considerados um dos precursores da Primavera Árabe, mas, sufocados com a violenta repressão, perderam a força dentro do Irã. Nas eleições presidenciais de 2013, a oposição foi enfraquecida pelos clérigos, que, liderados pelo aiatolá Ali Khamenei, mantêm a supremacia de seu poder sobre o presidente.

Flickr
Terceiro dia de protestos reúnem milhares nas ruas de Teerã, Irã (2009)


Primavera Árabe: Tunísia

Onde: Sidi Bouzid, Túnis, Menzel Bouzaiene, Kairouan, Sfax, entre outras cidades

Quando: Dezembro de 2010

Motivação: Mohammed Bouazizi, um vendedor de frutas e vegetais na cidade de Sidi Bouzid, teve seus produtos confiscados por um agente municipal e apanhou quando tentou reagir. Ele então ateou fogo ao próprio corpo, desatando protestos na cidade no centro do país. As manifestações se espalharam pelo país e passaram a refletir uma série de descontentamentos da população com o governo.

Reivindicações: Queda do governo, melhores condições de vida, combate à violência policial, mais empregos e direitos humanos.

Repressão: Forças de segurança da Tunísia reprimiram os protestos com violência. Segundo a ONU, os protestos populares deixaram 219 mortos, incluindo 72 mortos em revoltas em diversas prisões no país, e 510 feridos. 

Desfecho do movimento: O movimento na Tunísia desencadeou a Primavera Árabe, onda de protestos contra regimes autocráticos no Oriente Médio e norte da África países árabes e contra as condições de vida da população. O então presidente Zine El Abidine Ben Ali renunciou ao cargo após 23 anos no poder. Em 2011, eleições levaram ao poder islâmicos moderados do Partido Ennahda, mas, por causa da influência dos salafistas radicais, novos protestos eclodiram no país desde então.

AFP
Manifestantes seguram bandeira da Tunísia durante protesto na capital Túnis (2011)

Primavera Árabe: Egito

Onde: Cairo, Alexandria, Suez, Mansura, Tanta, entre outras cidades

Quando: Janeiro de 2011

Motivação: Inspirados na revolta da Tunísia, ativistas do Egito tomam as ruas durante um feriado nacional ligado às Forças Armadas, chamando a data de "Dia de Fúria". Milhares marcharam no centro de Cairo, capital do país, em direção à Praça Tahrir, que virou o epicentro da revolta. Logo, as manifestações se espalharam por todo o país.

Reivindicações: Queda do governo, melhores condições de vida, liberdade de expressão, mais empregos.

Repressão: Desde o início dos protestos, as forças policiais do governo de Hosni Mubarak reprimiram os manifestantes com canhões de água e bombas de gás lacrimogêneo. Depois, a violência saiu do controle e estima-se que os 18 dias de manifestações e confrontos com a polícia tenham deixado mais de 800 mortos e 6 mil feridos no país.

Desfecho do movimento: Mobilização de 18 dias põe fim aos 30 anos do governo de Hosni Mubarak. Após um período comandado por uma junta militar, alvo de controversas pelo uso de repressão violenta, eleições levaram os partidos islâmicos ao Parlamento e à presidência. Desde então, o país passa por uma crescente tensão entre islamistas e secularistas. A mais recente controvérsia, o decreto do presidente Mohammed Morsi para garantir imunidade judicial a todas as suas decisões, provocou protestos que foram fortemente reprimidos, deixando 8 mortos e centenas de feridos em novembro. A medida foi revogada, mas a instabilidade no país, assolado por uma forte crise econômica, continua.

AP
Imagem aérea mostra Praça Tahrir lotada de manifestantes (2011)

Primavera Árabe: Líbia

Onde: Benghazi, Trípoli, Sirte, Misrata, entre outras cidades

Quando: Fevereiro de 2011

Motivação: Em 15 de fevereiro, famílias de prisioneiros que foram alvo de um massacre pelas forças do regime de Muamar Kadafi em 1996 fizeram uma manifestação pacífica pelas ruas de Benghazi pedindo por direitos humanos e democracia. A violência começou quando forças de segurança prenderam Fathi Terbil, um jovem advogado e ativista. Em questão de horas, centenas se reuniram do lado de fora da delegacia pedindo a libertação de Terbil. Os protestos se intensificaram em Benghazi e, com o estímulo das revoltas egípcia e tunisiana, logo se espalharam pelo país e viraram uma violenta guerra civil.

Reivindicações: Queda do regime, direitos humanos, democracia e unidade nacional.

Repressão: Os protestos na Líbia, que tiveram início pacífico, evoluíram para uma sangrenta guerra civil após forte repressão do governo. Em outubro de 2011, as primeiras estimativam indicavam 25 mil mortos e 4 mil desaparecidos. Segundo estimativas mais recentes do governo, porém, 4,7 mil rebeldes foram mortos e 2,1 mil - entre rebeldes e forças leais a Kadafi - estão desaparecidos. Não se sabe ao certo quantos soldados das forças de Kadafi foram mortos.

