Traidor ou herói, delator dos EUA abre debate sobre limites da guerra ao terror

Por Bruna Carvalho - iG São Paulo | - Atualizada às

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Chamado ao mesmo tempo de inimigo da pátria e de ídolo do povo, ex-CIA que vazou documentos ultrassecretos seguiu passos de outros delatores da história; relembre os casos

Entrevistado por um jornal chinês na quarta-feira, Edward Snowden, o ex-técnico da CIA (agência de inteligência americana) que vazou programas ultrassecretos de monitoramento dos EUA, respondeu de forma simples a uma pergunta que vem sendo feita por analistas desde que o caso veio à tona, em 6 de junho: "Não sou nem um traidor nem um herói. Sou um americano."

Há três semanas, Edward Snowden era um ex-funcionário da empresa Booz Allen Hamilton, que prestava serviços à Agência Nacional de Segurança (NSA, sigla em inglês). Tudo o que se sabe sobre sua vida foi relatado por ele mesmo em entrevista ao jornal britânico The Guardian: ele largou a escola no ensino médio, tentou ser reservista do Exército, mas abandonou o treinamento após quatro meses por causa de uma lesão. Então, virou agente de segurança.

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Reprodução/ Guardian
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Foi ele quem forneceu aos jornais Guardian e Washington Post, dos EUA, documentos que revelariam que o governo americano intercepta secretamente milhões de registros telefônicos e conteúdo online para investigar indivíduos com potenciais ligações terroristas. Juntos, esses dois programas mostraram que métodos invasivos da guerra ao terror, estabelecidos no governo George W. Bush (2001-2009) após os ataques do 11 de Setembro de 2001, continuaram valendo no governo Barack Obama.

Em entrevista ao Guardian no domingo, Snowden revelou sua identidade e disse que queria evitar os holofotes da imprensa. "Não quero que a história seja sobre mim. Quero que seja sobre o que o governo americano está fazendo."

Isso se mostrou praticamente impossível. Nas redes sociais, nas análises dos maiores jornais do mundo, Snowden foi exposto na berlinda ora como o responsável por quebrar um voto de sigilo e prejudicar as estratégias de inteligência do país, ora como um ídolo que teve coragem de largar sua vida nos EUA, mudar-se para Hong Kong, para que o público soubesse a extensão dos programas de monitoramento. Uma página feita em homenagem a Snowden no Facebook tinha mais de 12,3 mil seguidores até o fechamento desta matéria.

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"Se ele é um traidor ou um herói? Um pouco dos dois e nenhum dos dois ao mesmo tempo. Ele falhou ao escolher um caminho ilegal para divulgar a informação que obteve", disse ao iG Kirk Buckman, professor de ciência política da Stonehill College, nos EUA. "Não acredito que, futuramente, ele seja lembrado como um ícone na guerra contra o terror. Ele provavelmente será visto como alguém que levantou um debate importante."

Desde o vazamento, Congresso e população debatem até que ponto vale a pena instituir um vigilância em ampla escala em nome da segurança nacional. Apesar das vozes dissonantes, como a do republicano libertário Rand Paul, que caracterizou os programas como "um ataque assombroso à Constituição", a maioria dos congressistas, democratas e republicanos, defendeu o monitoramento. "A ameaça do terrorismo continua real, e essas atividades de inteligência legítimas devem continuar sob a fiscalização cuidadosa do Executivo, Legislativo e Judiciário", afirmaram líderes do Congresso em comunicado conjunto.

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Apesar de discutíveis, os programas encontram respaldo legal em uma seção altamente controversa do Ato Patriótico, aprovada pelos EUA após os ataques do 11 de Setembro. Para obter os registros telefônicos chamados de metadados (contendo a data, horário, duração da ligação, números de telefone discados e, em caso de celulares, a localização que a ligação foi feita), o FBI (polícia federal americana) faz um pedido à Corte de Vigilância de Inteligência Externa (Fisa, na sigla em inglês), renovado de três em três meses, com conhecimento do Congresso.

AP
Placa do lado de fora do gabinete da Agência de Segurança Nacional (NSA)

"No mundo analítico, ter acesso a um histórico de dados para contextualizar os dados recentes não tem preço", disse ao iG Christopher Burgess, ex-funcionário da CIA e presidente da consultoria de segurança Prevendra. 

Burgess também afirmou que qualquer autoridade ligada à Defesa dos EUA sabe que os ataques terroristas acontecerão e podem estar sendo preparados a todo momento. "Ou você paralisa o país ou aumenta seus conhecimentos e direciona seus esforços aonde estão os conspiradores e, então, usando programas como estes, determina se os dados coletados de terroristas conhecidos têm ligação com os dados sem contexto. Uma verdadeira caça à proverbial agulha no palheiro."

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Por outro lado, grupos como a União Americana de Liberdades Civis (ACLU, na sigla em inglês) se opõem ao que consideram ser um abuso do poder do governo sobre as liberdades individuais. "Em uma democracia, não deveria haver espaço para leis secretas", disse em nota divulgada à imprensa Jameel Jaffer, vice-diretor legal da ACLU. "O público tem o direito de saber que limites se aplicam à autoridade de monitoramento do governo e quais garantias existem para proteger as liberdades individuais."

O novo Ellsberg?

