Jornalista que revelou rede espiã secreta dos EUA avisa: 'Há mais informações'

Por iG São Paulo | - Atualizada às

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Glenn Greenwald, autor de furo no jornal britânico Guardian, diz que há mais 'revelações significativas' nos documentos vazados por ex-técnico da CIA sobre programa de vigilância

Glenn Greenwald, jornalista que expôs os programas secretos de interceptação de dados vazados por um ex-técnico da CIA (agência de inteligência dos EUA) e agora ex-funcionário de uma empresa de defesa que presta serviços à Agência Nacional de Segurança (NSA, na sigla em inglês), disse nesta terça-feira que mais "revelações significativas" virão dos documentos.

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Glenn Greenwald, repórter do jornal britânico Guardian, fala com a Associated Press em Hong Kong

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"Teremos mais revelações significativas que ainda não foram ouvidas nas últimas semanas ou meses", disse Greenwald, do jornal britânico Guardian.

Greenwald disse à Associated Press que a decisão sobre quando divulgar a próximo história está sendo tomada com base na informação fornecida por Edward Snowden, de 29 anos, que foi demitido da prestadora de serviços Booz Allen Hamilton após os primeiros vazamentos e foi acusado pela presidente da Comissão de Inteligência do Senado dos EUA, Dianne Feinstein,  da Califórnia, de cometer um "ato de traição". A senadora democrata quer que ele seja processado.

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O paradeiro de Snowden não está imediatamente claro nesta terça, embora acredite-se que ele esteja em algum lugar de Hong Kong. Por enquanto, nenhuma acusação ou nenhum mandado de prisão foram emitidos contra Snowden.

As reportagens de Greenwald na semana passada expuseram um programa de vigilância em massa pelo qual a NSA intercepta registros telefônicos americanos e comunicações eletrônicas de estrangeiros. "Há outras dezenas de histórias como consequência dos documentos que ele forneceu, e temos a intenção de ir atrás de cada uma delas", disse Greenwald.

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Após anos escrevendo quase obsessivamente sobre esquemas de vigilância do governo e perseguição a jornalistas, Greenwald repentinamente se pôs na intersecção dos dois temas, e talvez também na mira de procuradores federais.

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No dia 5, Greenwald, um advogado e blogger de longa data, publicou uma matéria no Guardian sobre a existência de uma ordem judicial secreta que permitia à NSA monitorar milhões de registros telefônicos.

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No dia seguinte, ele deu sequência com uma matéria escrita em parceria com Ewen MacAskill, outro repórter do Guardian, que expôs o programa Prism, que reúne informações das maiores companhias de internet dos EUA há quase seis anos.

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“A Agência de Segurança Nacional é como a joia da coroa nos segredos do governo. Espero que eles reajam de forma extrema”, disse Greenwald em uma entrevista por telefone. Ele afirmou que alguns amigos advogados lhe disseram que ele “deveria se preocupar”, mas “o que estou fazendo é exatamente do que trata a Constituição e, por isso, não estou preocupado”.

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Placa do lado de fora do gabinete da Agência de Segurança Nacional (NSA) (07/06)

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Estar no centro do debate é confortável para Greenwald, 46 anos, que ganhou espaço no jornalismo por meio do seu próprio blog, que começou em 2005. Antes disso ele era um advogado com experiência em representar grandes clientes corporativos. “Abordo o jornalismo como um litigante. As pessoas dizem coisas, você pressupõe que estão mentindo e vai atrás de documentos para provar”, disse.

As reportagens de Greenwald no Guardian – e antes disso no Salon e no seu próprio blog – podem parecer um relatório legal, com listas de itens, argumentos extensos, referências detalhadas e links. Como diz Andrew Sullivan, um rival frequente e às vezes aliado de Greenwald, “uma vez que você entra num debate com ele, dificilmente terá a última palavra”.

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Embora ele frequentemente faça entrevistas e dê notícias em suas colunas, Greenwald se descreve como um ativista.

A experiência de Greenwald como jornalista é incomum, não apenas porque ele deixa claro suas opiniões, mas por ele raramente se reportar a um editor. Ele começou seu blog, o Unclaimed Territory (Território Não Reivindicado, em tradução livre), em 2005 depois das notícias sobre vigilância sem mandados judiciais do governo de George W. Bush (2001-2009). Quando seu blog foi escolhido para entrar no Salon, o então editor, Kerry Lauerman, concordou que Greenwald poderia publicar seus posts diretamente, sem passar por seu crivo, se assim desejasse.

“É algo que basicamente não se faz. Mas ele é incrivelmente escrupuloso, de uma forma que só um advogado poderia ser – muito, muito cuidadoso”, diz Lauerman. A mesma independência foi levada ao Guardian, embora Greenwald tenha concordado que, em uma reportagem tão importante, o jornal poderia fazer edições.

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Greenwald diz que ele tomou algumas precauções esperadas de um repórter cobrindo temas de segurança nacional, como instalar um programa de criptografia de e-mails e chats. “Era quase um analfabeto nessa área, mas tinha alguém muito bem recomendado que cuidou fisicamente do meu computador”, disse. O computador está no Brasil, onde Greenwald passa a maior parte do tempo e onde vive o seu parceiro, que não pode emigrar para os EUA porque o governo federal não reconhece casamentos homossexuais como base para pedidos de visto.

Greenwald cresceu em Lauderdale Lakes, Flórida, sempre se sentindo um pouco deslocado. “Acho que a postura política é dada pela sua personalidade, sua relação com a autoridade, com o quão confortável você se sente em sua vida. Quando se é gay, você não faz parte do sistema, o que força você a avaliar: sou eu ou é o sistema que é ruim?”, explica.

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Quando estudava Direito na Universidade de New York, Greenwald era apaixonado por temas constitucionais e igualdade de tratamento, segundo Jennifer Bailey, atualmente advogada na área de imigração para uma ONG, que dividiu apartamento com Greenwald no início dos anos 1990. “Ele não era o tipo político. Ele ia a fundo nos assuntos, era incansável. Ninguém trabalhava por tantas horas quanto ele”, diz.

Seus escritos o tornaram alvo frequente de críticos ideológicos, que o acusam de desculpar o terrorismo ou fazer falsas comparações, como comparar os ataques com aviões não tripulados dos governos ocidentais com os ataques terroristas em Boston.

Para Gabriel Schoenfeld, especialista em segurança nacional no Instituto Hudnom, Greenwald é um “apologista profissional de todo tipo de antiamericanismo”. “Acho que ele tem pouca noção do que realmente significa para um país estar em guerra. Ele é um purista, de uma forma que compromete a sofisticação de seu trabalho”, criticou. A amiga Jennifer Bailey põe de uma forma diferente: por causa de suas “paixões”, ele não se importa em fazer inimigos.

*Com AP e New York Times

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