'Temíamos que fosse a última refeição', diz provadora da comida de Hitler

Por AP | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Margot Woelk era uma das 15 mulheres que experimentavam os alimentos que seriam consumidos pelo líder nazista durante a 2ª Guerra para evitar seu envenenamento

AP

Foi um banquete sublime de aspargos – misturados com medo. E por mais de meio século, Margot Woelk guardou seu segredo escondido do mundo, até mesmo de seu marido. Então, alguns meses depois de seu 95º aniversário, ela revelou a verdade sobre o seu papel durante a guerra: ela provava os alimentos de Adolf Hitler.

Margot, na época com 20 e poucos anos, passou dois anos e meio como uma das 15 jovens que provavam a comida de Hitler para ter certeza que nada havia sido envenenado antes de ser servido ao líder nazista em sua "Toca do Lobo", o centro de comando fortemente vigiado no que hoje é a Polônia, onde ele passou a maior parte de seu tempo nos últimos anos da 2ª Guerra Mundial (1939-1945).

História: Mesmo falsos, 'diários de Hitler' entram em arquivo da Alemanha

Leia também: Cartão postal escrito por Hitler na 1ª Guerra é encontrado

AP
Uma das provadoras das refeições de Adolf Hitler, Margot Woelk concede entrevista em Berlim, Alemanha

"Ele era vegetariano. Nunca comeu carne durante todo o tempo que eu estive lá", disse Woelk sobre o líder nazista. "E Hitler era tão paranoico que os britânicos iriam envenená-lo que tinha 15 meninas para provar sua comida antes que ele a comesse."

Em meio a muitos alemães passando dificuldades com a escassez de alimentos e em uma dieta mínima por causa da guerra, provar os alimentos de Hitler tinha suas vantagens.

Saiba mais: Quadro pintado por Hitler aos 23 anos é leiloado por R$ 73,5 mil

"A comida era deliciosa, apenas os melhores legumes, aspargos, pimentão, tudo o que você possa imaginar. E sempre servidos com uma porção de arroz ou macarrão", lembrou. "Mas havia esse medo constante - sabíamos a respeito de todos esses rumores de envenenamento e nunca conseguíamos desfrutar da comida. Dia após dia, temíamos que fosse ser nossa última refeição."

A história da viúva é um conto de horror, dor e deslocamento sofrido por sobreviventes da  2ª Guerra Mundial de todos os lados do conflito.

Só agora, no fim de sua vida, é que está disposta a relatar suas experiências, algo que tinha decidido esconder por causa da vergonha e do medo de perseguição por ter trabalhado com os nazistas. Ela, entretanto, insiste nunca ter sido filiada ao partido. Magot contou sua história enquanto folheava um álbum de fotos dela quando jovem, no mesmo apartamento de Berlim onde nasceu em 1917.

Margot primeiro revelou seu segredo para um repórter local de Berlim há alguns meses. Desde então, o interesse por sua história de vida tem aumentado. Professores de escolas lhe escreveram e pediram fotos e autógrafos para tornar a história ainda mais real para seus alunos. Vários pesquisadores de museu a visitaram para pedir detalhes a respeito de sua vida como provadora de alimentos de Hitler.

Leia também: Túmulo de aliado de Hitler em cemitério da Alemanha é destruído

Margot diz que sua associação com Hitler começou depois que ela fugiu de Berlim para escapar de ataques aéreos dos aliados. Com o marido desaparecido e servindo no Exército alemão, ela foi morar com parentes a cerca de 700 quilômetros a leste da cidade de Rastenburg, então parte da Alemanha, no que se tornou a Polônia após a guerra.

Lá, ela foi convocada para o serviço civil e trabalhou nos dois anos e meio seguintes como provadora de alimentos e guarda-livros de cozinha no complexo da Toca do Lobo, localizada a poucos quilômetros fora da cidade. Hitler vivia escondido apesar da relativa segurança de seu quartel-general. Ela nunca o viu pessoalmente - apenas o seu pastor alemão Blondie e os guardas da SS, que conversavam com as mulheres.

