Admirada e criticada, Margaret Thatcher transformou Reino Unido

Por iG São Paulo |

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Figura controversa, ex-premiê foi odiada por medidas impopulares e pelo aumento do desemprego e amada por devolver ao seu país papel central na comunidade internacional

Ame-a ou odeie-a, algo está além da disputa: Margaret Thatcher transformou o Reino Unido.

A 'Dama de Ferro' que governou o país por 11 anos memoráveis impôs sua própria vontade em uma nação turbulenta - quebrando os sindicatos, triunfando em uma guerra distante, e vendendo indústrias estatais em um ritmo recorde. Ela deixou para trás um governo mais enxuto e mais próspero quando um motim a derrubou do nº 10 da Downing Street de Londres.

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AP
Margaret Thatcher posa ao lado de seu amigo e maior aliado político, o ex-presidente dos EUA Ronald Reagan (1975)

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Na manhã desta segunda-feira, o ex-porta-voz de Margaret Thatcher, Tim Bell, anunciou sua morte em decorrência de um derrame.

Para admiradores, Thatcher foi uma salvadora que resgatou o Reino Unido da ruína e lançou as bases para um renascimento econômico extraordinário. Para críticos, ela era uma tirana sem coração que marcou o início de uma era de ganância em que os pobres ficaram mais pobres e os ricos, mais ricos.

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"Não nos enganemos, ela era uma figura muito controversa", disse Bernard Ingham, o secretário de imprensa de Thatcher em todo seu mandato. "Ela era realmente muito dura. Uma patriota com grande amor por seu país, e ergueu o Reino Unido diante do mundo."

Thatcher foi a primeira - e por enquanto a única - mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra na história do Reino Unido. Mas frequentemente caracterizava as feministas como cansativas. Filha de um vendedor, subiu ao topo da esnobe hierarquia do Reino Unido pelo caminho mais difícil e sonhava com uma sociedade sem classes recompensada por seu trabalho duro e determinação.

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Ela foi uma pioneira que, a princípio, acreditava que o pioneirismo era impossível: Thatcher afirmou ao jornal Liberpool Daily Post em 1974 que não achava que uma mulher seria líder de um partido ou primeira-ministra.

Mas uma vez no poder, ela nunca demonstrou ter um pingo de dúvida.

Thatcher podia ser intimidadora para aqueles que trabalhavam para ela.

Diplomatas britânicos suspiraram aliviados em sua primeira visita oficial a Washington como primeira-ministra ao descobrirem que ela estava relaxada o suficiente para desfrutar de um copo de uísque e meia taça de vinho durante um almoço na embaixada, segundo documentos oficiais.

Como seu amigo próximo e aliado político Ronald Reagan, Thatcher parecia motivada por uma crença inabalável de que o livre mercado construiria um país melhor do que a dependência em um Estado forte e central. Outra característica que ela compartilhava com o presidente americano: uma tendência a reduzir os problemas ao nível básico, escolher um caminho, e seguir nele até o final, sem se importar com a oposição.

Ela formou uma aliança profunda com o homem que chamava de "Ronnie" - alguns falavam da relação entre os dois como uma paixonite juvenil. Ainda assim, ela não recuava quando discordava dele em temas importantes, embora os EUA serem o lado mais forte e mais rico dessa relação "especial".

Thatcher foi impetuosa quando o Reino Unido foi desafiado. Quando uma junta militar argentina tomou as Ilhas Malvinas do Reino Unido em 1982, ela não hesitou embora seus assessores do Exército terem afirmado que não seria viável recuperar as ilhas.

Ela simplesmente não permitiria que o Reino Unido fosse pressionado, especialmente por ditadores militares, segundo disse Ingham, que relembra a Guerra das Malvinas como o período mais tenso dos três mandatos de Thatcher no poder. Quando a diplomacia falhou, ela enviou uma força-tarefa militar que realizou seu objetivo, apesar da oposição.

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"Isso requeriu enorme liderança", disse Ingham. "Esse foi uma formidável empreitada, um risco com letra maiúscula, e ela demonstrou sua liderança dizendo que daria suas ordens e deixaria que os militares fossem em frente."

Na guerra decisiva, Thatcher anulou as opiniões de especialistas do Ministério das Relações Exteriores, que a avisaram sobre o perigo do ataque. Ela estava furiosa com os alertas sobre os perigos para os cidadãos britânicos na Argentina e das dificuldades em obter apoio do Conselho de Segurança da ONU.

"Quando você está em uma guerra, não pode permitir que as dificuldades dominem seu pensamento: você deve ter uma força de vontade de ferro para superá-las", disse em seu livro de memória "Downing Street Years". "E, além do mais, essa era uma alternativa? Que um ditador comum governasse sobre assuntos da rainha e prevalecesse através da fraude e da violência? Não enquanto eu fosse primeira-ministra."

