Síria e eleição presidencial ajudam Irã a retardar solução para impasse nuclear

Por Nahum Sirotsky - colunista em Israel |

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Fracasso em diálogo para barrar programa atômico iraniano aumenta tensão especialmente com Israel, que já lançou ataques na Síria para impedir armas do Irã de chegar ao Hezbollah

O quadro no Oriente Médio, que já é complicado, torna-se cada vez mais confuso e imprevisível. Há poucos dias, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), responsável por supervisionar a aplicação pacífica da força nuclear, manteve seu décimo encontro com as autoridades científicas do Irã. Foi mais um fracasso.

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AP
Herman Nackaerts, autoridade da AIEA, conversa com embaixador do Irã para agência nuclear da ONU, Ali Asghar Soltanieh (D), em Viena, Áustria (15/05)

Abril: Irã anuncia novos projetos nucleares após fracasso em negociação

Os iranianos insistiram em negar acesso livre a todos os centros que desenvolvem sua tecnologia, pois alega ter objetivos pacíficos. A comunidade internacional suspeita o contrário. Israel terá motivos para se convencer de que tais reuniões são utilizadas por Teerã para ganhar tempo, visando à concretização de seu suposto objetivo: transformar-se numa potência atômica.

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O pequeno Estado judeu, que tem a extensão de Alagoas, considera que sua existência estará em perigo no momento em que os iranianos adquirirem o controle da tecnlogia de produção de armas nucleares. As estimativas de quando isso deve ocorrer são de, no mínimo, um ano.

Israel argumenta que todos os recursos necessários devem ser empregados para impedir o sucesso do Irã, como o uso de meios militares para destruir os laboratórios dos persas. A AIEA argumenta que não poderá fazer novas tentativas de acordo diplomático antes das eleições iranianas, daqui um mês. O futuro presidente pode ser da corrente radical, fechando ainda mais a porta a uma solução pacífica contrária à nuclearização.

Na ONU: Netanyahu fala em impor limite ao Irã para evitar 'intervenção militar'

O Irã saiu provisoriamente das manchetes por causa da crise na Síria. Desde quando se chamava Pérsia, a nação jamais foi colônia de nenhum país. É da minoritária seita muçulmana xiita, não é árabe, cuja língua não fala. O Iraque é o único país arábe com maioria xiita e, numa de suas cidades, segundo a tradição, preserva-se a cabeça do quarto califa morto num confronto com as forças do terceiro califa. A cabeça é de Ali, sobrinho e genro do profeta Maomé, pois era casado com Fatma, única filha do profeta.

Conta-se que o criador do Islã, um dos grandes personagens da História Antiga, não apreciava o genro. Quando o profeta morreu, Fatma entregou a liderança a um amigo do profeta, o que desencadeou o rompimento da unidade da fé com o surgimento do xiismo que, diferentemente da seita muçulmano sunita (ou tradição) - que cultua o Islã como era praticado por Maomé, o mensageiro de Alá -, cultua também Ali. Os sunitas consideram o culto a Ali uma heresia. Tanto é assim que, mais de 1 mil anos depois da divisão, as duas seitas continuam se matando, uns aos outros, no Iraque.

NYT: Conflitos no Iraque evocam temores de nova guerra civil

O mundo árabe, de maioria sunita, teme as consequências da transformação do Irã, xiita, no maior poder regional e atômico. Se os persas alcançarem seu desejo, será impossível evitar uma corrida nuclear dos países mais fortes do Oriente Médio, como Egito e Arábia Saudita, o que representará uma ameaça à segurança mundial.

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Agora, atentem, o poder político e militar na Síria está nas mãos dos alauítas, uma facção do xiismo. Irã e Síria têm acordo de cooperação em todas as áreas. O outro grande poder nas fronteiras de Israel é o grupo libanês xiita Hezbollah (Partido de Deus), muito bem armado e preparado, com público e notório apoio iraniano, que utiliza Damasco como passagem para remessa de armas.

NYT: Hezbollah assume riscos ao combater rebeldes sírios em defesa de Assad

AP
Prédios danificados por ataque aéreo de Israel são vistos em Damasco, Síria (05/05)

Nasrallah: Síria enviará armas ao Hezbollah como reação a ataques de Israel

Israel afirma que destruiu recentemente carregamentos de armas do Irã, via Síria, para o Hezbollah, que podem ter incluído mísseis de longo alcance. As batalhas entre os rebeldes e o governo sírio são ouvidas em centros habitacionais israelenses, nas Colinas do Golan, conquistadas na Guerra dos Seis Dias, em 1967. O que separa o Estado judeu de sírios e Hezbollah são cercas de arame farpado.

Coluna: Rebeldes sírios ameaçam Colinas do Golan, fronteira tênue entre Israel e Síria

Pelo crescimento da ameaça, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, pediu para ser recebido pelo presidente russo, Vladimir Putin, em sua casa de férias. Foi pela manhã e voltou à noite. Consta que teve sucesso em sua missão. Ele foi tentar convencer o líder russo a não vender mais mísseis terra-ar, muito eficazes na defesa antiaérea, à Síria.

A preocupação de Israel é que tais mísseis sejam repassados ao Hezbollah, cujo líder Nasrallah já anunciou que recorrerá a todos os meios em defesa da Síria. Compromisso igual tem o Irã. De acordo com a mídia israelense, fontes graduadas afirmaram que as Forças Armadas israelenses não permitirão que o governo sírio transfira armas ao Hezbollah.

Rússia e EUA trabalham intensamente nos bastidores para a realização de uma reunião em Istambul, Turquia, com a presença do governo sírio e de líderes rebeldes, para promover a suspensão da guerra com afastamento do presidente Bashar al-Assad do poder. O acordo poderia incluir um exílio seguro à sua família.

*Com colaboração de Nelson Burd

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