Desfecho do movimento: A guerra civil na Líbia culminou com a morte do líder Muamar Kadafi pelos opositores em outubro, depois da queda do regime dois meses antes. Eleições gerais foram realizadas em julho, mas a insegurança e a disputa de poder entre os diferentes grupos que lutavam contra Kadafi continuam. Os oito meses de conflito armado deixaram sequelas: proliferação de milícias, tráfico de armas e emergência de ameaças terroristas, como o ataque que deixou quatro mortos no Consulado dos EUA em Benghazi.

Reuters
Forças do governo interino da Líbia comemoram a queda de Sirte (2011)

Primavera Árabe: Síria

Onde: Daraa, Damasco, Homs, Hama, Aleppo, Qusair, entre outras cidades

Quando: Março de 2011

Motivação: As prisões de ao menos 15 crianças por pichar grafites nos muros de uma escola contra o governo do presidente Bashar al-Assad provocaram revolta na população que saiu às ruas em manifestações. Logo, os protestos se espalharam por províncias no centro do país até alcançar Damasco, capital e sede do governo Assad. Desde dezembro de 2011, a ONU reconhece que o país está em guerra civil.

Reivindicações: Queda do regime, direitos humanos, democracia.

Repressão: O aparato repressor de Assad é um dos mais sofisticados de todos os países da Primavera Árabe. A ONU estima que a guerra civil síria deixou ao menos 93 mil mortos e obrigou mais de 1,5 milhão a se refugiar em países vizinhos, desestabilizando uma região já tumultuada. Recentemente, os EUA confirmaram o uso de armas químicas pelo regime de Assad.

Futuro do movimento: A Síria encontra-se atualmente em guerra civil. Apesar da pressão dos rebeldes contra o regime sírio com a captura de bases aéreas e instalações militares, as tropas do governo, apoiadas por combatentes do grupo xiita libanês Hezbollah, reconquistaram cidades estratégicas, como Qusair. Crucial na geopolítica do Oriente Médio, o conflito sírio afeta outras nações internamente, não só com o número de refugiados, mas também com os grupos favoráveis e contrários a Assad que estão em confronto. Com a confirmação do uso de armas químicas, os EUA prometeram enviar ajuda militar aos rebeldes, o que indica um maior envolvimento de outras peças no jogo geopolítico.

AFP
Imagem de vídeo publicado no YouTube que diz mostrar prostestos em Hama na sexta-feira (2011)

Ocupe Wall Street

Onde: Inicialmente, Nova York (EUA) e depois em cidades em cerca de 80 países

Quando: Setembro de 2011

Motivação: A Adbusters, uma revista canadense que prega o anticonsumismo, publicou um artigo afirmando que os americanos, inspirados na revolta na Praça Tahrir, no Egito, deveriam realizar uma ocupação pacífica em Wall Street para condenar a influência das grandes corporações financeiras no governo norte-americano. No dia 17 de setembro, centenas de manifestantes ocuparam o Parque Zuccotti em oposição à ganância das corporações de Wall Street e à corrupção. O protesto, depois, ganhou o apoio de sindicatos e movimentos civis, espalhando-se pelo país e por outras cidades do mundo.

Reivindicações: Com o slogan "Somos os 99%", em referência à concentração de renda nos EUA, manifestantes pediram o fim da influência das corporações financeiras no governo, do favorecimento dos ricos, e melhoras no sistema de saúde e de educação.

Repressão: Desde que as manifestações tiveram início, milhares de participantes foram detidos pela polícia em várias cidades americanas e no resto do mundo. Houve uso de gás lacrimogêneo por algumas polícias e alguns manifestantes criticaram a brutalidade dos agentes durante as prisões.

Desfecho do movimento: Hoje, o movimento "Ocupe" se tornou um conjunto de grupos com objetivos semelhantes que usam um mesmo nome, mas não têm como função de fato ocupar espaços publicamente, como no início. Foi fundado, por exemplo, o Occupy Sandy Recovery, que organizou uma rede de voluntários para ajudar os atingidos pelo furacão que atingiu a costa leste dos EUA no ano passado.

AP Photo/Tina Fineberg
Grupo Occupy Wall Street critica sistema financeiro americano (2011)

Distúrbios no Reino Unido

Onde: Londres, Bristol, Liverpool, Manchester, Birmingham, entre outras cidades

Quando: Agosto de 2011

Motivação: Manifestantes saíram às ruas pacificamente para protestar contra a morte de um residente de Tottenham, no subúrbio de Londres. Mark Duggan, 29 anos, foi morto por policiais depois de ser abordado em um táxi por uma unidade que investigava crimes com armas de fogo no bairro. O protesto se tornou violento depois que garrafas de vidro foram jogadas contra carros da polícia e um deles foi incendiado. A tropa de choque e a cavalaria foram enviadas para conter a manifestação. Logo, jovens nas ruas passaram a vandalizar prédios públicos, saquear lojas e a confrontar a polícia em várias cidades do país.

