Bairro do anti-chavismo na Venezuela adota "silêncio de respeito"

Por BBC Brasil |

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Trégua é calculada com o pensamento nas eleições, já que seria contraproducente para o anti-chavismo atacar o presidente falecido e seus seguidores em um momento de comoção

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No bairro de Altamira, um dos mais simbólicos redutos da oposição no auge da polarização política da Venezuela, não há sinais de manifestações anti-Chavistas nas ruas, como no passado.

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AP
O presidente interino Nicolás Maduro ao lado de homenagem a Chávez

Enquanto no outro lado da capital, centenas de milhares de pessoas aguardam em quilométricas filas para ver por alguns segundos o corpo do líder da "revolução bolivariana", em Altamira a vida continua com uma tranquilidade inusual, um "silêncio de respeito".

A bandeira branca teria sido levantada com base em um cálculo eleitoral: seria contraproducente para o anti-chavismo atacar o presidente falecido e seus seguidores em um momento de tanta comoção, a semanas de uma nova eleição presidencial.

A tática também teria contido manifestações públicas de oposicionistas comuns, que mostram sentimentos radicalmente opostos à devoção a Chávez vista no outro lado de Caracas nos últimos dias.

Mas as filas quilométricas de apoiadores de Chavez que querem ver o corpo do líder antes do enterro não passam despercebidas.

"Agora que ele morreu, vão querer endeusá-lo? Não entendo esse fenômeno, as pessoas aqui sentem falta de um pai e como veio este senhor e deu amor à elas, pronto, passou a ser adorado, como isso é possível?", comenta, indignada, Antonieta Bravo, de 72 anos.

Militante anti-chavista ativa, Antonieta responsabiliza o presidente Hugo Chávez pela morte de sua irmã, que teria sofrido um infarto logo depois que sua fazenda foi desapropriada pelo governo para fins de reforma agrária.

"Levaram tudo, ela ficou sem nada. Como você quer que eu me sinta agora?", questiona, ao esboçar alegria pela morte do presidente.

Mais: Chefes de Estado se reúnem na Venezuela para funeral de Chávez

Propriedade privada

O debate sobre a propriedade privada e o uso social da terra - rural e urbana - é um dos combustíveis da polarização política no país.

De acordo com o ministério de Agricultura e Terras, 2,5 milhões de hectares de terras foram desapropriadas desde 2001 para impulsionar a produção agrícola do país - cuja economia depende fundamentalmente do petróleo. A lei de terras determina que terrenos improdutivos com tamanho superior a 5 mil hectares devem ser destinados para tal fim.

Proprietária de três imóveis, que mantém alugados, Antonieta Bravo conta que seu desejo é ir aos Estados Unidos, viver com as filhas e netos, mas diz se manter presa ao país por temer perder suas propriedades. "Não há lei, nem segurança, se alguém decide ficar na casa, o governo ampara e eu perco tudo", justifica.

Há dois anos, Chávez lançou um decreto que proíbe despejos forçados de famílias que pagam aluguel, argumentando que o mercado imobiliário atuava de maneira ilegal na regulação dos preços dos aluguéis. Logo depois, o Parlamento aprovou uma lei que regula o preço da compra e aluguel de casas e apartamentos, para tentar conter a inflação no setor. Amedrontados, muitos propietários preferiram manter seus imóveis fechados, incrementando ainda mais o déficit habitacional, que corresponde a quase 2 milhões de moradias.

Esse é outro tema polêmico para Antonieta, que critica política de distribuição de moradias para a população de baixa renda. "E porque ele (Chávez) tem que dar de presente as casas para essa gente? Eu trabalhei pra ter a minha. Porque ele não deu pra mim também? Até os colombianos que moram aqui ganharam casas", reclama.

Perto dali, numa famosa cafeteria frequentada por políticos e dirigentes anti-chavistas, o dono do local não escondia sua felicidade pela morte do presidente da República. "Sou um homem mais feliz e tranquilo. Respiro melhor, durmo melhor, tenho esperanças renovadas", disse o proprietário que não quis ser identificado. "Mas claro, há um silêncio de respeito, não somos como eles (os chavistas)", acrescentou.

Devido ao funeral de Hugo Chávez, foi decretado feriado em todo o país. Shoppings, supermercados, lojas e bancos permanecem fechados. "E porque não vou abrir?", questiona o dono da cafeteria, ao mostrar as mesas repletas.

'Cor de pele'

Mesclando frases em espanhol e inglês, este proprietário de origem européia, se queixa da polarização, que a seu ver, foi criada por Chávez. "Não existia muro, ele o criou utilizando sua cor de pele. Agora se chamamos a alguém de negro e essa pessoa é chavista, ela se ofende e a gente pode se meter num problema", conta.

A maioria dos oposicionistas ouvidos pela BBC Brasil afirma ter desejos de mudanças, porém, diz acreditar que dificilmente o candidato opositor Henrique Capriles possa vencer a Nicolás Maduro, que foi "ungido" por Chávez como seu sucessor para dar continuidade à "revolução bolivariana".

"Com toda essa comoção, com Chávez embalsamado, Maduro vai ganhar, sem dúvida. Teremos que esperar mais seis anos, mas logo voltaremos ao topo", disse o dono da cafeteria.

Antonieta Bravo, no entanto, se nega a pensar em tal possibilidade. "Ah, não. Imagina, ter um motorista de ônibus como presidente? Não. Prefiro o Chávez, sem dúvida".

Maduro será nomeado como presidente encarregado ainda nesta sexta-feira e está autorizado pela Justiça a fazer campanha eleitoral sem ter que deixar o cargo. A expectativa é que o Conselho Nacional Eleitoral anuncie nos próximos dias a data do novo pleito eleitoral.

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