Confrontos violentos após a eleição deixam sete mortos na Venezuela

Por iG São Paulo |

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Protestos da oposição tiveram início depois que Henrique Capriles pediu uma recontagem dos votos e anunciou que não reconheceria vitória de Nicolás Maduro, herdeiro de Chávez

Confrontos violentos durante os protestos da oposição por causa das disputadas eleições da Venezuela deixaram sete mortos, afirmaram autoridades. Nesta terça-feira (16), opositores e governistas mobilizaram partidários em todo país a fazer novas manifestações.

O líder da oposição, Henrique Capriles, exigiu uma recontagem de votos da eleição de domingo depois que os resultados mostraram uma vitória estreita do herdeiro de Hugo Chávez, Nicolás Maduro.

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Reuters
Partidários de Capriles enfrentam tropa de choque durante protesto após eleições na Venezuela (15/4)

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A autoridade eleitoral descartou uma recontagem, aumentando os temores de mais episódios de violência no país. As mortes ocorreram na segunda, quando centenas de manifestantes tomaram as ruas em várias partes da capital, Caracas, e outras cidades, bloqueando as ruas, queimando pneus e enfrentando as forças de segurança em alguns casos. Autoridades também afirmaram que 135 pessoas foram detidas nos episódios de violência após a eleição.

A mídia estatal e autoridades disseram que dentre os mortos estão dois baleados por simpatizantes da oposição enquanto celebravam a vitória de Maduro em um bairro de classe média em Caracas.

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Uma pessoa morreu em um ataque em uma clínica estatal no centro do Estado. Um policial também está entre os mortos. "Vamos derrotar essa violência fascista com democracia", disse o chanceler Elías Jaua, descrevendo os incidentes e mostrando imagens de vídeo a um grupo de embaixadores. "Aqueles que tentam conseguir com a força o que não conseguiram através das eleições não são democratas."

A oposição não respondeu às acusações imediatamente e assessores de Capriles reiteraram pedidos de protestos pacíficos nesta terça enquanto milhares de partidários marchavam aos gabinetes eleitorais regionais em todo país. O governo também convocou manifestações.

Após a eleição de domingo, Capriles se recusou a reconhecer os resultados, e seus seguidores foram às ruas. Em Caracas, na noite de segunda-feira, partidários da oposição fizeram batucadas com frigideiras e panelas, enquanto os eleitores de Maduro responderam com fogos de artifício e música.

Em um rico distrito de Caracas, policiais atiraram gás lacrimogêneo e balas de borracha contra partidários da oposição mascarados, que jogavam pedras e pedaços de pau contra as forças de segurança. Motociclistas dirigiam em círculos em torno de uma pilha de lixo queimado na principal avenida da capital.

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Segundo Capriles, de acordo com os dados computados por sua equipe, ele venceu a eleição e, por isso, exige uma recontagem completa de votos. O Conselho Nacional Eleitoral disse que uma auditoria de 54% das estações de votação, em um sistema eletrônico muito confiável, já foi realizada.

A eleição na Venezuela ocorreu depois que Chávez, após uma batalha de dois anos contra o câncer, morreu no mês passado. Ele indicou Maduro como seu sucessor antes de morrer e seu protegido ganhou a eleição com 50,78% dos votos, contra 48,95% de Capriles. "Cadê os políticos da oposição que acreditam na democracia?", questionou Maduro, culpando Capriles pela violência.

Autoridades do governo levantaram a possibilidade de entrar com uma ação na Justiça contra Capriles. "Fascista Capriles, eu vou pessoalmente garantir que você pague pelo estrago que está fazendo em nossa nação e com nosso povo", disse o chefe da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, em sua conta no Twitter.

AP
Manifestantes segurando cartaz com foto de Henrique Capriles enfrentam tropa de choque da polícia em protesto em Caracas (15/4)

Mas o líder da oposição afirma que vai seguir lutando. "Não vamos ignorar a vontade do povo. Acreditamos ter vencido... queremos que esse problema seja resolvido pacificamente", disse Capriles durante coletiva de imprensa. "Não há maioria aqui. Há duas metades."

Segundo sua equipe, há evidências de mais de 3,2 mil irregularidades no dia da eleição, como eleitores usando identidades falsas até intimidações por parte dos voluntários nos colégios eleitoraos.

