Ao iG, Capriles equilibra elogios a Chávez com ataques a sucessor do chavismo

Por Bruna Carvalho - iG São Paulo | - Atualizada às

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Confrontado por comoção pela morte de presidente popular, candidato da oposição culpa Maduro por problemas da Venezuela e promete modelo brasileiro para recuperar país

Diante da comoção e do luto na Venezuela pela morte do presidente Hugo Chávez, o candidato da oposição Henrique Capriles Radonski teve de buscar na campanha para a eleição do próximo domingo (14) um difícil equilíbrio: atacar seu rival, o governista Nicolás Maduro, ao mesmo tempo em que reverencia o popular Chávez.

Ao iG, o governador do Estado de Miranda de 40 anos escolhe com cuidado as palavras ao se referir ao presidente, que governou a Venezuela por 14 anos, caracterizando-o como um líder "carismático" que "movia as massas". Já Maduro, sucessor indicado pelo próprio Chávez, seria o responsável por ter colocado, em seus cem dias de governo interino, o país em crise. "Quem manipula o poder hoje são os mesmos corruptos e ineficientes com quem o presidente Chávez brigava em cadeia nacional. Nicolás não é Chávez, e todos sabemos disso."

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Reuters
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Entre suas promessas de campanha, está a manutenção das missões, programas sociais característicos da era chavista que garantiram a alta popularidade do presidente morto. Mas Capriles promete aprimorá-las para que percam o que indica ser um viés assistencialista. "Os programas sociais devem ser utilizados para pôr fim à dependência em relação ao governo", opina o candidato.

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Apesar das pesquisas indicarem uma vantagem de ao menos dez pontos percentuais para Maduro, Capriles, que foi derrotado por Chávez nas eleições de 2012, diz que, se eleito, adotará um modelo inspirado no Brasil de "economia de livre mercado com ênfase no social".

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista que concedeu por email ao iG:

iG: Quais são suas principais propostas para a Venezuela?

Henrique Capriles: Existem três coisas vitais: ganhar o sustento, alimentar-se e dormir tranquilo. O primeiro item é importante porque o dinheiro permite aos venezuelanos ir ao mercado e poupar. A população quer um carro, uma casa, educação de qualidade, serviços básicos. Após recentes medidas do governo interino de Nicolás (Maduro), nosso dinheiro vale 47% menos. Por isso, nossa primeira medida de governo será aumentar os salários em ao menos 40% para recuperar o poder aquisitivo, incluindo o dos aposentados, que também ganhariam um vale-alimentação.

Também é importante que ninguém vá deitar com fome, que encontremos os produtos que queremos nos mercados. Os venezuelanos não queremos um governo ineficiente que determine o que podemos comprar; todos temos direito de decidir como gastar nosso dinheiro. Por isso, criaremos condições para atrair muito investimento estrangeiro à Venezuela e estimular a produção nacional, nos articularemos com as empresas privadas por oportunidades de emprego de qualidade. Para resgatar a economia, precisamos de algo similar ao modelo brasileiro, que combina uma economia de livre mercado com ênfase no social. Ativaremos nossa economia para não ter de depender das importações, como faz o governo atual.

Nosso último objetivo é possibilitar aos venezuelanos dormir tranquilos, sabendo que no dia seguinte terão comida para seus familiares, dinheiro para comprar o que necessitam e segurança nas ruas. A tranquilidade dependerá também de que sejam respeitadas as diferentes formas de pensar e que nossa união não seja pelo ódio, mas sim pelo desejo de alcançar a liberdade.

iG: Se eleito, o sr. manterá as missões (programas sociais) e o envio de ajuda a países como Cuba, medidas características da era Chávez?

Capriles: As missões não pertencem a uma pessoa nem a um partido. Elas são do povo, e não somente dos que usam a camiseta vermelha (cor do chavismo). Mas os programas sociais devem ser utilizados para pôr fim à dependência em relação ao governo, e não para jogar com a necessidade do povo. Esse governo utiliza as missões como um fim em si mesmo, em vez de convertê-las em ferramentas para permitir o progresso individual. Propusemos à Assembleia Nacional (Congresso unicameral venezuelano) uma medida para dar base legal às missões, mas não houve avanço porque (o governo) sabe que uma lei limitaria o poder de chantagear o povo.

