Estado mínimo e recuperação britânica marcam legado econômico de Thatcher

Por Bruna Carvalho, Taís Laporta e Vinícius Oliveira - iG São Paulo |

compartilhe

Tamanho do texto

Segundo especialistas, ex-premiê britânica devolveu ao Reino Unido posição de destaque, mas, ao mesmo tempo, abriu espaço para desemprego e desigualdade social

O legado da ex-primeira-ministra do Reino Unido Margaret Thatcher, morta após sofrer um derrame nesta segunda-feira (8), divide opiniões dentro e fora do Reino Unido. Segundo especialistas ouvidos pelo iG, durante seu período como premiê (1979-1990), a 'Dama de Ferro' adotou medidas que devolveram ao país uma posição de destaque e o colocaram em um caminho de recuperação após a crise dos anos 70, mas também abriram espaço para o desemprego, o aumento da desigualdade social e a triplicação da pobreza infantil entre 1979 e 1995.

Obituário: Morre aos 87 anos a ex-premiê britânica Margaret Thatcher

Análise: Admirada e criticada, Margaret Thatcher transformou Reino Unido

AP
Foto datada dos anos 1980 mostra a ex-premiê britânica Margaret Thatcher

Na opinião do ex-ministro da Fazenda e sócio da Tendências Consultoria, Maílson da Nóbrega, Thatcher tornou-se reconhecida como a líder política que salvou o Reino Unido do desastre econômico infligido por políticas públicas de governos no pós-guerra". “Não é exagero afirmar que ela teve participação decisiva em virar o jogo em outros países, pois contribuiu para reverter políticas econômicas supostamente keynesianas (opostas ao neoliberalismo)”, analisa.

Sob a premissa de que o mercado, no lugar do Estado, pode servir melhor a sociedade, Thatcher tutelou a mudança no Reino Unido de uma economia industrial para uma economia financeira sujeita aos humores do mercado. Ela privatizou a habitação pública e gigantes estatais. Seu combate à inflação surtiu efeito: o índice diminuiu de 18% em 1980 para 8,6% em 1982.

Galeria de fotos: Relembre a trajetória de Margaret Thatcher em imagens

Enquanto viveu em Londres, entre 1985 e 1987, Maílson da Nóbrega assistiu à onda de privatizações promovida pela 'Dama de Ferro', que abrangeu empresas de telecomunicações, petróleo, gás, portos, siderurgia, indústria aeroespacial, aviação e automóveis. Thatcher enfrentou a resistência dos sindicatos, dos empregados de empresas estatais e da esquerda britânica para fazer o que o economista chamou de “o mais ambicioso programa de privatização da história”.

Por outro lado, a ex-premiê promoveu a redução drástica dos gastos públicos, provocando um enfraquecimento generalizado do amparo do Estado, difundido no Reino Unido desde o fim da Segunda Guerra (1939-1945). Por exemplo, seu governo abandonou o compromisso com o pleno emprego, afirmando que isso era uma responsabilidade entre empregadores e empregados, sendo a prioridade governamental manter a inflação baixa. O número de desempregados aumentou, chegando a uma média de 3,3 milhões em 1984, ou aproximadamente 6%. Em regiões mais afetadas pelas perdas industriais, o desemprego chegou perto dos 20%.

Polêmica: Veja as principais frases de Margaret Thatcher

Cinema: Papel de Margaret Thatcher deu Oscar de melhor atriz para Meryl Streep

O ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e professor da Unicamp Julio Gomes de Almeida é bastante crítico às medidas impostas pela ex-premiê. Segundo o economista, a era Thatcher promoveu a ilusão de que a privatização resolve qualquer problema e que a desregulação do sistema financeiro favorece as economias. Para o professor, esta desregulação promovida por Thatcher pode ser apontada como uma das origens da crise mundial iniciada em 2008. "Nove em dez economistas atribuem à desregulação um papel potencializador da crise que se abateu sobre o mundo. O liberalismo radical veio para mostrar como essa orientação de economia política é limitada.”

Eliza Filby, professora do King's College e autora do livro 'God and Mrs. Thatcher' (Deus e Sra. Thatcher, em tradução livre), diz que a ascensão política de Thatcher promoveu o fortalecimento de uma nova cultura no Reino Unido mais individualista, na qual cada homem deveria se tornar um capitalista. Apesar de duras, suas decisões, em certa medida, responderam às necessidades de um país em crise, o que permitiu que ela tivesse três mandatos consecutivos, na opinião da autora. "Ela acreditava que a sociedade não deveria ser levantada pelo Estado, mas pelos indivíduos, pela família e pela comunidade."

