Recepção calorosa a Yoani revela mudança de exilados cubanos em Miami

Por iG São Paulo | - Atualizada às

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Não há muito tempo, cubano-americanos só estendiam tapete vermelho a dissidentes que rejeitassem voltar a Cuba. Mas a blogueira, que voltará à ilha, foi recebida com entusiasmo

A dissidente mais conhecida de Cuba, a jornalista independente e blogueira Yoani Sánchez, teve na segunda-feira uma recepção de heroína pela comunidade de cubano-americanos exilados em Miami, na sua mais recente parada em uma turnê de 80 dias por mais de uma dezena de países.

Em SP: Blogueira Yoani cobra posição do Brasil sobre direitos humanos em Cuba

Reuters
Dissidente cubana Yoani Sánchez arruma o cabelo após ganhar medalha comemorativa do Miami Dade College depois de falar na Torre da Liberdade em Miami, Flórida (01/04)

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Foi a maior e politicamente mais homogênea recepção em pelo menos uma década para um dissidente da ilha por parte da comunidade de exilados cubanos em Miami. Apesar da oposição de Yoani ao embargo econômico e de seu retorno programado a Cuba, ela foi recebida por veteranos da fracassada invasão da Baía dos Porcos. Além deles, também compareceram cubanos mais jovens, que enxergam um maior contato com a ilha como um caminho para o progresso.

Na presença de muitos líderes dos exilados cubanos em Miami, Yoani foi apresentada como "uma autêntica defensora e heroína" dos direitos humanos em Cuba por Eduardo Padrón, presidente do Miami Dade College, que organizou o evento na Torre da Liberdade, no centro de Miami - um refúgio onde centenas de milhares de cubanos foram tratados entre 1960 e 1970 como refugiados e alimentados com pedaços de queijo e presunto enlatado.

Ela foi recebida por cerca de 1 mil convidados com uma ovação de pé, acompanhada por gritos de "Liberdade! Liberdade!". Aparentemente surpresa com a recepção calorosa e enorme, Yoani sorriu e fez o sinal de V da vitória com os dedos, antes de receber as chaves da cidade de Miami.

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A blogueira, de 37 anos e residente em Havana, atraiu a ira do governo comunista de Cuba por suas críticas constantes em seu blog "Generación Y" e por meio da popular rede social Twitter. Ela tem dezenas de milhares de seguidores no exterior, mas poucos em Cuba, onde a internet é controlada pelo governo.

Yoani finalmente recebeu seu passaporte há apenas dois meses graças a uma reforma de imigração cubana que entrou em vigor neste ano, depois de ter seu pedido para viajar negado mais de 20 vezes nos últimos cinco anos pelo regime dos irmãos Fidel e Raúl Castro. O Brasil foi a primeira escala da viagem, em fevereiro.

Mudança de tratamento

Não faz muito tempo que os cubano-americanos em Miami apenas davam boas-vindas a desertores que abandonavam sua terra natal e permaneciam nos EUA. Mas Yoani, uma jornalista que voltará a Cuba para reencontrar seu marido e filho, ofereceu uma história diferente, forjada pela internet, para os desencantados em Cuba e para os esperançosos em Miami.

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"Isto é transcendental", disse Padrón, recordando sua própria chegada à Torre da Liberdade aos 15 anos. "Todos aqui acreditam que ela simboliza a voz de uma Cuba livre. Sua visita provou que todos podemos concordar, independentemente do meio, sobre o objetivo final."

Em uma entrevista no dia 29, a dissidente disse que a quantidade de boas-vindas que recebeu em Miami superou suas expectativas. "Encontrei Cuba fora de Cuba", disse em espanhol. "Fui criada em Cuba e doutrinada que os exilados eram nossos inimigos, que haviam traído o país. E aqui estou, vendo cubanos apoiarem Cuba, preservando sua cultura, sua história, sua música.”

Desde seu apartamento em Havana, Yoani passou anos escrevendo sobre as contradições sufocantes da ilha, os absurdos da vida cotidiana sob o sistema comunista e a falta de liberdade e de direitos humanos. A internet e os drives USB que os cubanos usam para compartilhar informações têm sido seu principal aliado.

Ela nomeou seu blog de "Generación Y" em homenagem aos cubanos de sua faixa etária que receberam nomes iniciados com Y na época em que a União Soviética exercia sua maior influência na ilha. O blog recebe milhões de visitas por mês, a grande maioria de pessoas de fora da ilha, pois Cuba restringe o acesso à internet. Ela também tem 459 mil seguidores no Twitter.

Durante cinco anos, Yoani tentou obter permissão para viajar para fora de Cuba, que lhe havia sido negada até o início deste ano. Sua turnê de 80 dias a levou a três continentes, onde ela deu palestras e recebeu uma série de prêmios e reconhecimentos.

Natalia Martinez, diretora de comunicação da Raízes da Esperança, uma rede de 4 mil jovens profissionais que trabalham para ajudar os jovens em Cuba, disse que Yoani falou muitas vezes sobre a necessidade de uma diversidade de opinião e enfatizou a importância de dar poder aos cubanos da ilha.

Yoani reiteradas vezes afirmou que a tecnologia é uma das maneiras de romper barreiras. E, por isso, solicitou uma enorme quantia de celulares, cartões de memória USB e outros dispositivos.

"Ela aborda o fato de que há muita dor associada à questão de Cuba, e ela não a ignora", disse Martinez, acrescentando: "Os cubano-americanos têm mais oportunidades de se envolver com Cuba hoje do que antigamente, e Yoani passou a simbolizar uma espécie de agência de articulação entre eles. E isso repercute aqui."

Martinez completou: "Ela está centrada na construção de uma narrativa a respeito do futuro."

No fim de semana, no entanto, Yoani se dedicou a uma missão bem menos ambiciosa: passou seu tempo em Miami com sua irmã, seu cunhado e sobrinha. Já faz dois anos desde que sua irmã saiu de Cuba para morar em Miami. "Fazia dois anos que não os abraçava", contou.

Reuters e New York Times, reportagem de Lizette Alvarez

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