Ações coordenadas terminam com 42 mortes de civis e soldados e 13 mortes de militantes. Violência é vinculada ao Boko Haram, que significa 'a educação Ocidental é um sacrilégio'

Ataques coordenados de extremistas islâmicos armados com metralhadoras terminaram com ao menos 55 mortos no nordeste da Nigéria, disseram autoridades nesta terça-feira, os mais recentes em uma série de ações cada vez mais sangrentas que ameaçam a paz na nação mais populosa da África.

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Policial nigeriano inspeciona local para colher evidência em Bama, Estado de Borno, após ataque de extremistas islâmicos
Reuters
Policial nigeriano inspeciona local para colher evidência em Bama, Estado de Borno, após ataque de extremistas islâmicos

Os ataques atingiram vários locais na cidade de Bama, no Estado de Borno, onde atentados a tiros e explosões continuam incessantes desde que uma insurgência começou em 2010. Durante a ação, militantes invadiram uma prisão federal, libertando 105 presos, em mais uma fuga prisional em massa a acontecer no país.

O que exatamente aconteceu nos ataques ainda não está claro, apesar de o porta-voz militar Sagir Musa ter dito que 200 militantes em ônibus e picapes atacaram o quartel-general do 202º Batalhão do Exército nigeriano. Musa informou que dois soldados morreram na ação, que também deixou dez insurgentes mortos. Entretando, o Exército rotineiramente subestima o número de suas baixas em tais ataques.

Os agressores atingiram a prisão federal, deixando 14 guardas mortos, disse Musa. Eles também tiveram como alvo uma delegacia, uma corte judicial e escritórios locais do governo. Ao menos 22 policiais, três crianças e uma mulheres foram mortos, informou o comandante da polícia de Bama, Sagir Abubakar. Segundo ele, os oficiais mataram três militantes nos confrontos.

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Grande parte da violência tem sido vinculada à rede extremista conhecida como Boko Haram , que significa "a educação Ocidental é um sacrilégio" na língua hausa do norte da Nigéria. O grupo reivindica a libertação de seus membros e a adoção da sharia (lei islâmica) na multiétnica nação de 160 milhões de habitantes.

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Enquanto o presidente Goodluck Jonathan começou uma comissão para discutir a ideia de oferecer um acordo de anistia aos combatentes, o líder do Boko Haram, Abubakar Shekau , desconsiderou a iniciativa em mensagens.

A insurgência islâmica na Nigéria nasceu de um distúrbio liderado em 2009 por membros do Boko Haram em Maiduguri que terminou com uma repressão militar e policial que deixou 700 mortos. O líder do grupo morreu sob custódia policial em uma aparente execução. Desde 2010, os extremistas islâmicos se engajaram em tiroteios e ataques suicidas, ações que deixaram mais de 1,5 mil mortos, de acordo com contagem da Associated Press.

Massacre em Baga

Apesar do posicionamento de mais soldados e policiais no norte da Nigéria, o fraco governo central do país tem sido incapaz de parar a matança. Enquanto isso, atrocidades violentas cometidas pelas forças de segurança contra a população civil local apenas alimenta o ódio na região.

No fim de abril, confrontos entre extremistas islâmicos e o Exército deixaram ao menos 187 mortos em Baga, outra cidade no Estado de Borno que fica às margens do Lago Chade. Testemunhas dizem que soldados enraivecidos com a morte de um militar atearam fogo em casas e mataram civis.

De acordo com o jornal New York Times, dias depois do massacre, os rostos dos sobreviventes ainda estavam estampados com a lembrança da noite sombria: soldados molhando o telhado de palha de suas casas com gasolina e ateando fogo, atirando em moradores que tentavam fugir. À medida que a vila queimava, disse um deles, um soldado jogou uma criança nas chamas.

Imagem de celular mostra garota em meio a ruínas incendiadas de Baga, Nigéria (21/04)
AP
Imagem de celular mostra garota em meio a ruínas incendiadas de Baga, Nigéria (21/04)

O número de civis mortos - firmemente negado por oficiais militares nigerianos, alguns dos quais culparam o Boko Haram pela carnificina - provocou um alvoroço incomum.

Embora mortes de civis façam parte da rotina no confronto militar com o Boko Haram, com dezenas de vítimas em bairros pobres desde 2010 enquanto o Exército busca por "suspeitos", os políticos nigerianos geralmente têm pouco a dizer sobre a violência. Massacres anteriores em retaliação à morte de soldados passaram em grande parte despercebidos e sem qualquer tipo de punição. Mas dessa vez houve pedidos na Assembleia Nacional da Nigéria para uma investigação, e o governo sofreu duras críticas dentro do país e no exterior, inclusive dos EUA.

De acordo com testemunhas, alguns dos moradores de Baga que não pereceram nas chamas morreram afogados ao tentar fugir pelo Lago Chade. Outros foram atacados por hipopótamos nas águas rasas, disseram autoridades. Soldados dispararam nas pessoas enquanto fugiam de suas casas em chamas, disseram sobreviventes.

"Eles derramaram gasolina sobre as casas. Ao mesmo tempo, disparavam esporadicamente em qualquer direção. Eles tiraram uma criança pequena de sua mãe e a jogaram no fogo. Vi isso acontecer”, relatou Isa Kukulala, 26, um motorista de ônibus. Oficiais do Estado de Borno disseram que centenas de casas foram destruídas no incêndio.

Exército sob questão

O Exército impediu muitos jornalistas de chegar a Baga - zona onde o Boko Haram exerce controle parcial - e manteve agências humanitárias longe do local por dias após o massacre. O serviço de telefonia celular foi cortado.

Em um breve comunicado após o episódio, o general brigadeiro Austin Edokpaye, comandante da força-tarefa conjunta multinacional - a Nigéria compartilha ações de inteligência com os países vizinhos, embora seus soldados sejam sempre os responsáveis pela ação -, disse que “um soldado foi morto enquanto 30 terroristas do Boko Haram perderam suas vidas" e "infelizmente seis civis" foram mortos. “Outros civis ficaram feridos por causa do fogo cruzado", disse.

O diretor de Informação de Defesa da Nigéria, general brigadeiro Chris Olukolade, rejeitou os relatos de residentes. Segundo ele, "a queima e a matança foi realizada pelo Boko Haram, e não pelos soldados. Qualquer um que culpe os soldados deve ser simpatizante do Boko Haram", acrescentando: "O Boko Haram usava as casas como base para atirar nos soldados."

Mas a história relatada por funcionários civis em agências humanitárias e do governo do Estado, juntamente com a apresentada por sobreviventes, era muito diferente, com a grande maioria das mortes atribuída às Forças Armadas.

Kashim Shettima, um oficial de alto escalão abaixo do governador e que não é afiliado ao partido do governo, disse: "Os soldados simplesmente decidiram acabar com tudo.”

*Com AP e New York Times

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