Considerado favorito, italiano Scola adapta discurso para atrair jovens à Igreja

Por iG São Paulo | - Atualizada às

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Usando referências como os autores Kerouac e McCarthy, arcebispo de Milão é maior chance que Itália tem de recuperar o papado após dois pontífices de outros países

Um dos cardeais italianos mais cotados para ser o próximo papa não se baseia somente nas escrituras para ilustrar que a vida é uma jornada - ele também usa Jack Kerouac e Cormac McCarthy. Angelo Scola, arcebispo de Milão, é visto como a melhor chance da Itália para recuperar o papado, após dois pontífices seguidos vindos de outros países.

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Durante uma noite no mês passado, na histórica semana da renúncia de Bento 16, Scola veio a público como um simples pastor conduzindo um rebanho de estudantes de 20 e poucos anos em uma discussão sobre a fé. O poderoso cardeal mostrou não só facilidade em falar com a juventude, mas também um desejo de se fazer entender - uma qualidade vital para uma Igreja que tem perdido fiéis. Representa também um forte contraste em relação a Bento 16, que era dolorosamente tímido em público.

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AP
Cardeal Angelo Scola, da Itália, celebra uma missa na Igreja Apostolica de Roma (10/3/2013)

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Citando o icônico romance de Kerouac, "Na Estrada", Scola convidou sua plateia de estudantes a refletir se "eles estavam indo a algum lugar ou se somente estavam indo". Depois citou a viagem pós-apocalíptica entre pai e filho narrada em "A Estrada", de McCarthy, pedindo aos jovens que considerassem o significado de "destino" - tema-chave na obra de McCarthy. "O destino é uma vida feliz; uma vida realizada não termina com a morte, mas com a vida eterna", disse o arcebispo.

Scola, 71 anos, comandou a Catedral de Milão como arcebispo e a Catedral de São Marcos, em Veneza, como patriarca, duas congregração extremamente prestigiadas que, juntas, deram ao mundo cinco papas no século 20.

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Scola já era cotado ao pontificado quando Bento 16 foi eleito oito anos atrás. Sua promoção para Milão, a maior e mais influente diocese da Itália, foi vista como um indício de seu favoritismo. Mas enquanto a Itália possui o maior número de cardeais que participam do conclave - um total de 28 -, o contingente italiano está dividido entre aqueles que estão dentro da Cúria Romana - a burocracia do Vaticano - e aqueles que estão fora, onde Scola tem maior apoio.

O vaticanista John Thavis, que recentemente publicou o livro "Os Diários do Vaticano", sobre os trabalhos internos da Santa Sé, lembra-se de ter visitado Scola em Veneza, onde ele propiciou "uma grande dose de entusiasmo" entre os paroquianos apesar de, por vezes, ter enviado uma mensagem densa.

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"Ele é muito dinâmico, mas tem dificuldade em usar uma linguagem mais simples", disse. "Seria interessante, se for eleito papa, observar como fala com as pessoas."

Scola passou os 20 anos antes de ser ordenado em 1970 estudando em renomadas universidades católicas. Seus laços com Bento 16, que o nomeu para Milão, datam desse período acadêmico, quando começou a escrever para a revista Communio, cofundada pelo papa emérito.

Enquanto era cardeal em Veneza, fundou um grupo de reflexão - Oasis - que buscava o diálogo com o Islã. Como o Oasis se desenvolveu em uma plataforma de diálogo, Scola viajou com frequência, tornando-se um dos poucos cardeais italianos conhecidos fora de seu país.

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Angelo Scola é arcebispo de Milão, a maior e mais influente diocese italiana (foto de arquivo)

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Ele fala inglês, francês e alemão fluentemente, além de seu italiano nativo. Ele também entende espanhol. "Scola é uma das personalidades que apresentam diversos talentos e dons que justificam sua vantagem", disse Sandro Magister, analista de Vaticano que monitora de perto os bastidores da instituição. "Ele é certamente um sólido teólogo, formado pelas mesmas linhas de (Bento)... Isso já é uma vantagem."

Scola é reconhecido como um conservador na Igreja, rejeitando a ideia de ter mulheres como sacerdotes e denunciando o consumismo. Sua associação com o movimento italiano Comunhão e Libertação também tem despertado o alerta entre os analistas.

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Scola era um estudante de teologia quando foi convidado para se unir ao grupo, que mistura ativismo político com o fervor da fé, enquanto busca influenciar as decisões na Itália. Muitos políticos italianos proeminentes estiveram associados ao movimento; nos anos 1970, Scola teria instruido o ex-premiê Silvio Berlusconi em filosofia.

Mais recentemente, Scola buscou se distanciar do movimento, especialmente quando algumas autoridades ligadas a ele foram relacionadas aos escândalos na Santa Sé. Segundo a biografia oficial do Vaticano, Scola deixou de participar ativamente do movimento em 1991, quando o papa João Paulo 2º (1978-2005) o nomeou como bispo de Grossetto, na Toscana.

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Filho de um motorista de caminhão e de uma dona de casa, Scola tem orgulho de suas origens humildes. Ele foi criado em um pequeno apartamento na cidade de Malgrate, no Lago Como, e é lembrado pelos antigos vizinhos e pelos moradores da cidade como possuidor de uma memória excelente e uma dedicação extrema desde jovem às atividades religiosas. Scola e seu irmão mais novo foram bem-sucedidos em suas escolhas: o cardeal italiano se tornou padre aos 29 anos, enquanto seu irmão foi prefeito da cidade. O irmão, Pietro, morreu há mais de 30 anos em um acidente de trânsito.

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"Ele manteve suas relações com muitos cidadãos locais, com seus amigos, com seus parentes", disse o prefeito de Malgrante, Giovanni Codega. "Tanto que nessa cidade ele é chamado de Dom Angelo, em vez de cardeal ou patriarca de Veneza."

Essa imagem aparentemente relaxada emergiu durante a reunião de cerca de uma hora com cerca de 1 mil estudantes na Universidade de Milão. Equilibrando uma prancheta no colo, ele fazia anotações enquanto os jovens expunham seus dilemas. Ele se dirigia aos estudantes pelo nome e dava ideias baseadas em respostas e questões colocadas pelos jovens. Ele pediu para que os estudantes fossem eles mesmos e não se escondessem atrás de palavras que poderiam obscurecer os significados, reconhecendo que muitas vezes os termos do vocabulário cristão são "um pouco frios".

O cardeal usou todas as ferramentas de tecnologia para alcançar sua audiência jovem. O encontro foi transmitido pelo website da diocese e por uma TV e rádio católicas locais. Ele respondeu questões não somente daqueles que participavam ao vivo do encontro, mas também enviadas por e-mail e Twitter.

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A reunião na universidade foi o segundo encontro de Scola no período de um ano com estudantes da Diocese de Milão. Martino Frigerio, 22 anos, disse que, dessa vez, o cardeal pareceu "mais solto". Ainda às voltas com as propostas de Scola, caracterizadas por alguns como "desafiadoras", os alunos estavam relutantes em considerar suas chances para o papado.

"Em Milão somos possessivos com ele. Nós o tivemos por tão pouco tempo", disse Frigerio. "Ele tem um jeito de se comunicar com jovens que é diferente."

AP
Cardeal Angelo Scola acena a repórteres durante sua chegada a uma das reuniões pré-conclave no Vaticano (4/3/2013)

Com AP

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