Governo sírio classificou neste domingo (5) os dois dias consecutivos de ataques de Israel contra seu território de uma "flagrante violação da lei internacional"

BBC

Israel ataca instalações militares na área de Damasco
AFP/HO/SANA
Israel ataca instalações militares na área de Damasco

Em janeiro deste ano, Israel bombardeou um comboio de armas que, segundo seu serviço de inteligência, transportava avançados SA-17, um tipo de míssil antiaéreo. As armas sairiam da Síria para ser entregues a militantes libaneses do Hezbollah.

O ataque foi um alerta, um esforço para dissuadir o regime do presidente Bashar al-Assad de fazer transferências de armas para seus aliados no Líbano.

Os recentes ataques aéreos mostram que esse objetivo de dissuasão não foi atingido. Eles são prova de que a Força Aérea israelense tem condições de atacar alvos no coração da Síria, e de que eles podem ser os primeiros de muitos. Um padrão regular de bombardeios eleva o risco de levar a Síria e o Hezbollah a se engajarem em uma guerra regional. O pesadelo do conflito na Síria se espalhar por toda a região se tornaria uma realidade.

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Então qual é a preocupação israelense? Enquanto uma boa parcela da atenção de Israel e dos Estados Unidos se volta para a possibilidade do arsenal de armas químicas sírias caírem em mão erradas, os ataques aéreos ressaltam a preocupação israelense sobre o repasse de avançados armamentos convencionais para o Hezbollah.

Isso inclui mísseis destinados a abater aeronaves, navios, blindados e tropas. Tal preocupação não é nova.

Há cerca de quatro anos, o governo do então premiê Ehud Olmert alertou que não toleraria a transferência do que chamou de "armas capazes de mudar o jogo" para o Hezbollah.

De acordo com a inteligência americana, o alvo do ataque da última quinta-feira foi um carregamento de mísseis terra-terra (disparados do solo para atingir alvos também na superfície) em um armazém no aeroporto de Damasco.

Os mísseis, que teriam sido comprados do Irã, seriam Fateh-110s, movidos a combustível sólido – cujas características são mobilidade e precisão. Eles seriam capazes de atingir as principais cidades israelenses, inclusive Tel Aviv, se disparados do sul do Líbano.

O que não ficou claro, segundo disse a inteligência americana, é quem exatamente receberia os mísseis: o Exército sírio ou o Hezbollah. O armazém atacado seria controlado pelo Hezbollah e pelo grupo paramilitar iraniano Força Quds.

Jogo longo?

Esse episódio destaca novamente o forte triângulo de relacionamento entre Terã, Damasco e o Hezbollah. De fato, relatórios recentes sugerem o envolvimento crescente do Hezbollah na guerra da Síria. De acordo com algumas fontes, centenas de militantes do Hezbollah combatem ao lado das forças militares de Assad no campo de batalha.

O Irã, ao ver seu aliado sírio em dificuldades, estaria ansioso por reforçar as defesas do Hezbollah no Líbano. Assad, por sua vez, deve se sentir obrigado a transferir armas para o Hezbollah em retribuição ao seu apoio ativo. Isso significa que quanto maior for o ritmo de desintegração do regime sírio, mais rápida serão as transferências de armas.

Essas transferências também são vantajosas para Assad, pois podem ajudar a mantê-lo no jogo por mais tempo. Se seu regime perder terreno e ele for obrigado a levar seu governo para a região costeira – onde fica o coração de sua etnia alauíta - , o Hezbollah com sua estrutura militar será um aliado ainda mais importante.

Por outro lado, se Assad conseguir permanecer em Damasco, um Hezbollah forte manteria presente a possibilidade de escalada da crise síria para um conflito regional – algo que Israel e os EUA querem desesperadamente evitar.

Dada a escassez de fatos concretos, torna-se difícil tirar conclusões definitivas. Relatórios de inteligência israelenses sugerem, por exemplo, que os mísseis destruídos no aeroporto de Damasco não seriam Fateh-110s iranianos, mas M-600, de fabricação síria.

Mas, o fato mais intrigante é o segundo ataque aéreo isrelense realizado na madrugada deste domingo. O alvo dessa vez foi um complexo militar perto de Jamraya – uma área com quartéis generais, centros de pesquisas e outras instalações. Ainda não sabemos qual foi o alvo, ou os alvos atingidos, embora o fogo provocado pela explosão tenha sido visto até de Damasco.

Provavelmente a natureza desse alvo contenha a real mensagem de Israel para o presidente sírio. Isso deixa Assad e o Hezbollah em uma posição difícil. Eles devem dar algum tipo de resposta? Os dois se consideram campeões da resistência contra Israel. No passado, o Hezbollah tentou atacar alvos israelenses fora de Israel. Certamente, qualquer resposta militar direta da Síria ou do sul do Líbano levariam a um confronto maior, que tanto Assad quanto o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, querem evitar.

Entretanto, é difícil imaginar que os carregamentos de armas serão totalmente interrompidos. Há muitas coisas em jogo. Dependendo das condições climáticas e da capacidade da inteligência israelense, muitas armas ainda podem cruzar a fronteira do Líbano.

A crise da Síria está entrando em um novo território. Especialistas israelenses estão alertando, com razão, para a possibilidade de guerra. Os detalhes ainda são escassos, mas os ataques aéreos israelenses sobre alvos sírios nos últimos dias são um podersoso sinal.

Enquanto o presidente americano Barack Obama hesita em agir para implementar seu alerta final sobre o uso de armas químicas por Damasco, Israel está empenhado em dar sua própria advertência definitiva sobre a transferência de armas da Síria para o Hezbollah.

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