Snowden tem sido frequentemente comparado a Daniel Ellsberg, um outro famoso delator americano. Ellsberg, um antigo analista de defesa, vazou em 1971 ao jornal New York Times os chamados Papéis do Pentágono, documentos secretos do Departamento de Defesa que revelavam um quadro negativo sobre o envolvimento do Exército americano na Guerra do Vietnã (1955-1975).

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Ellsberg foi a primeira pessoa a ser processada sob o Ato de Espionagem por divulgar informação confidencial ao público. Na ocasião, o juiz rejeitou o caso depois de surgir a informação de que agentes da Casa Branca invadiram o escritório do psiquiatra de Ellsberg na esperança de encontrar alguma informação que pudesse desacreditá-lo.

O professor Buckman, entretanto, ressalta que a comparação entre Ellsberg e Snowden é frágil. Apesar de ambos terem vazado informações confidenciais a jornalistas, Ellsberg o fez em um contexto de uma guerra impopular que já durava mais de uma década. "Daniel Ellsberg foi um personagem essencial na história sobre a Guerra do Vietnã. Não acredito que Snowden seja lembrado da mesma forma no futuro, que surja como um herói, como um ícone da guerra contra o terror", disse Buckman.

Burgess também afirma que é cedo para saber se a história reverenciará Snowden da mesma forma que faz com Ellsberg. "Pela sua entrevista (ao Guardian), ele (Snowden) parece ser um jovem muito lúcido, que diz que tomou essa atitude por um bem, por ser um patriota. Essa também foi a motivação de Ellsberg."

O próprio Ellsberg fez um artigo ao jornal inglês The Guardian sobre o ato de Snowden, considerado por ele como o vazamento mais importante da história americana - mais até que suas revelações sobre a impopular Guerra do Vietnã. Com um título que faz referência à polícia secreta da Alemanha Oriental - "Edward Snowden, nos salvando do United Stasi of America" -, Ellsberg afirma que, desde o 11 de Setembro, colocou-se em marcha a revogação da Declaração de Direitos de 1689. "A quarta e a quinta emendas da Constituição dos EUA, que protegem os cidadãos da intromissão indevida do governo em suas vidas privadas, foram praticamente suspensas."

Relembre os maiores delatores da história americana:

Reprodução
Benjamin Franklin (1706-1790), ícone da Guerra de Independência dos EUA

Benjamin Franklin - Em 1772, enquanto vivia no Reino Unido como um representante da colônia, recebeu 13 cartas privadas escritas por Thomas Hutchinson, o governador real de Massachusetts e um proeminente aliado do Reino Unido. Nelas, Hutchinson criticava os líderes colonos e recomendava uma maior presença do Exército britânico. Franklin compartilhou as cartas, que foram publicadas no jornal Gazeta de Boston em junho de 1773. O conteúdo das cartas incitou os colonos americanos ao que se tornaria a guerra de independência.


AP
Daniel Ellsberg, ex-analista de defesa


Daniel Ellsberg - Ex-analista de defesa, ficou conhecido por vazar em 1971 os Papéis do Pentágono, documentos secretos do Departamento de Defesa dos EUA que revelaram aspectos negativos do envolvimento militar americano na Guerra do Vietnã (1955-1975). Ellsberg foi o primeiro a ser processado sob a lei de espionagem por divulgar informação confidencial ao público. O juiz, entretanto, descartou o caso depois que se descobriu que agentes da Casa Branca haviam invadido o consultório do psiquiatra de Ellsberg em busca de informações para desacreditá-lo.

Reprodução
William Mark Helt (1913 - 2008), ex-diretor associado do FBI


William Mark Felt - Diretor associado do FBI conhecido pelo codinome Garganta Profunda, foi o informante que deu ao jornal The Washington Post na década de 70 informações sobre o Watergate. Os planos de Richard Nixon (1969-1974) contra os democratas, quando revelados, levaram à renúncia do presidente em 1974. Somente em 2005 Helt revelou sua identidade





Reprodução
Frederic Whitehurst, ex-agente do FBI

Frederic Whitehurst - Em 1992, o ex-agente do FBI começou a expor os trabalhos de má qualidade e testemunhos imprecisos feitos pelo laboratório criminal da polícia federal americana. O caso de Whitehurst ficou conhecido por ter  resultado em uma Ordem Executiva garantindo proteção aos agentes do FBI que delatassem condutas errôneas.





Reprodução/Facebook
Thomas Drake, ex-executivo da NSA

Thomas Drake - Ex-executivo sênior da Agência Nacional de Segurança (NSA, sigla em inglês) vazou informação sobre desperdício financeiro e má gestão na NSA ao jornal Baltimore Sun, em 2010. Ele admitiu ter fornecido informação interna ao Sun sobre um programa de espionagem do governo e foi condenado a um ano de prisão, cumprido em liberdade condicional e serviços comunitários em julho de 2011.




AP
Bradley Manning, soldado do Exército dos EUA


Bradley Manning - O soldado do Exército dos EUA Bradley Manning vazou em 2011 ao site WikiLeaks, de Julian Assange, um precioso material militar e diplomático com milhares de relatórios e telegramas diplomáticos sobre as guerras do Afeganistão e do Iraque. Este foi considerado o maior vazamento de informação confidencial da história. Seu julgamento em uma corte militar está em andamento em Fort Meade, Maryland.

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