Obama promete novo impulso para fechar Guantánamo; presos fazem greve de fome

Por iG São Paulo | - Atualizada às

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Greve iniciada há três meses conta com a participação de 100 dos 166 detentos de campo de detenção; muitos vêm sendo alimentados à força

O presidente dos EUA, Barack Obama, prometeu nesta terça-feira fazer um novo esforço pelo fechamento do campo de detenção da Baía de Guantánamo, dizendo que seu governo voltará a empenhar-se com o Congresso na tentativa de superar os obstáculos para desativar o local.

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"Precisa ser fechado", disse Obama em coletiva na Casa Branca. "Voltarei a isso", disse, porém, sem oferecer nenhum novo caminho para remover os obstáculos parlamentares, políticos e jurídicos que a questão enfrenta.

Obama não conseguiu levar adiante sua promessa de primeiro mandato de fechar a prisão criticada internacionalmente que funciona numa base militar dos EUA em Cuba. O presídio foi aberto por seu antecessor George W. Bush (2001-2009) para abrigar estrangeiros suspeitos de terrorismo.

Guantánamo atraiu nova atenção recentemente em meio a uma greve de fome iniciada há três meses que agora atinge 100 dos 166 prisioneiros, dos quais alguns estão sendo alimentados à força.

Há dias, guardas invadiram o chamado Acampamento Seis, onde estão confinados os mais cooperativos dos 166 suspeitos de terrorismo, e reprimiram prisioneiros que haviam bloqueado as câmeras de segurança em protesto, proibindo-os de se reunir em uma área comum.

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"Eles ainda não terminaram e não desistirão até que haja mais que uma morte", disse um assessor muçulmano para o serviço militar, identificado como "Zak" por razões de segurança, que teme que possa haver suicídios. De acordo com ele, apenas uma coisa satisfará os detentos: se alguém ganhar permissão para ir embora.

O motivo do protesto foi contestado. Os detentos, por meio de seus advogados, disseram que, quando os guardas conduziram uma busca de suas celas  em 6 de fevereiro, manusearam seus exemplares do Alcorão (o livro sagrado dos muçulmanos) de forma desrespeitosa. Os oficiais da prisão contestaram tal afirmação.

No entanto, autoridades militares e advogados dos presos concordam com a causa do protesto: um sentimento crescente entre muitos prisioneiros, alguns dos quais estão detidos sem julgamento há mais de 11 anos, de que nunca voltarão para casa.

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Embora o presidente Obama tenha anunciado como sua prioridade o fechamento da prisão quando entrou na Casa Branca, colocou esse esforço em segundo plano diante da oposição do Congresso a seu plano de transferir os presos para uma instalação de segurança máxima dentro dos EUA.

A decepção foi agravada pela decisão de Obama, em janeiro de 2011, de assinar a legislação para restringir as transferências de prisioneiros. Mais da metade dos presos havia sido designado há três anos para ser transferida para outro país se as condições de segurança estivessem de acordo com o necessário, mas as transferências não ocorreram. E, no início deste ano, o governo de Obama transferiu, sem substituir, o diplomata que havia negociado as transferências.

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No total, 56 desses detentos designados para uma possível transferência são do Iêmen, e Obama impediu que houvesse mais repatriações - um ano antes do Congresso impor as restrições mais graves - por causa do ramo ativo da Al-Qaeda no país.

Aumentando a impressão de indiferença com a questão, o governo perdeu por mais de um ano o prazo imposto por Obama para realizar a primeira rodada de audiências de liberdade condicional por novos "Comitês de Revisão Periódica" para verificar se outros detentos deveriam ser transferidos. Várias autoridades disseram que o atraso decorreu de disputas entre agências internas a respeito da forma como as provas obtidas mediante tortura ou tratamento cruel deveriam ser tratadas. Em particular, disseram, a CIA tem resistido a qualquer pronunciamento formal de que seus interrogadores tenham violado esse padrão.

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Riscos

Manter a prisão aberta representa um conjunto de problemas. Se os EUA se retirarem do Afeganistão e a guerra por lá chegar ao fim, restando apenas o conflito contra a Al-Qaeda, a autoridade legal para manter os detentos sob custódia provavelmente será questionada. E os militares possuem cerca de 50 prisioneiros não afegãos no Afeganistão considerados uma "ameaça à segurança contínua" que os republicanos no Congresso disseram que deveriam ser transferidos a Guantánamo.

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O Congresso não incluiu nenhuma exceção médica em sua proibição de transferir presos para os EUA, mas as instalações de Guantánamo não possuem equipamentos que podem ser necessários à medida que os detentos envelhecem. Um comandante médico disse que não seria capaz de realizar radioterapia ou diálise renal, por exemplo, caso necessário.

Por enquanto, os militares estão enviando cerca de 40 enfermeiros e médicos adicionais para lidar com a greve de fome. Como a decisão de iniciar a transferência de prisioneiros de baixo escalão pode ser tomada apenas em Washington, no entanto, o poder dos agentes penitenciários para aliviar a crise é limitado.

Sentado diante do que disse serem armas improvisadas, como cabos de vassouras descobertos, o diretor da prisão, o coronel John Bogdan, disse que tinha encontrado várias vezes com líderes dos detentos para persuadi-los a obedecer as regras novamente, mas foi incapaz de lhes dar o que queriam. "Eles pediram para ser soltos de Guantánamo", disse. "Não posso fazer isso."

*Com Reuters e New York Times

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