Após desabamento de fábrica, trabalhadores protestam em Bangladesh

Por iG São Paulo |

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Para marcar o Primeiro de Maio, trabalhadores fazem manifestação exigindo melhores condições de segurança; número de mortos em desabamento de prédio passa de 400

Milhares de trabalhadores realizaram uma manifestação no centro de Daca, em Bangladesh, neste Primeiro de Maio, Dia do Trabalho, para exigir melhores condições de segurança e salariais. Os manifestantes também pediram pena de morte para o proprietário de um prédio que abrigava fábricas de roupas e  que desabou na semana passada, deixando 402 mortos e 2,5 mil feridos.

As autoridades enterraram nesta quarta-feira (1º) os corpos de 18 trabalhadores não identificados que foram mortos no desabamento, considerado o pior desastre industrial do país. O papa Francisco e sindicatos europeus criticaram as condições de trabalho no país, cuja indústria têxtil gera US$ 20 bilhões por ano e abastece os mercados europeus e americanos.

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Trabalhadores de Bangladesh gritam palavras de ordem durante manifestação no Dia do Trabalho

O papa Francisco disse que estava chocado com uma manchete que dizia que alguns funcionários que trabalhavam no prédio ganhavam 38 euros por mês (R$ 98). "Esse era o pagamento dessas pessoas que morreram... E isso se chama 'trabalho escravo'", disse. Segundo a rádio do Vaticano, o papa fez as declarações durante uma missa privada na manhã desta quarta-feira.

Autoridades europeias afirmaram nesta quarta que estão estudando medidas para restringir o acesso de Bangladesh ao mercado europeu para "incentivar" maior responsabilidade por parte dos industriais do país. Catherine Ashton, a chefe de assuntos internacionais da União Europeia, e a comissária de comércio, Karel De Gucht, pediram em comunicado para que as autoridades de Bangladesh tomem uma atitude imediata para garantir que as fábricas cumpram com padrões de trabalho internacionais.

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Nas manifestações desta quarta, os trabalhadores a pé, em motos e caminhonetes passaram pelo centro de Daca agitando bandeiras do país, batendo em tambores e gritando: "ação direta!" e "pena de morte!" Um dos participantes do protesto disse em um alto-falante: "Meu irmão morreu. Minha irmã morreu. Que o sangue deles não tenha sido em vão."

Cinco fábricas têxteis estavam abrigadas no prédio, ilegalmente construído com oito andares, que desabou no subúrbio de Daca. Cinco meses depois de um incêndio ter deixado 112 mortos em outra fábrica de roupas, o desabamento expôs, mais uma vez, os problemas de segurança na indústria do país.

O número de mortos do desabamento passou de 400 nesta quarta-feira. Destes, 399 foram retirados sem vida dos destroços e outras três pessoas morreram no hospital, segundo informações da polícia.

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Milhares participaram de um funeral para 18 trabalhadores não identificados que morreram no desabamento. Os corpos, putrefados devido ao calor da primavera em Bangladesh, foram trazidos para o enterro na traseira de um caminhão. Uma mulher afirmou que um dos corpos era de sua irmã e implorou para levá-lo. Mais de 80 covas foram preparadas, pois as autoridades esperam que mais corpos fiquem sem ser reconhecidos.

O proprietário do prédio, Mohammed Sohel Rana, é interrogado pela polícia e está sob custódia. É esperado que ele seja indiciado por negligência, construção ilegal, e por forçar os funcionários a trabalhar, crimes cuja punição levam a, no máximo, sete anos de prisão. Autoridades não afirmaram se outros crimes mais sérios serão acrescentados no indiciamento.

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A Suprema Corte de Bangladesh ordenou que o governo confisque as propriedades de Rana e congele os bens dos proprietários das fábricas localizadas no prédio para que o dinheiro seja usado para pagar os salários dos funcionários.

Rana tinha permissão apenas para construir um prédio de cinco andares, mas acrescentou outros três andares ilegalmente. Quando grandes fissuras apareceram nas paredes do edifício um dia antes do desabamento, a polícia ordenou que o local fosse esvaziado, mas Rana afirmou aos inquilinos que o prédio estava seguro e que eles podiam retornar. Poucas horas depois, o prédio veio abaixo.

Cerca de 2,5 mil escaparam do desabamento com ferimentos. Equipes de resgate acreditam que o número de mortos deve crescer, porque acreditam que muitos corpos ainda estão soterrados no primeiro andar do prédio. O número de desaparecidos está incerto.

Zillur Rahman Chowdhury, administrador do distrito de Daca, disse que 149 pessoas estão na lista de desaparecidos. Um policial, Aminur Rahman, disse que a polícia listou o nome de 1,3 mil desaparecidos, mas alertou que alguns nomes poderiam estar duplicados.

A indústria têxtil de Bangladesh era a terceira maior do mundo em 2011, atrás somente da China e da Itália. Entre as fábricas no prédio estavam a Phantom Apparels, Phantom Tac, Ether Tex, New Wave Style e a New Wave Bottoms. Todas elas juntas produzem milhões de camisetas, calças e outras vestimentas todo ano.

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Mulher deita ao lado de uma fotografia de seu filho que estaria soterrado nos escombros do prédio que desabou em Savar, Bangladesh

As empresas da New Wave, segundo seu site na internet, fazem roupas para muitos varejistas americanos e europeus. A britânica Primark reconheceu que usava uma fábrica no Rana Plaza. Em comunicado divulgado na segunda-feira, a empresa afirmou que está providenciando ajuda emergencial e pagando compensações às vítimas que trabalhavam para seu fornecedor. "Estamos plenamente conscientes de nossa responsabilidades. Torcemos para que os outros varejistas também ofereçam assistência", disse.

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A empresa canadense Loblaw Inc., que também teve uma coleção feita por fábricas no Rana Plaza, afirmou na segunda-feira que garantirá às vítimas e suas famílias "benefícios agora e no futuro". A porta-voz Julia Hunter disse que a empresa ainda trabalha nos detalhes, mas planeja dar apoio "da melhor forma e mais significativa possível".

O Wal-Mart afirmou que não autorizou que nenhuma de suas roupas fosse produzida no Rana Plaza, mas que investigaria se houve algum pedido não autorizado.

Com AP

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