AP
Foto de arquivo mostra o líder alemão Adolf Hitler e sua companheira Eva Braun jantando

Os temores de Hitler sobre sua segurança não eram infundados. Em 20 de julho de 1944, um coronel de confiança detonou uma bomba na Toca do Lobo em uma tentativa de matar o líder alemão. Ele sobreviveu, mas cerca de 5 mil foram executadas após o atentado, incluindo o seu autor.

"Estávamos sentados em bancos de madeira quando ouvimos e sentimos uma incrível explosão", ela disse sobre o ataque de 1944. "Caímos do nosso banco, e eu ouvi alguém gritando: 'Hitler está morto!' Mas ele não estava."

Após a explosão, a tensão aumentou ao redor do quartel-general. Margot afirmou que os nazistas ordenaram que ela deixasse a casa dos seus parentes e se mudasse para uma escola abandonada, próxima ao complexo.

Edgar Feuchtwanger: Judeu alemão relembra infância como vizinho de Hitler

Com o Exército soviético na ofensiva e a guerra se tornando mais difícil para o lado da Alemanha, um de seus amigos das SS aconselharam-na a deixar a Toca do Lobo. Ela disse que pegou um trem para Berlim e passou a viver escondida.

Margot afirmou que as outras mulheres que provavam a comida de Hitler decidiram permanecer em Rastenburg, uma vez que suas famílias estavam lá e aquele era seu lar. "Mais tarde, descobri que os russos mataram todas as outras 14 meninas", disse. Isso aconteceu depois que as tropas soviéticas invadiram o quartel-general.

Quando ela voltou para Berlim, encontrou uma cidade completamente destruída. Em 20 de abril de 1945, a artilharia soviética começou a disparar contra os arredores de Berlim e as forças terrestres avançaram sobre a capital, vencendo a forte resistência das SS e da Juventude Hitlerista.

Depois de cerca de duas semanas de intensas batalhas, a cidade se rendeu em 2 de maio - depois que Hitler, que tinha abandonado a Toca do Lobo cinco meses antes, matou-se. Seu sucessor se rendeu uma semana depois, dando fim à guerra na Europa.

Memória: Historiador decifra 'carisma' de Hitler e vê paralelos em mundo de hoje

Para muitos civis de Berlim - suas casas estavam destruídas, seus familiares desaparecidos ou mortos e não havia comida - o horror não chegou ao fim com a rendição.  "Os russos então vieram para Berlim e me pegaram também", disse Margot. "Me levaram para o apartamento de um médico e me estupraram por 14 dias consecutivos. Por isso nunca tive filhos. Eles destruíram tudo."

Como milhões de alemães e outros europeus, Margot começou a reconstruir sua vida e tentar esquecer as memórias amargas e a vergonha de sua associação com um regime criminoso que destruiu grande parte da Europa.

Ela exerceu diversas funções, principalmente como secretária ou assistente administrativa. Seu marido voltou da guerra, mas morreu há 23 anos, disse.

AP
Margot Woelk, uma das provadoras de comida de Adolf Hitler, mostra uma foto dela mesma tirada por volta de 1939 ou 1940

Com a fragilidade da idade avançada e a falta de um elevador no prédio, ela não saiu de seu apartamento durante os últimos oito anos. Enfermeiras vão à sua casa várias vezes por dia, e uma sobrinha também a visita com frequência.

Agora, no final de sua vida, ela sente a necessidade de limpar suas memórias, contando sua história. "Durante décadas, tentei afastar essas lembranças", disse. "Mas elas sempre voltavam para me assombrar durante a noite."

Por Kirsten Grieshaber

Leia tudo sobre: hitlersegunda guerra mundialalemanhaberlimurss

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas