Há uma preocupação, principalmente em Israel, de que a Síria esteja enviando armas para o Hezbollah e, talvez, parte das armas químicas e biológicas que tem armazenadas

O Líbano nunca sai das preocupações de Israel. O país teve sua proclamação em 1943, permanecendo sob influência francesa durante os primeiros anos. Desde a independência, foi uma soma de inúmeras crenças religiosas que vivem empenhadas em montar um consenso nacional. Durante séculos, foi uma província otomana que abrangia os atuais Síria, Líbano, Israel e Jordânia.

Soldados sírios preparam arma antiaérea perto de campo de trigo próximo à posição de radar no Vale do Bekaa, Líbano (1/7/2001)
AP
Soldados sírios preparam arma antiaérea perto de campo de trigo próximo à posição de radar no Vale do Bekaa, Líbano (1/7/2001)

Como todos países árabes, com exceção de Egito e Jordânia - com os quais Israel tem tratados de paz - tecnicamente o Líbano está em estado de guerra com Israel pelo fato de ter apenas um armistício, e não um tratado de paz, assinado no Chipre após a Guerra de Independência da Pátria Judaica, em 1949.

As diferentes facções existentes - cristãos maronitas e ortodoxos, muçulmanos sunitas, xiitas e alauítas - criaram um país explosivo, que acabou entrando numa guerra civil (1975-1990). Foi difícil chegar a um consenso nacional sobre um sistema político eleitoral. Foram 15 anos de conflito, que destruiu Beirute, hoje reconstruída, voltando a ser a "Paris do Oriente Médio" por sua sotisficação, comércio, cassinos e hotéis.

Os grupos libaneses mantêm milícias próprias. Desde o fim da guerra civil, prevalece acordo feito na Árabia Saudita, pelo qual o Líbano é um país democrático, com posições de mando previamente divididas entre as seitas. Assim, o presidente tem de ser cristão maronita, representando 39% da população, o primeiro-ministro muçulmano sunita, religião maioritária, e o porta-voz do Parlamento, xiita. No Oriente Médio, onde surgiram as histórias das "Mil e uma Noites" e as três grandes religiões monoteístas - judaísmo, cristianismo e o islamismo -, nada é simples.

Certa vez, um sistema comunista assumiu o controle no Afeganistão. Esse governo recebeu apoio de tropas soviéticas. Tribos muçulmanas adotaram a guerrilha contra tropas russas, que as classificavam como representantes do "ateísmo e satanismo". Eles receberam apoio, armas e assistência técnica da CIA americana via fronteira com o Paquistão. País algum, até hoje, havia conseguido o domínio dessas tribos montanhosas, que impuseram tantas derrotas às forças russas, forçando-as a se retirar.

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O recuo de Moscou foi um dos fatores que culminaram na queda do regime comunista. Veteranos das guerrilhas e voluntários de outros países árabes tornaram-se desnecessários com a ascensão ao poder da milícia islâmica do Taleban (ou Partido dos Estudantes), que, pelo posterior apoio a Osama bin Laden , permitiu a criação da rede terrorista Al-Qaeda, responsável pelos ataques do 11 de Setembro contra as Torres Gêmeas de Nova York e o Pentágono, em 2001.

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Bin Laden tinha saído da guerra com os soviéticos como herói. Veteranos do Afeganistão, muitos de origem libanesa, retornaram ao Líbano, onde criaram o Hezbollah (Partido de Deus,  xiita) e assumiram o controle do sul do país, fronteira direta com Síria e Israel. O líder Nasrallah , que vive escondido, comandou seu grupo na Segunda Guerra do Líbano, em 2006, que terminou em armísticio sob liderança da ONU. Hoje, é a mais poderosa milícia do Líbano, uma força militar respeitável e um partido político.

É notório que o Partido de Deus venha sendo armado pelo Irã, xiita. Aliados da Síria, as relações do Irã e do Hezbollah com Damasco são estratégicas. O Hezbollah mandou considerável grupamento de apoio ao presidente Bashar al-Assad. Na prática, foi o primeiro grupo árabe, representando um país (Líbano), a apoiar o atual regime sírio.

Líder do Hezbollah, xeque Hassan Nasrallah, em rara aparição pública (setembro de 2012)
AP
Líder do Hezbollah, xeque Hassan Nasrallah, em rara aparição pública (setembro de 2012)

Há uma preocupação, principalmente em Israel, de que a Síria esteja enviando armas para o Hezbollah e, talvez, parte das armas químicas e biológicas que tem armazenadas. Há dois dias, em encontro com a imprensa na Casa Branca, o presidente Barack Obama, que tinha ameaçado a Síria caso atravessasse a " linha vermelha " com uso de armas químicas, declarou: "Foi verificado emprego de armas químicas , mas não sabemos quem usou, quando, nem onde. Enquanto não houver respostas, não poderemos agir com rigor contra alvo desconhecido." Já Nasrallah ameaçou Israel, dizendo: "Não brinquem com o Líbano, pois não temos receio de nos defender."

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Há um consenso mundial, incluindo países árabes, de que a matança na Síria não pode continuar, mas ninguém até agora conseguiu identificar grupos confiantes com condições de lutar. Entre os rebeldes, há sunitas, jihadistas alinhados à Al-Qaeda , xiitas, entre outros. A divisão dos rebeldes explica a resistência do governo Assad, cujos inimigos, que ele insiste em caracterizar como terroristas, não são unidos.

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O receio de interferir na luta entre os sírios vem do fato de que os rebeldes não escondem a determinação de acabar com Assad e sua gente. A queda do atual presidente aprofundaria ainda mais a já sangrenta guerra civil. A fronteira da Síria com Israel é guardada para evitar a entrada de refugiados em território israelense e para assegurar que o Hezbollah não use armas químicas. É nesse contexto de tensão que o Líbano tem eleições parlamentares em junho.

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