A determinação em obter as ilhas de volta provocou um conflito entre ela e Reagan, que enviou seu secretário de Estado Alexanger Haig em uma missão para Londres e Buenos Aires em busca de uma solução pacífica para o conflito, apesar de os navios de guerra britânico estarem aportados nas Malvinas. Nem é necessário dizer que sua missão não funcionou.

O relativamente rápido triunfo das forças do Reino Unido reviveu a figura de Thatcher, cuja popularidade estava em queda assim como a economia britânica. Ela venceu em 1983, triplicando sua maioria da Câmara dos Comuns.

Ela confiou em sua coragem e instinto, concluindo logo que o líder soviético Mikhail Gorbachev representava uma clara ruptura na tradição soviética e seus líderes autocráticos. Thatcher afirmou que o Ocidente poderia "fazer negócios" com ele, uma posição que influenciou os acordos vitais entre Reagan e Gorbachev durante o declínio da era soviética.

Foi algo inebriante para uma mulher que teve pouco treinamento em assuntos internacionais quando triunfou sobre os cotados do Partido Conservador para tomar a liderança da legenda em 1975 e quando concorreu como candidata a primeira-ministra.

Ela se beneficiou com a enorme crise enfrentada pelo governo do Partido Trabalhista liderado por Harold Wilson, e depois por James Callaghan. A economia do Reino Unido estava próxima ao colapso, e sua moeda amparada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) estava quebrada.

O governo trabalhista não possuia maioria no Parlamento após 1977 e, no ano seguinte, sofreu com o "inverno do descontentamento", que espalhou greves e interrupções em serviços públicos vitais, incluindo equipes de hospital e até coveiros. O esforço do governo para segurar a inflação provocou caos nas ruas.

O Reino Unido parecia estar à deriva e não era mais uma poderosa potência mundial.

Foi aí, Thatcher escreveu em suas memórias, que passou a acreditar fortemente que somente ela poderia salvar o Reino Unido, citando uma profunda "convicção interna" que este seria seu papel.

Os eventos pareciam estar a seu favor quando ela levou o Partido Conservador à vitória em 1979 com o compromisso de reduzir o papel do Estado e fortalecer a iniciativa privada.

Premiê britânico David Cameron posa ao lado de Margaret Thatcherna entrada do nº10 da Downing Street em Londres (08/06/2010)
. Foto: APMargaret Thatcher presta condolências durante funeral de seu amigo e aliado Ronald Reagan, ex-presidente dos EUA (09/06/2004). Foto: APFoto datada dos anos 1980 mostra a ex-premiê britânica Margaret Thatcher. Foto: APEntão premiê, Margaret Thatcher acena aos seus partidários na sede  do Partido Conservador após vencer eleições gerais (12/6/1987). Foto: APMargaret Thatcher gesticula com uma caneta durante coletiva nas Nações Unidas (23/6/1982). Foto: APMargaret Thatcher visita a Casa Branca, em Washington, acompanhada pelo então presidente dos EUA Jimmy Carter (17/12/1979). Foto: APEntão governador da Califórnia, Ronald Reagan recebe medalha da ex-premiê britânica Margaret Thatcher em Londres (09/04/1975). Foto: APMargaret Thatcher ganha um beijo do marido, Denis, depois de vencer a primeira rodada da eleição pela liderança do partido
. Foto: APEntão parlamentar pelo Partido Conservador, Margaret Thatcher posa para foto na cozinha de sua casa em Chelsea (01/02/1975). Foto: APEm foto dos anos 50, a candidata Margaret Thatcher acompanha quatro eleitores no piano para uma canção no bar de Bull Inn, Dartford. Foto: AP

Margaret Thatcher foi subestimada a princípio - pelo seu próprio partido, pela mídia, e por adversários externos. Mas logo todos aprenderam a respeitá-la. O apelido "Dama de Ferro" foi dado a ela por jornalistas soviéticos, um modo pejorativo de lembrar sua determinação e ferocidade.

Com sua doutrina liberal, Thatcher desafiou o Estado de bem-estar social e as tradições socialistas britânicas. Ela é talvez melhor lembrada por sua postura linha-dura durante a grande greve em 1984 e 1985 quando enfrentou os mineiros em uma última tentativa bem-sucedida de quebrar o poder dos sindicatos do país. Essa reformulação no cenário econômico e político britânico perdura no país até hoje.

Por isso, ela é reverenciada por conservadores defensores do livre mercado, que afirmam que a reestruturação da economia, levou a um boom que fez de Londres o rival de Nova York no centro financeiro global.

A esquerda, por outro lado, demoniza Trhatcher como uma pessoa indiferente às necessidades dos mais pobres. Mas sua filosofia econômica eventualmente atravessou a fronteira do seu partido: Tony Blair renovou o Partido Trabalhista e foi vitorioso após adotar algumas de suas ideias.

Com AP

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