Em cerimônia rigorosamente coreografada, o já nomeado chefe do Partido Comunista foi confirmado na presidência; apenas um parlamentar votou contra Xi e três se abstiveram

Reuters

O Congresso chinês formalizou nesta quinta-feira (14) a nomeação de Xi Jinping como presidente do país, concluindo a segunda sucessão sem sobressaltos desde que o Partido Comunista tomou o poder, em 1949.

O Congresso Nacional Popular elegeu Xi em uma cerimônia rigorosamente roteirizada no Grande Salão do Povo, no centro de Pequim. Em novembro, Xi já havia sido nomeado chefe do partido e das Forças Armadas - as verdadeiras instâncias de poder no país mais populoso do mundo.

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Presidente recém-eleito Xi Jinping (dir.) cumprimenta o presidente Hu Jintao em sessão plenária no Congresso Popular Nacional
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Xi, de 59 anos, também foi eleito para chefiar a Comissão Militar Central, um cargo governamental paralelo ao comando militar partidário, que ele já detém. Esse acúmulo garante que ele tenha total poder sobre o partido, o Estado e as Forças Armadas.

Entre quase 3 mil parlamentares, só um votou contra Xi e três se abstiveram. Após o resultado, mostrado ao vivo pela TV, o novo presidente se curvou reverencialmente e apertou as mãos do seu antecessor, Hu Jintao, com quem trocou algumas palavras inaudíveis.

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Li Yuanchao foi eleito vice-presidente. Havia cinco outros candidatos ao cargo, e o influente ex-presidente Jiang Zemin fazia campanha por Liu Yunshan, ex-chefe de propaganda do regime. Na sexta-feira, em outra votação previamente coreografada, o vice-premiê Li Keqiang deve assumir o cargo de primeiro-ministro no lugar de Wen Jiabao.

Hu, de 70 anos, deixa a Presidência depois de cumprir dois mandatos presidenciais de cinco anos. A ascensão de Hu, dez anos atrás, marcou a primeira transição pacífica dentro do regime comunista.

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Fatos violentos como a Revolução Cultural e a repressão aos manifestantes pró-democracia em 1989 na praça Tiananmen ofuscaram as passagens de bastão anteriores.

Esperança em Xi

Desde que assumiu o comando partidário, em novembro, Xi priorizou a luta contra a corrupção e promoveu práticas austeras, como proibir comandantes militares de realizarem banquetes regados a bebidas alcoólicas.

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Muitos chineses esperam que Xi traga mudanças no país, que se tornou a segunda maior economia mundial, mas que ainda enfrenta profundas desigualdades, corrupção e destruição ambiental .

Para o parlamentar Yan Chengzhong, a tarefa mais importante para o novo governo será proteger o ambiente. "Venho de Xangai, onde há 6 mil porcos mortos boiando no rio . Isso fala de quão frágil é o nosso ambiente ecológico."

Já Gong Funeng, da província de Sichuan, disse que "o problema mais desafiador que o governo enfrenta agora é implementar uma reforma política e combater a corrupção". Xi herda um ambiente político em que há mais desconfiança em relação ao governo e mais facilidade de uso da internet para críticas aos líderes.

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Ao mesmo tempo, seu governo precisará lidar com a desaceleração econômica, com a valorização irracional do mercado imobiliário, com o endividamento dos governos locais e com a tendência da economia chinesa de depender de grandes investimentos para crescer.

Na frente externa, os maiores desafios são o comportamento provocativo da aliada Coreia do Norte e as tensões com os Estados Unidos , o Japão e o Sudeste Asiático.

Deputado tira fotos com celular antes de uma sessão plenária do Congresso Popular da China
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Deputado tira fotos com celular antes de uma sessão plenária do Congresso Popular da China

O novo presidente tem usado a imprensa estatal para forjar uma imagem popular e discreta, geralmente usando uma linguagem simples - ao contrário de seus antecessores, que costumavam entupir seus discursos com jargões partidários.

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Mas o governo de Xi já sinalizou que o partido, que valoriza a estabilidade acima de tudo, continuará não aceitando contestações ao seu poder. O proeminente dissidente Hu Jia disse à Reuters que a polícia o intimou na quarta-feira à tarde a depor sobre acusações de "provocar brigas e causar confusão".

Hu disse que isso provavelmente se refere ao fato de ele ter organizado visitas de ativistas à casa de Liu Xia, esposa do dissidente preso Liu Xiaobo. Liu Xia está sob prisão domiciliar desde que o marido dela ganhou o Prêmio Nobel da Paz. "Ou também pode ser porque, durante a sessão parlamentar, publiquei numerosas opiniões críticas sobre o Partido Comunista", disse ele.

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