Gilberto Valle, 28, é considerado culpado de conspirar na internet para sequestrar, estuprar, matar e canibalizar vítimas do sexo feminino, incluindo sua mulher; sentença sai em junho

O policial de Nova York Gilberto Valle, 28, foi considerado culpado nesta terça-feira de planejar assassinar sua esposa e cozinhar e comer outras mulheres. Apelidado de "policial canibal" pela mídia dos EUA, Valle foi preso pelo FBI na semana passada depois de uma denúncia de sua mulher, de quem ele agora está separado. Valle pode ser condenado à prisão perpétua quando sua sentença sair em junho.

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Desenho judicial mostra ex-policial de Nova York Gilberto Valle (2º à D) em corte no dia do início do julgamento, em 25 de fevereiro
AP
Desenho judicial mostra ex-policial de Nova York Gilberto Valle (2º à D) em corte no dia do início do julgamento, em 25 de fevereiro

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Os advogados do policial argumentaram que seu cliente apenas tinha se envolvido em fantasias sexuais quando navegou por site de fetiche, afirmando que apelariam no caso. No entanto, a promotora Hadassa Waxman disse à Corte Distrital de Manhattan que Valle tinha "deixado o mundo da fantasia e entrado no mundo da realidade" com comportamentos como contatar algumas das mulheres que mencionou em seus planos.

Valle também foi condenado por acusações menores de acessar de forma imprópria a base de dados da polícia para procurar as informações pessoais das mulheres. Ele também fez pesquisas online para saber qual a melhor corda para amarrar pessoas e para encontrar substâncias químicas que causam inconsciência. Termos de busca encontrados em seu computador incluíam "carne humana" e "escravidão branca".

Durante o julgamento, Kathleen Mangan, 27, testemunhou contra o marido. Ela disse ter encontrado "milhares de emails" em seu próprio laptop, que vinha sendo usado por Valle, em que ele detalhava para outros fetichistas seus planos de torturar e matar mulheres, incluindo ela mesma.

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"Eu seria amarrada pelos pés e minha garganta seria cortada, enquanto ele se divertiria ao ver meu sangue jorrar", disse, soluçando repetidamente no banco das testemunhas em 25 de fevereiro, dia em que o julgamento teve início e no qual Valle foi acusado de conspirar na internet para sequestrar, estuprar, matar e canibalizar mulheres.

Kathleen relatou que começou sua descoberta em setembro, quando viu que seu marido havia visitado um site de fetiche em que havia a fotografia de uma menina morta. Ela também disse ter  descoberto evidências de vontades de seu marido em estuprar, mutilar, torturar e matar mulheres, incluindo algumas de suas amigas.

De acordo com Kathleen, em uma das mensagens trocadas em um bate-papo virtual, seu marido respondeu "Não se preocupe, eu vou amordaçá-la", quando seu interlocutor lhe disse para que não tivesse misericórdia se sua mulher chorasse.

Valle também chorou durante o depoimento de sua esposa, em um dia de grande emoção que atraiu uma galeria cheia de observadores, alguns sem dúvida atraídos pelas alegações bizarras e chocantes contra o policial.

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O caso de Valle se baseou em uma tentadora, porém básica pergunta: Quando um crime se torna um crime real? Os argumentos de abertura do julgamento destacaram esse tema.

O promotor federal Randall W. Jackson disse aos jurados que o policial havia planejado cometer crimes reais para matar vítimas reais, enquanto a advogada de Valle, Julia L. Gatto, afirmou que ele havia apenas vivido fantasias em salas de bate-papo sem intenção de cumpri-las.

Para o especialista Joseph V. DeMarco, um advogado de internet e ex-chefe da Unidade de Crimes Cibernéticos, afirmou que, além de seu sensacionalismo, o caso destacou o fato de que havia "cantos escuros" na web, "onde toda uma gama de conduta ilegal e imoral acontece, com o público em geral tendo apenas um vago conhecimento de que isso existe".

Ele observou que a internet, como meio de expressão e comunicação, também possibilitou que pessoas com interesses benignos, como colecionar selos, ou terríveis, como canibalismo, encontrem-se e se comuniquem um com o outro em fóruns comuns.

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A advogada Gatto sugeriu que o risco para Valle iria muito além do seu caso. Casos como o dele, afirmou, "testam os princípios da liberdade de pensar, a liberdade de falar, a liberdade de escrever até mesmo os mais sombrios pensamentos da nossa imaginação humana".

Em seu testemunho, a mulher de Valle também deu detalhes dos planos de seu marido. Segundo Kathleen, ele teria planejado estuprar duas mulheres uma na frente da outra para aumentar seu medo. Outra seria queimada viva. De acordo com seu depoimento, também houve uma conversa sobre a possibilidade de mulheres serem colocadas em um espeto para que fossem cozidas por 30 minutos.

Ao abordar Kathleen, a advogada Gatto perguntou por que ela não esteve disposta a falar com a defesa antes do julgamento. "Você representa o homem que quer me matar", respondeu. "Não, não quero falar com você", disse, começando a chorar.

*Com BBC e New York Times

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