No México, esquadrões de autodefesa combatem violência na região sul

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Frustrados com extorsões, assassinatos e sequestros, centenas de homens se armam no Estado de Guerrero para defender suas cidades contra as gangues de drogas

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Um jovem num posto de controle em uma estrada mexicana chorava discretamente por trás do lenço vermelho que cobria seu rosto. Ele portava um revólver e calçava botas de fazendeiro.

Hesitante, ele contou como o corpo de seu primo foi encontrado em uma vala com cerca de 40 outras vítimas de uma quadrilha de drogas. Aparentemente, o primo tinha pego uma carona com um soldado que estava fora de serviço quando homens armados pararam o veículo e mataram todos.

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Homem mascarado verifica a identidade de motorista em blitz na entrada da cidade de Pericón, perto de Ayutla, México (18/01)

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"Não há um de nós que não tenha experimentado a dor de perder um membro da família", disse o membro da patrulha civil de autodefesa que se identificou como "apenas outro representante do povo da montanha".

Agora, ele se juntou a centenas de outros homens do Estado de Guerrero, no sul do México, que adotaram armas para defender suas aldeias contra as gangues de drogas, um movimento vigilante nascido da frustração por casos de extorsão, assassinatos e sequestros que a polícia local não consegue, ou não quer, solucionar.

Os vigilantes patrulham dezenas de cidades no interior do México, um movimento muitas vezes não autorizado, porém tolerado, de um número cada vez maior de esquadrões de autodefesa compostos por cidadãos de todo o país.

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"A criminalidade no México é o que tem dado às comunidades a legitimidade de dizer: 'Iremos assumir o trabalho que o governo não tem sido capaz de fazer'", disse o ativista de direitos Roman Hernandez, cujo grupo Tlachinollan tem trabalhado com as forças da comunidade.

O domínio das gangues de drogas com base em Acapulco, a cerca de 75 quilômetros de Ayutla, intensificou-se tanto que elas exigem pagamentos para a proteção de quase qualquer pessoa que possua propriedade: motoristas de caminhão e de ônibus, pecuaristas, donos de lojas. Em uma região onde trabalhadores rurais ganham menos de US$ 6 por dia, a situação tornou-se intolerável para todos.

"Quando eles passaram a extorquir dinheiro do fazendeiro, ele aumentou o preço da carne bovina, enquanto o dono da loja de conveniências aumentou o preço das tortillas", disse um comandante da patrulha de defesa usando uma máscara de esqui marrom e uma jaqueta de couro preta. Como as patrulhas não são formalmente reconhecidas pelos tribunais, pela lei ou pelo governo - e temem represálias por parte dos cartéis de drogas - a maioria dos membros usa máscaras e se recusa a informar seu nome completo.

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Homem segura duas armas pequenas durante bloqueio em estrada de Las Mesas, perto de Ayutla, no México (18/01)

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Um exemplo do perigo aconteceu no final de julho, quando o chefe de polícia da cidade foi encontrado morto.

Mas foi um outro ataque criminoso que provocou o movimento em Ayutla: no início de janeiro, membros de uma gangue sequestraram o comandante de um esquadrão da polícia comunitária de uma cidade vizinha. "Talvez quisessem nos intimidar, mas deu errado. Acabaram despertando uma reação do povo", disse um dos vigilantes, um homem de chapéu de palha que anda desarmado.

Desde então, o movimento de autodefesa tem-se espalhado para outras cidades e aldeias, como Las Mesas e El Pericón. Em um dia recente, jornalistas da Associated Press viram 200 a 300 homens mascarados e armados patrulhando postos de controle. Alguns tinham apenas facões, mas a maioria portava rifles.

Ao acenarem suas armas, eles paravam todos os veículos que passavam pelo local e pediam cartas de motorista ou títulos de eleitores para verificar as identidades em com uma lista com nomes sob o título “maus elementos”. Algumas vezes eles revistavam os veículos e os motoristas.

O comandante dos vigilantes de Las Mesas explicou por quê: "Não somos contra aqueles que distribuem drogas. Isso é uma maneira de ganharem a vida. Cada um é livre para escolher a vida que quer. Agora não concordamos quando mexem com pessoas que não têm nada a ver com seus negócios."

O movimento até agora parece ser bem aceito pelos moradores locais que disseram já não conseguir lidar mais com a onda de crimes que vêm atingindo esse trecho da montanha.

"Em menos de um mês, fizeram algo que o Exército e as polícias estadual e federal não foram capazes de fazer em anos", disse a moradora local Lorena Morales Castro. "Eles são nossos heróis anônimos."

Algumas autoridades também aprovam a milícia civil.

O governador de Guerrero, Anjo Aguirre, ofereceu-lhes uniformes para que não sejam confundidos com membros mascarados de gangues, mas também disse que está tentando eliminar a necessidade de vigilantes reforçando as forças oficiais.

Ativistas de direitos indígenas e de comunidades muitas vezes veem as patrulhas de cidadãos como uma boa alternativa ou um complemento às forças policiais rurais que são consideradas corruptas ou repressivas.

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Homens armados e mascarados guardam bloqueio de rua na comunidade de El Pericón, perto de Ayutla, México (19/01)

Assim, a ideia de patrulhas de cidadãos se espalha pelo México. Desde 1995, cerca de 80 aldeias no Estado de Guerrero organizaram "comunidades" de forças policiais em que aldeões mal armados prendem e processam pessoas.

Com suas próprias prisões e "tribunais" - na verdade, assembleias municipais que podem proferir veredictos - e punições que podem incluir o trabalho comunitário ou a reeducação, a polícia da comunidade é reconhecida por lei estadual, embora o ativista de direitos Hernandez tenha dito que ainda existem divergências quando as regras da comunidade se encontram com o sistema jurídico formal.

Ele apontou para um incidente em 2012, quando um juiz e um detetive na cidade de San Luis de Acatlán, no Estado de Guerrero, prenderam um líder da polícia comunitária por excesso de autoridade. A comunidade reagiu prendendo o juiz, o detetive e um assistente.

Os membros dos esquadrões de vigilância em Guerrero disseram que o que querem do governo é algum tipo de salário, e não armas mais modernas. De acordo com eles, o que realmente conta são seus laços com a comunidade e resistência à corrupção.

"Quando as pessoas se unem, não importa se você porta um calibre 22 ou 38. Quando estamos unidos, nem mesmo balas de uma AK-47 podem nos derrotar", disse o comandante de Las Mesas. "Eles não conseguirão matar todos nós."

*Por Mark Stevenson

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