Reivindicações: Os distúrbios no Reino Unido não apresentaram demandas claras, mas foram reflexo do crescente desemprego, da recuperação lenta da economia e dos cortes orçamentários para setores públicos caros à juventude, como a educação.

Repressão: Foram registradas cinco mortes e mais de 100 feridos durante os distúrbios no Reino Unido. A polícia deteve mais de 2 mil manifestantes durante as cenas de caos e reforçou o contingente de agentes nas áreas atingidas. O governo também ampliou o poder da polícia, permitindo o uso de balas de borracha.

Desfecho do movimento: Parte dos milhares de detidos foram processados pela Justiça britânica após os distúrbios. A polícia do Reino Unido também viu seus poderes ampliados, com a possibilidade de decretar toques de recolher em determinadas áreas para menores de 16 anos. Estocolmo, na Suécia, foi alvo de noites de violência em 2013 após a morte de um imigrante pela polícia.

AP
Polícia em meio a distúrbios em Croydon, no sul de Londres (2011)

Protestos em defesa do Parque Gezi, na Turquia

Onde: Istambul, Ancara, entre outras cidades

Quando: Junho de 2013

Motivação: Manifestantes se reuniram pacificamente no Parque Gezi, na Praça Taksim, Istambul, para protestar contra planos do governo de construir uma réplica de quartéis militares otomanos do século 18 e um shopping no local. A dura repressão policial contra a mobilização provocou fúria entre a população, desatando protestos que se tornaram um dos maiores desafios ao premiê Recep Tayyip Erdogan, acusado de autoritarismo pelos manifestantes.

Reivindicações: Manutenção do Parque Gezi, direitos humanos, saída de Erdogan do poder.

Repressão: A polícia na Turquia reprimiu com violência as manifestações, com uso de gás lacrimogêneo, spray de pimenta e canhões de água. Cinco mortes (incluindo a de um policial) foram registradas desde o início dos confrontos e milhares de participantes ficaram feridos. A Praça Taksim chegou a ser ocupada pelos manifestantes, retirados sob violenta força policial.

Futuro do movimento: A manifestação teve início pacífico e logo se tornou o maior protesto contra o governo Erdogan em seus dez anos no poder. Por causa da violenta repressão policial, manifestantes que queriam apenas preservar as árvores do Parque Gezi abraçam novas causas, como o direto à liberdade de expressão.

AP
Manifestante joga uma lata de gás lacrimogêneo durante confrontos com a polícia na praça Taksim, Istambul (2013)

Protestos contra aumento das passagens de ônibus no Brasil

Onde: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, entre outras cidades

Quando: Junho de 2013

Motivação: O aumento da tarifa do transporte público nas principais capitais brasileiras provocou protestos tímidos desde janeiro de 2013, mas as manifestações, paralelamente à agenda turca, intensificaram-se desde maio. Diversas reivindicações foram agregadas ao protesto, principalmente após a forte repressão policial contra as manifestações em São Paulo em 13 de junho.

Reivindicações: Redução da tarifa das passagens de ônibus e melhora na qualidade do serviço de transporte público.

Repressão: A polícia usou gás lacrimogêneo, balas de borracha e cassetetes contra os manifestantes nas principais cidades do país. Em São Paulo, mais de 200 ficaram feridos em 13 de junho após a violenta ação policial contra os protestos. Centenas foram detidos durante as manifestações, incluindo jornalistas que realizavam a cobertura do ato.

Manifestantes são refletidos no vidro de prédio, à esq., enquanto se manifestam no Rio
. Foto: APManifestantes são vistos perto de barricada em chamas no Rio. Foto: APPolicial é visto ferido no chão depois de confrontos com manifestantes durante protestos no Rio de Janeiro. Foto: APCarro foi incendiado por manifestantes no Rio. Foto: APEntre 10 mil e 15 mil manifestantes tomaram as ruas de dois bairros para protestar contra obras de projeto viário em Belém. Foto: Futura PressManifestante grita com policial durante protestos em frente do Congresso em Brasília. Foto: APManifestantes furam o bloqueio policial sobem a rampa do Congresso Nacional e chegam ao teto do Senado Federal. Foto: Agência BrasilProtesto 'Se a tarifa aumentar São Paulo vai parar' contra o aumento das passagens de ônibus, trens e metrô, em São Paulo. Foto: Futura PressInício da passeata que saiu do Largo da Batata, na Zona Oeste de São Paulo. Foto: Futura PressEm Curitiba, movimento contra corrupção reúne milhares. Foto: Futura PressManifestantes aproveitaram o jogo da Copa das Confederações entre Taiti e Nigéria, às 16h, na Arena Mineirão, para protestar contra a situação do país. Foto: Futura PressProtesto contra o aumento das passagens de ônibus, trens e metrô, em Porto Alegre (RS). Foto: Futura PressProtesto contra o aumento das passagens de ônibus, trens e metrô, em Salvador (BA)
. Foto: Futura Press


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