Dez anos após invasão americana, novas ameaças sectárias alarmam Iraque

Por AP |

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Panfletos de ódio distribuídos em bairros sunitas e atentados contra xiitas deixam governo em alerta, enquanto luta cada vez mais sectária na Síria ameaça se espalhar pela região

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Panfletos foram entregues para as famílias sunitas no bairro Jihad da capital iraquiana de Bagdá na semana passada com uma mensagem arrepiante: saia agora ou enfrente a "grande agonia" em breve.

Os panfletos foram assinados pelo Exército Mukhtar, um novo grupo xiita militante que possui ligações com a Guarda Revolucionária iraniana. "A hora chegou. Então vá embora junto com suas famílias .... Você é o inimigo", advertia a mensagem.

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Mulheres caminham diante de um cartaz xiita no bairro de Jihad, em Bagdá (23/2)

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Tais ameaças ostensivas desapareceram à medida que os dias mais sombrios da luta sectária diminuíram em 2008 e o Iraque se afastou da beira de uma guerra civil. Seu ressurgimento nos dias atuais - uma década após a invasão liderada pelos Estados Unidos - é um sinal preocupante de que crescentes tensões sectárias estão novamente corroendo a sociedade iraquiana.

Cada vez mais iraquianos temem que os militantes dos dois lados da divisão sectária do país estejam se preparando para uma nova rodada de violência que poderá afetar todo progresso que o Iraque tem feito nos últimos anos.

Membros da minoria sunita do país participaram de comícios de massa durante dois meses, pedindo pela derrubada do governo liderado pelos xiitas que, segundo eles, os discrimina e é aliado próximo ao Irã. Extremistas sunitas têm feito cada vez mais ataques em larga escala contra alvos predominantemente xiitas e surgem preocupações de que a luta brutal e cada vez mais sectária na Síria atravesse a fronteira.

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Muitos sunitas que receberam as mensagens no bairro Jihad estão seriamente considerando a possível mudança de região. "Os moradores estão em pânico. Todos estamos obcecados com esses panfletos", disse Waleed Nadhim, um sunita proprietário de uma loja de celulares que vive no bairro. O pai de 33 anos de idade planeja deixar a área, pois não confia que a polícia manterá sua família segura. "Em um país como o Iraque, sem lei, ninguém pode ignorar ameaças como esta."

Forças de segurança iraquianas reforçaram sua presença ao redor de Jihad. A comunidade de classe média, situada ao longo de uma estrada para o aeroporto no sudoeste de Bagdá, foi a casa de servos sunitas civis e oficiais de segurança sob o regime de Saddam Hussein, apesar de hoje muitos xiitas viverem lá também.

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O Exército Mukhtar, cujo nome apareceu nos folhetos ameaçadores, foi formado por Wathiq al-Batat, um oficial sênior que fez parte das Brigadas do Hezbollah. Ele anunciou a criação do novo grupo militante no início de fevereiro.

Acredita-se que o Hezbollah no Iraque seja financiado e treinado pela Guarda Revolucionária de elite do Irã e estaria entre as milícias xiitas que pretendiam atacar bases militares americanas antes de sua retirada em dezembro de 2011.

Pouco se sabe sobre o tamanho do Exército Mukhtar ou sua capacidade. Abdullah al-Rikabi, porta-voz do grupo, vangloriou-se por ter 1 milhão de membros e descreveu al-Batat leal ao líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei.

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O Exército Mukhtar nega estar por trás das ameaças. Embora estejam ocupados na caça contra o líder do grupo, as autoridades iraquianas têm suas dúvidas sobre o envolvimento da milícia xiita nos folhetos.

Dois oficiais seniores de segurança disseram que os agentes de inteligência haviam obtido uma lista de alvos da Al-Qaeda, contendo nomes e informações detalhadas sobre as pessoas - tanto sunitas e xiitas - que vivem em áreas mistas. Eles acreditam que o grupo pretende atingir os moradores, um por um, em um esforço para espalhar o pânico e sugerir uma atmosfera de assassinatos de retaliação.

Eles falaram sob condição de anonimato pois não estavam autorizados a divulgar informações sobre as operações de segurança.

Folhetos de ameaça dos sunitas e milícias xiitas destinadas a membros da seita oposta também começaram a aparecer em Baqouba, um ex-reduto da Al-Qaeda ao norte de Bagdá, que tem um histórico de violência sectária, de acordo com o membro do Conselho provincial de Diyala, Sadiq al-Hussein .

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Jafaar al-Fatlawi, um oficial do governo xiita que vive no bairro Jihad, disse que começou a carregar uma pistola com ele só para atender a porta e leva sua família para passar a noite com seus parentes em outros lugares da cidade.

"Todo mundo no bairro acredita que esta luta sectária ocorrerá a qualquer momento", disse ele. "Nossas forças de segurança não foram capazes de parar a guerra sectária antes e certamente falharão novamente."

Por Adam Schreck

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