Ex-ditador argentino Jorge Videla morre aos 87 anos

Por iG São Paulo | - Atualizada às

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Primeiro presidente da última ditadura do país morreu de causas naturais enquanto cumpria sentença por crimes de direitos humanos

AFP
Ex-ditador argentino Jorge Videla é visto em tribunal (foto de arquivo)

Rafael Videla, ex-comandante do Exército que liderou a Argentina durante os primeiros cinco anos da violenta ditadura militar de 1976 a 1983, morreu nesta sexta-feira aos 87 anos.

Confissão: Ex-ditador argentino Jorge Videla admite desaparecimentos durante regime

Condenado em 2010 à prisão perpétua pela morte de 31 dissidentes, o ex-ditador morreu de causas naturais enquanto cumpria a sentença por crimes de direitos humanos em uma prisão militar de Campo de Mayo, nas proximidades de Buenos Aires. "Videla morreu dormindo. À noite não quis jantar porque se sentia mal", disse Cecilia Pando, mulher de um militar.

No ano passado, o ex-ditador também havia sido condenado a 50 anos de prisão pelo roubo de bebês nascidos em cativeiro durante o regime militar, enquanto Reynaldo Benito Bignone, o último presidente da ditadura, foi sentenciado a 15 anos.

2012: Argentina condena ex-líderes militares à prisão por roubo de bebês

Em uma entrevista transmitida pela TV local, Videla admitiu pela primeira vez no ano passado que a brutal ditadura do país "desaparecia" com opositores da esquerda, eufemismo para o sequestro e assassinado deles. 

"Em toda guerra há feridas, mortos e desaparecidas com paradeiros desconhecidos, isso é fato", afirmou. "Quantos foram é algo que pode ser debatido, mas o problema não está no número, mas no fato, um fato que ocorre em toda guerra."

Ao livro "Mandato Final", do jornalista Ceferino Reato, o ex-ditador fez uma estimativa do número de "presos-desaparecidos" (cujos corpos ainda não foram encontrados): "Vamos dizer que houve 7 mil ou 8 mil pessoas que tiveram de morrer para vencermos a guerra contra a subversão", disse.

As declarações provocaram forte impacto no país. Segundo a comissão criada para apurar os crimes da ditadura, a Conadep (Comissão Nacional sobre o Desparecimento de Pessoas), quase 9 mil desapareceram na ditadura.

Para as organizações de direitos humanos, porém, 30 mil teriam sido sequestrados e mortos ou teriam desaparecido durante a campanha conhecida como "Guerra Suja" da ditadura, que começou quando Videla e outros dois líderes militares realizaram um golpe em 24 de março de 1976.

"Não havia outra solução", afirmou Videla no livro. "Concordamos que era o preço para vencer a guerra contra a subversão e que precisávamos que ela não fosse evidente, para que a sociedade não a notasse."

"Por essa razão, para evitar protestos dentro e fora do país, foi decidido que aquelas pessoas deviam desaparecer. Cada desaparecimento pode ser certamente entendido como o disfarce para uma morte." No auge da violência da década de 1970, Videla negou os sequestros que aconteciam, dizendo: "Não há desaparecimentos, eles não existem."

Em 1985, dois anos depois do restabelecimento da democracia, Videla foi condenado à prisão perpétua por tortura, assassinato e outros crimes, mas em 1990 foi anistiado pelo então presidente do país, Carlos Menem. Em 2010, a Corte Suprema ratificou a decisão de 2007 de uma corte federal de revogar a anistia. Oito meses depois, ele foi considerado "penalmente responsável" pela tortura e morte de 31 prisioneiros em Córdoba, e sentenciado à prisão perpétua.

'Genocida'

AP
Após golpe militar, general Jorge Videla (C) assume como presidente em 24 de março de 1976 ao lado de Emilio Massera (E) e Orlando Agosti (D)

Nesta sexta, juristas e vítimas da ditadura afirmaram à imprensa local que ele foi "o pior genocida da história do país", como declarou o advogado e deputado da oposição, Ricardo Gil Laavedra. O jurista foi integrante do tribunal que realizou o primeiro julgamento da cúpula militar, em 1985.

"Videla morreu cumprindo sua condenação na prisão. Numa democracia, foi julgado, condenado e morreu na prisão. Infelizmente, ele nunca demonstrou arrependimento pelos fatos que, sem dúvida, o colocam na nossa história como o pior genocida que a Argentina teve”, afirmou.

Entre os jovens que tiveram a identidade recuperada após terem sido entregues ainda bebês a outras famílias, a morte de Videla também foi comentada. "A única sorte é poder dizer que ele não morreu de forma impune. Que foi condenado pela justiça", disse Horacio Poetragalla, recuperado pela entidade Avós da Praça de Maio.

Nos últimos anos, também houve quem saísse em defesa do ex-ditador argentino. No ano passado, o sacerdote Jorge Hidalgo, de 32 anos, causou polêmica ao elogiar Videla, no dia do seu aniversário, na página "Rafael Videla Forever" (Rafael Videla para Sempre, em inglês) no Facebook, segundo a imprensa local.

"Não foram 30 mil inocentes. Feliz aniversário, general. Um soldado nunca pede perdão por ter salvado sua pátria da ditadura comunista", teria escrito Hidalgo na rede social. A Secretaria de Direitos Humanos analisou, na ocasião, a possibilidade de indiciar o sacerdote por "apologia ao delito".

Livro

Em março passado, cumprindo prisão, Videla disse que seus "camaradas" deveriam se "armar" contra o governo da presidente Cristina Kirchner. "Os que tenham entre 58 e 68 anos e que ainda estejam fisicamente preparados para combater devem se armar para enfrentar a presidente Cristina e seus seguidores", disse, de acordo com os jornais Clarín e Página 12.

Videla disse também que o ex-presidente Néstor Kirchner, que governou o país entre 2003 e 2007, e morreu em 2010, e sua esposa e sucessora, Cristina, "não passavam de dois distribuidores de panfletos (durante o regime ditatorial)”.

*Com BBC e Reuters

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