Para cardeais, conclave é evento místico

Por Francisco Borba - Especial para o iG* | - Atualizada às

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Participantes de eleição de novo papa norteiam escolha pela capacidade de liderança, de apontar caminho no qual toda a Igreja se sentirá unida, construindo o bem comum

Eles vêm de todas as partes do mundo, conheceram as várias faces de nossa sociedade, viram riqueza e pompa, pobreza e sofrimento. Alguns vieram de obscuras vilas do interior da África ou da América Latina, outros das ricas metrópoles da Europa e das Américas. São relativamente idosos, alguns acostumados com o poder, outros com a perseguição. As vestes que usam neste momento parecem anacrônicas, saídas do passado.

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Mas a coisa mais impressionante é a crença que os anima, a responsabilidade que pesa sobre seus ombros: brevemente o Senhor do universo, o Criador de toda a realidade, se valerá deles para se comunicar com toda a humanidade, para se fazer próximo a cada ser humano, por meio da pessoa do novo papa.

Para os que participam dele, um conclave não é uma eleição como outra qualquer, mas um evento místico – e ninguém conseguirá realmente entender o que se passa lá dentro se desconsiderar isso. O leitor pode ser um ateu convicto, mas, para entender o conclave, deve aceitar que os cardeais participantes, e toda a Igreja Católica Romana, acreditam que Deus se manifestará a partir do que acontecerá lá.

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Um conclave não é como uma eleição para presidente do Senado ou coisa parecida. Existe política? Existem jogos de interesses? A dinâmica do conclave é montada para evitar politicagem e jogos de interesse, mas os cardeais são pessoas humanas como qualquer um de nós – e os limites humanos podem ser atenuados num conclave, mas não eliminados.

Um católico dirá, inclusive, que Deus usará também desses limites para fazer prevalecer sua vontade. Entre os cardeais, as correlações de força, as representatividades regionais e os acordos políticos não têm a importância nem o sentido que têm em outros processos eleitorais. O que mais conta é a capacidade de liderar os demais, de apontar um caminho no qual toda a Igreja se sentirá unida, aproximando-se de Deus e construindo o bem comum. Por isso, listas de papáveis e fofocas “pré-conclave” são válidas muito mais como indicadoras da importância e da influência de cada cardeal do que como uma indicação concreta de suas chances no processo eleitoral.

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Quem sai na frente, os progressistas ou os conservadores? Essa pergunta também se torna cada vez mais sem sentido no conclave. Em primeiro lugar, porque os tempos atuais estão cheios tanto de exemplos de conservadores que assumiram importantes decisões progressistas quanto de casos inversos. Mas, sobretudo, porque hoje praticamente qualquer participante do conclave dirá que é necessário conservar os fundamentos da Tradição (com “t” maiúsculo, não se trata dos hábitos, mas do núcleo central do cristianismo) e progredir na luta pelo bem comum e no combate às injustiças. Em síntese, são todos conservadores e progressistas ao mesmo tempo, dependendo da questão abordada e do contexto considerado.

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A representatividade continental também não ajuda muito a entender o conclave. Os vaticanistas sabem que muitas vezes um bispo africano ou latino-americano se torna, no Vaticano, mais europeu do que os próprios europeus. Contudo, nas discussões internas entre os cardeais, o futuro papa será com certeza alguém que consiga dar uma boa resposta aos problemas enfrentados pela Igreja em cada continente. Não precisa ser africano, mas ter uma sensibilidade adequada para os problemas africanos, por exemplo. Nesse sentido, latino-americanos, africanos e asiáticos poderão não ser candidatos fortes, mas serão com certeza grandes eleitores – no sentido que todos os demais estarão atentos para procurar saber quem conta com o apoio desses cardeais.

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Mas então, o que contará nesse conclave? Em primeiro lugar, a capacidade do eleito em levar adiante a chamada “nova evangelização”, a grande tarefa emblemática da ação da Igreja na atualidade. Essa nova evangelização é entendida como um novo diálogo entre cristianismo e cultura, uma nova proposta de conversão – em que os fundamentos do cristianismo podem ser apresentados de forma renovada e atualizada, em condições de responder ao homem e à mulher de hoje. Isso não é fácil... exige uma espiritualidade elevada, uma sólida formação doutrinal, uma visão ampla dos problemas da sociedade, da cultura e da moral – além de facilidade de comunicação e liderança pessoal.

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E os escândalos atuais, o “VatiLeaks” e os problemas financeiros do banco do Vaticano? Neste momento, ter capacidade para sanear o que precisa ser saneado e superar esses escândalos sem dúvida contará na escolha do novo papa. Mas é muito mais um contratempo que deverá ser enfrentado para levar adiante a tarefa da “nova evangelização”, que um objetivo em si mesmo.

*Coordenador do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)

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