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A maior concentração dos protestos na capital foi na Praça Altamira, que era usada com frequência durante manifestações nos 14 anos de governo Chávez. Destroços queimados e vidros no chão ocupavam o local na manhã desta terça. "Vamos protestar pelo tempo que for necessário. Não vamos desistir das ruas", disse Carlos Cusumano, estudante de 20 anos que participou dos protestos.

A queda de braço por meio dos protestos também poderia se repetir na quarta-feira, data para a qual Capriles convocou uma marcha "de grandes dimensões" até a sede do CNE, em Caracas.

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"Continuo pedindo a paz, e convoco o povo ao combate em paz, a mobilizar-se amanhã (terça-feira) em todo o país, e na quarta, e na sexta (data da posse), todos em Caracas. Basta de abusos", disse Maduro. "Se querem pensar de forma distinta, pensem, mas vamos trabalhar pela educação dos nossos filhos. Quero trabalhar pela saúde, a educação, a infância, os programas de saúde."

Reações internacionais

Segundo os últimos números do CNE, com 99,34% dos votos apurados, Maduro havia obtido 7,57 milhões de votos (50,78%) contra 7,3 milhões de Capriles (48,95%), uma diferença de 1,83 ponto percentual ou 272 mil votos.

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Nesta terça-feira, a União Europeia disse que "tomou nota" das eleições venezuelanas, mas ressaltou a importância de que "o resultado seja aceito por todas as partes".

Segundo a agência EFE, a porta-voz do Exterior do bloco, Maja Kocijancic, não quis entrar em detalhes sobre a posição europeia em relação às eleições venezuelanas.

Kocijancic disse que o bloco ainda divulgará um comunicado final sobre o tema. Espanha, França e Reino Unido têm sido mais relutantes em relação ao processo eleitoral, a Espanha, em particular, demonstrando sua insatisfação.

Mas, adiantou a porta-voz europeia, "se o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) decidir fazer uma recontagem, confiamos em que se faça rápidamente e com total transparência, principalmente tendo em vista a margem (de vitória) extremamente estreita".

Os Estados Unidos e a Organização dos Estados Americanos (OEA) apoiaram a ideia de uma recontagem – que os EUA chamaram de "prudente e necessária". A chefe do órgão eleitoral, Tibisay Lucena, rejeitou as declarações, que qualificou de "ingerência".

Outros países do mundo já felicitaram Maduro pela sua vitória, inclusive o Brasil, que subscreveu o comunicado das 12 nações da Unasul, o bloco sul-americano. Ainda nesta terça-feira, em entrevista à Televen, a presidente do Conselho Legislativo do Estado de Miranda, Aurora Morales, deu 24 horas para que Capriles assuma o governo estadual, para o qual foi eleito em dezembro.

Veja fotos da eleição na Venezuela:

Nicolás Maduro, herdeiro político de Chávez, chega ao seu posto eleitoral em Caracas, neste domingo (19). Foto: APPresidente em exercício, Nicolás Maduro, faz uma oração após depositar seu voto em colégio de Caracas. Foto: APCandidato Henrique Capriles mostra dedo com tinta após dar seu voto em posto eleitoral de Caracas. Foto: ReutersHenrique Capriles, candidato da oposição e que enfrenta Nicolás Maduro, chega ao posto de votação, em Caracas. Foto: ReutersMenina de cinco anos acompanha família que vota no consulado da Venezuela, na capital Havana, em Cuba 
. Foto: ReutersVenezuelanos formam fila para votar neste domingo (14), em Caracas; 19 milhões são esperados . Foto: APSoldado venezuelano deposita seu vota na urna eleitoral, em Caracas, neste domingo (14). Foto: APEleitores checam listas em Caracas, neste domingo (14). Votação decidirá o futuro do País. Foto: ReutersApós depositar seu voto, eleitora tem dedo manchado em posto eleitoral de Caracas, capital do país. Foto: APVenezuelanos aguardam em Caracas para votar nas primeiras eleições após a morte de Chávez. Foto: APEleitores formam fila em postos e aguardam para votar neste domingo (14). Foto: Reuters

Evo Morales, presidente da Bolívia, disse que Capriles está demonstrando um "problema de atitude frente às instituições do país", por não ter questionado a margem de votos de quatro pontos pela qual bateu o candidato chavista, Elías Jaua. "São quase 300 mil votos (de diferença de Maduro para Capriles)", disse. "É uma atitude negligente, indolente. O que quer é fazer baderna."

Com Reuters e BBC

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