Em Miranda, implementamos o programa social Hambre Cero (Fome Zero), inspirado no Brasil, e em quatro anos beneficiamos mais de 75 mil em pobreza extrema. O programa satisfaz as necessidades alimentares e facilita o acesso aos serviços de saúde, educação, habitação e emprego. Além disso, seus participantes recebem capacitação profissional para que possam seguir adiante sem depender de nenhum governo. Como mostra Miranda, não só manteremos as missões, como vamos aprimorá-las.

Planejamos criar um fundo como o “Plano Meu Remédio”, desenvolvido em Miranda, para dar medicamentos todos os meses aos idosos que necessitam de tratamentos permanentes, para que não gastem sua aposentadoria na farmácia. Em nosso projeto não existirá chantagem. O único requesito para receber qualquer benefício será ser venezuelano e ter necessidade. As pessoas não terão de se filiar a um partido para receber ajuda.

Não acabaremos com as missões, mas cessaremos o envio de nossos recursos como presentes a outros países, porque não há sentido em dar nosso petróleo a outros enquanto houver pobreza e problemas a resolver em nosso país. Primeiro nosso povo.

iG: Quais são as diferenças entre Chávez e Maduro?

Capriles: Nicolás se esconde atrás da imagem do presidente Chávez, porque sabe que não tem liderança. Usa sua imagem para tentar manter essa afinidade que o presidente tinha com os venezuelanos, porque sabe que não tem essa conexão popular. Chávez tinha carisma, movia as massas, mas Nicolás é uma cópia malfeita, não possui carisma, não tem discurso e propostas.

Essa é uma luta da verdade contra a mentira, do bem contra o mal, da honestidade e da vontade do progresso contra a corrupção e a ineficiência. Nicolás não tem nem intenção de resolver os problemas do país. Quem manipula o poder hoje são os mesmos corruptos e ineficientes com quem o presidente Chávez brigava em cadeia nacional. Nicolás não é Chávez, e todos sabemos disso. E estamos aqui para os venezuelanos entendam que esses apadrinhados não têm nada a oferecer.

iG: Considerando que a Venezuela ainda está em luto pela morte de Chávez, quais são suas reais chances de vencer?

Capriles: A luta não é de um homem, mas sim de um povo heroico que irá às urnas convencido de que quem atualmente ocupa de maneira espúria o poder são aqueles que Chávez criticou por sua inoperância, ineficiência e corrupção. O outro candidato não se importa com o país. Em seus primeiros cem dias como presidente interino, destruiu a economia e empobreceu ainda mais os venezuelanos. Nosso compromisso com os 7 milhões que votaram em nós em outubro nos leva a seguir lutando. Como não lutar pelos que confiaram em nossa proposta e nos veem como a esperança para sair dessa crise em que Nicolás nos colocou? Se todos os venezuelanos se mobilizarem em 14 de abril, começaremos a escrever uma nova história para o país.

AP
Candidato opositor Henrique Capriles cumprimenta partidários durante campanha em San Fernando de Apure, Venezuela

iG: O governista PSUV tem apoio em 20 Estados e em instituições como o Congresso e o Judiciário. Se eleito, como seu governo se viabilizaria?

Capriles: Estou seguro de que nessas instituições há muitos venezuelanos esperando uma mudança e se alegrarão quando ganharmos a eleição. Tenho certeza de que muitos governadores estarão dispostos a trabalhar de mãos dadas conosco em benefício de seu povo. Nosso governo será de verdadeira unidade nacional. Atuaremos para garantir que exista verdadeira independência de poderes, que a Justiça e as leis não favoreçam unicamente a um grupinho de apadrinhados. Em Miranda, conseguimos governar igualmente para todos sem que as preferências políticas interferissem.

iG: Chávez possuía uma relação muito próxima com o governo brasileiro. Se eleito, quais são seus planos para manter essa relação?

Capriles: Manteremos relações de cordialidade com todos os países. Queremos que a Venezuela atraia muito investimento estrangeiro para nos permitir resgatar a economia. Como afirmei anteriormente, o modelo brasileiro pode nos ajudar a ativar nossa economia. As relações entre Brasil e Venezuela são importantes e continuarão sendo.

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