Conflito da Síria é 'casa de vespas' com efeitos regionais

Por Nahum Sirotsky - colunista em Israel |

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Ataques lançados no fim de semana expõem tentativa de Israel de impedir que armas de seu arqui-inimigo Irã cheguem ao libanês Hezbollah, também inimigo do Estado judeu

Os fatos no Oriente Médio mudam tão rapidamente que nunca é fácil compreendê-los, nem mesmo em contexto. A Síria parece um acontecimento regional sem efeitos exteriores, mas é uma "casa de vespas".

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Russos e chineses, que possuem grandes interesses no país, revelam-se obrigados a atitudes dúbias quanto à situação. Ao mesmo tempo que manifestam seu desagrado com as matanças de ambos os lados, pelas forças do governo e grupos rebeldes, preocupam-se com a manutenção de seus objetivos na região. A Rússia tem base naval na Síria, a sua única no Mediterrâneo, e precisa preservá-la. E para isso depende, no momento, do presidente Bashar al-Assad.

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Nenhum dos países envolvidos na crise da Síria, onde estão várias embaixadas, conhecem exatamente quais os grupos poderosos que tendem a tomar o poder no caso de queda de Assad. Nenhuma potência tentou forçar a suspensão da guerra civil. Pelo simples motivo de que, depois de mais de dois anos de conflito, nenhum dos grupos assumiu a liderança da rebelião.

Quando Assad diz que "se defende de grupos que podem ser qualificados de terroristas", não exagera: há organizações lutando sob bandeira da Al-Qaeda. Ele também não erra quando fala que a palestina Jihad Islâmica luta contra ele. Por isso, pode alegar, com certa razão, que o seu governo defende a preservação da ordem contra rebeldes que querem destruí-lo.

Os movimentos de oposição têm um único objetivo comum: afastar Assad do poder. O que é provável que só aconteça com a eliminação física de Assad, seus parentes e parceiros próximos. Por enquanto, nenhum país aceitou-o no exílio, pois seria um problema se tentasse voltar à Síria. No seu palácio, é mantido excelente padrão de vida e não há sinal de derrota. De todos os grupos do conflito, o governo é o único que tem uma força organizada. E o embate continua, porque o outro lado não se une para uma ação conjunta. Cada um está pensando em como chegará ao poder.

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Os alauítas, seita de Assad, são uma facção dos xiitas. Os sunitas, maioria na Síria, vinham sendo mantidos sob marcação cerrada do governo. Há grupos sunitas moderados que desejam substituir Assad por uma democracia. Sunitas extremistas querem, primeiro, eliminá-lo, para depois pensar no que fazer. Não existe consenso, pois uns não confiam nos outros. E a presença de tropas muitos bem treinadas do Hezbollah, xiitas que dominam o sul do Líbano, é uma complicação maior ainda.

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O que pouca gente discute é a ambição de facções rebeldes de aproveitar o conflito sírio para criar um governo islamita agressivo, expansionista, com o sonho nunca abandonado de um dia ver o Califato Árabe no Oriente Médio. A Síria é aliada formal do Irã, país persa. Através dela, o regime dos aiatolás arma o Hezbollah, grupo político e paramilitar.

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Os rebeldes estão em inferioridade bélica, somando todos grupos. Os americanos começaram a propor apoio de guerra, mas quem ficará com essas munições? E se forem entregues aos extremistas? Israel crê na segunda hipótese. E dois ataques aéreos lançados no fim de semana tiveram o objetivo de destruir armas estratégicas que o Irã envia ao Hezbollah.

Pela “Lei do Olho no Olho”, Assad estava obrigado a responder ao Estado judeu, ao qual ele não tem condições, hoje, de enfrentar. Tropas de Israel estão na fronteira, de vigília. O líder sírio planeja sua vingança para outro momento, quando os israelenses estiverem distraídos. Mas grupos como o Hezbollah têm como atacar Israel por meio de atentados.

*Com colaboração de Nelson Burd


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