Entretanto, a professora considera Margaret Thatcher uma figura "controversa" e afirma que a reputação da ex-premiê costuma ser mais segura fora do país, principalmente por ter sido a primeira mulher a se tornar premiê no Reino Unido e por ter tido um papel fundamental em levar Mikhail Gorbachev, último líder da União Soviética, à mesa de negociações, permitindo o fim da Guerra Fria (1945-1991).

Em grande parte, Thatcher se tornou premiê em 1979 por ser uma alternativa ao governo trabalhista anterior de James Callaghan (1976-1979), marcado por uma crise profunda e inflação que fizeram com que o Reino Unido recebesse a alcunha de “o homem doente da Europa”. O Reino Unido vivia um conturbado período de greves, que alcançou lixeiros, caminhoneiros, ferroviários, empregados de hospitais e até coveiros. “Cadáveres eram armazenados para esperar pelo sepultamento”, descreve Maílson da Nóbrega.

Quando assumiu, ela reduziu o poder dos sindicatos, tornando ilegais as greves sindicalizadas, obrigando o sindicato a escolher sua liderança por meio de uma eleição antes de uma greve e abolir o estabelecimento comercial que aderisse a qualquer movimento grevista. "Em termos domésticos, Thatcher será lembrada por cortar o poder dos sindicatos", ressalta Eliza.

No penúltimo ano de seu primeiro mandato, quando sua popularidade estava em um nível crítico por conta do desemprego, a Argentina invadiu as Ilhas Malvinas, reivindicando sua soberania sobre o território, que é de domínio britânico desde 1883. Nesse episódio, ela teve a oportunidade de, por meio de um conflito armado, devolver o espírito de grandiosidade ao Reino Unido, que venceu a Argentina com relativa rapidez.

Premiê britânico David Cameron posa ao lado de Margaret Thatcherna entrada do nº10 da Downing Street em Londres (08/06/2010)
. Foto: APMargaret Thatcher presta condolências durante funeral de seu amigo e aliado Ronald Reagan, ex-presidente dos EUA (09/06/2004). Foto: APFoto datada dos anos 1980 mostra a ex-premiê britânica Margaret Thatcher. Foto: APEntão premiê, Margaret Thatcher acena aos seus partidários na sede  do Partido Conservador após vencer eleições gerais (12/6/1987). Foto: APMargaret Thatcher gesticula com uma caneta durante coletiva nas Nações Unidas (23/6/1982). Foto: APMargaret Thatcher visita a Casa Branca, em Washington, acompanhada pelo então presidente dos EUA Jimmy Carter (17/12/1979). Foto: APEntão governador da Califórnia, Ronald Reagan recebe medalha da ex-premiê britânica Margaret Thatcher em Londres (09/04/1975). Foto: APMargaret Thatcher ganha um beijo do marido, Denis, depois de vencer a primeira rodada da eleição pela liderança do partido
. Foto: APEntão parlamentar pelo Partido Conservador, Margaret Thatcher posa para foto na cozinha de sua casa em Chelsea (01/02/1975). Foto: APEm foto dos anos 50, a candidata Margaret Thatcher acompanha quatro eleitores no piano para uma canção no bar de Bull Inn, Dartford. Foto: AP

Para Maílson da Nóbrega, muitos dos críticos da estadista confundiram com autoritarismo a sua firmeza em defender princípios na condução do governo. “Não existe autoritarismo em países nos quais a democracia está consolidada, onda as instituições são sólidas e os governos se submetem ao julgamento das urnas. Nos seus onze anos no cargo, Thatcher sempre agiu dentro da legalidade”, defende o ex-ministro da Fazenda.

Ao sair do governo, em 1990, o partido conservador da 'Dama de Ferro' permaneceu no poder, deixando os trabalhistas na oposição por 20 anos. Eles somente conseguiram voltar ao governo após a revisão profunda de seu credo político e suas visões sobre a gestão da economia, segundo Nóbrega. “Tony Blair ganhou as eleições de 1997 com uma plataforma renovada, que abandonava o intervencionismo estatal e preservava a continuidade das privatizações da era Thatcher, a renúncia aos controles de preços, de lucros e de moedas”, complementa.

Influência

Não com a mesma roupagem, mas à moda do liberalismo, o Brasil também pôs em prática políticas inspiradas na era Thatcher, como a venda de estatais nos anos 1990. “Nossa privatização de empresas na década foi feita exclusivamente com critério arrecadatório. Não aplicamos aqui uma visão de economia de longo prazo”, compara o professor Julio Gomes de Almeida.

"Liberalismo radical, para mim, é sinônimo de baixo crescimento, sobretudo quando aplicado aos países em desenvolvimento, que precisam muito de empurrões do Estado."

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas