Para analistas, morte de Chávez pode alterar balanço político na América Latina

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“A morte de Chávez não significa um desastre para a esquerda, mas deve favorecer os países mais centristas”, diz Nicholas Watson

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Presidente da Venezuela, Hugo Chávez (E), fala ao lado de seu vice, Nicolás Maduro, que indicou como seu sucessor

Os efeitos da morte do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, deverão ser sentidos em países vizinhos, entre os quais o Brasil, e poderão afetar alianças políticas e econômicas regionais. A opinião é de analistas ouvidos pela BBC Brasil.

No poder desde 1999, Chávez tornou-se referência para políticos de esquerda que viriam a se tornar presidentes em nações vizinhas nos anos seguintes.

A afinidade ideológica do grupo culminou na criação, em 2004, da Alba (Aliança Bolivariana para as Américas), que hoje agrega Venezuela, Equador, Bolívia, Cuba, Nicarágua e os pequenos países caribenhos de Antígua e Barbuda, Dominica e São Vicente e Granadinas.

Para Nicholas Watson, especialista em Venezuela da consultoria Control Risks, baseada na Colômbia, a morte de Chávez tende a alterar o equilíbrio das alianças políticas na América Latina em favor de governos mais moderados, como os de Chile e Brasil. Já os membros da Alba e, em menor grau, a Argentina, devem perder força, segundo ele.

“A morte de Chávez não significa um desastre para a esquerda, mas deve favorecer os países mais centristas.”

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E para economias que se aproximaram da Venezuela durante o governo Chávez, como Nicarágua, Equador, Cuba e República Dominicana, a morte do presidente pode trazer impactos econômicos negativos, avalia Watson.

Hoje a Venezuela vende petróleo a preços abaixo do mercado para algumas nações vizinhas, especialmente no Caribe. “Talvez as condições de venda sejam mantidas pelo novo governo, mas, sem Chávez, deverá haver mais questionamentos na Venezuela.”

Governo da Venezuela divulga fotos de Chávez ao lado de suas filhas em fevereiro de 2013. Foto: DivulgaçãoChávez manda beijo antes de embarcar em direção a Havana para nova cirurgia em dezembro de 2012. Foto: APChávez anuncia nova cirurgia contra câncer e indica Nicolás Maduro como seu sucessor em dezembro de 2012. Foto: APO presidente da Venezuela, Hugo Chávez, comemora reeleição em outubro de 2012. Foto: ReutersLíderes do Mercosul se reúnem para selar adesão da Venezuela ao bloco em julho de 2012. Foto: Alan Sampaio / iG BrasíliaHugo Chávez usa binóculos dados por vice-premiê bielo-russo, Vladimir Semashko, em Caracas, em junho de 2012. Foto: APEm abril de 2012, Chávez parte novamente para Cuba ao lado da filha Rosa Virgínia. Foto: APApós nova cirurgia, Chávez retorna à Venezuela em ritmo de campanha em março de 2012. Foto: APPresidente da Venezuela Hugo Chávez conversa com o ator Sean Penn que visitou o palácio presidencial em Caracas, Venezuela, em fevereiro de 2012. Foto: APHugo Chávez e sua filha Rosa embarca em avião em direção a Cuba em outubro de 2011 para o presidente fazer exames. Foto: APChávez coloca 'chapéu da cura' oferecido por índia durante cerimônia em Caracas em setembro de 2011. Foto: APEm setembro de 2009, Hugo Chávez jogou softball antes de conceder coletiva. Foto: ReutersChávez dança com sua filha na varanda do palácio presidencial em julho de 2011. Foto: AFP PHOTOEm julho de 2011, Chávez cumprimenta partidários em cerimônia em Caracas. Foto: AFPChávez participa de missa por sua saúde em Caracas em julho de 2011. Foto: APChávez saúda partidários em Caracas depois de retornar de sua primeira cirurgia após descoberta do câncer em julho de 2011. Foto: APDilma Rousseff e Hugo Chávez conversam durante cerimônia de posse da presidente em janeiro de 2011. Foto: AEChávez cumprimenta Cristina Kirchner durante velório de Néstor Kirchner em outubro de 2010. Foto: APChávez se encontra com ex-jogador de futebol argentino Diego Maradona no Palácio de Miraflores, em Caracas, em julho de 2010. Foto: APPresidente da Síria, Bashar al-Assad, tem reunião com Hugo Chávez em junho de 2010. Foto: ReutersChávez e Vladimir Putin passam por tropas durante cerimônia em Caracas em abril de 2010. Foto: APHugo Chávez, presidente da Venezuela, na Conferência Mundial sobre as Alterações Climáticas e os Direitos da Mãe Terra, em abril de 2010. Foto: APPresidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, e Chávez se encontram em Caracas em novembro de 2009. Foto: APEm outubro de 2009, o então presidente brasileiro Lula visitou Chávez em Caracas. Foto: AEEm setembro de 2009, Chávez encontra o cineasta Michael Moore no Festival de Veneza. Foto: AFPEm abril de 2009, na Cúpula das Américas, Obama troca um breve cumprimento com Chávez. Foto: APChávez conversa com o líder cubano Raúl Castro no encontro da ALBA, em Cumana, em fevereiro de 2009. Foto: ReutersFoto divulgada pelo jornal cubano Granma mostra Fidel Castro e Hugo Chávez de mãos dadas enquanto líder cubano se recuperava de cirurgia em agosto de 2006. Foto: APFidel participa de evento ao lado do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, em fevereiro de 2006. Foto: APFoto divulgada pelo Palácio de Miraflores mostra Chávez ao lado do então líder líbio, Muamar Kadafi, morto em 2011, em Trípoli, em novembro de 2004. Foto: APChávez e sua então mulher Marisabel posam para foto ao lado da filha Rosa durante parada pelo Dia das Crianças em Caracas, em 2001. Foto: APEm foto sem data, Chávez posa com seus companheiros do fracassado golpe de 1992 enquanto estavam presos na cadeia Yare II, perto de Caracas. Foto: APEm foto sem data divulgada pelo Palácio de Miraflores, Hugo Chávez em seu tempo de serviço militar. Foto: APFoto sem data divulgada pelo Palácio de Miraflores mostra Hugo Chávez em uma foto familiar em Barinas, Venezuela. Foto: APFoto sem data divulgada pelo Palácio de Miraflores mostra Hugo Chávez (dir.) ao lado do irmão, Adan Chávez. Foto: AP

Ainda assim, o analista diz que a morte do presidente venezuelano deverá ter menos impacto hoje do que se tivesse ocorrido entre 2005 e 2006, quando, segundo ele, a Venezuela vivia o ápice de sua influência regional. Desde então, a economia venezuelana entrou em crise, reduzindo o poder de influência de Caracas.

Watson afirma ainda que a morte de Chávez pode afetar as recém-iniciadas negociações entre o governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Segundo o analista, o presidente venezuelano e o governo cubano tiveram um papel central na condução das Farc à mesa de negociações.

“Com sua morte, o processo de paz perde um ator importante.” Ele avalia, porém, que as conversas não serão interrompidas.

Para Marcio Antônio Scalércio, professor de Relações Internacionais PUC-RJ, o impacto da morte de Chávez na América Latina dependerá, em grande medida, do resultado de uma nova eleição presidencial na Venezuela.

A constituição venezuelana determina que, quando um presidente não pode tomar posse em razão de morte ou incapacidade, o presidente da Assembleia Nacional deve assumir o Executivo interinamente e convocar eleições presidenciais em até 30 dias.

Chávez assumiria um novo mandato de seis anos em 10 de janeiro. Dias antes de sua saúde se deteriorar, ele afirmou que, caso não pudesse tomar posse, esperava que os venezuelanos escolhessem o vice-presidente Nicolás Maduro como seu substituto.

Ex-motorista de ônibus que iniciou sua trajetória política como líder sindical, Maduro chefia o Ministério de Relações Exteriores venezuelano desde 2006.

Para Scalércio, porém, não está claro se Maduro conseguirá “herdar todo o capital político que o Chávez detinha”.

Antes de ser submetida à apreciação dos eleitores venezuelanos, é possível que a eventual candidatura de Maduro enfrente resistências dentro do partido governista, o PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela).

Ex-militar, o presidente Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, é tido como outro alto quadro do partido interessado em concorrer à Presidência.

Na oposição, o governador do Estado de Miranda, Henrique Capriles, é considerado o principal candidato a disputar o cargo. Acredita-se que uma vitória de Capriles na eleição implicaria alterações mais sensíveis no papel regional da Venezuela.

Durante a última corrida à Presidência, referindo-se a Cuba, Capriles disse que deixaria de “presentear a ilha com petróleo”. Estima-se que dois terços do petróleo importado por Cuba venham da Venezuela.

Do ponto de vista econômico, os rumos da sucessão venezuelana também dizem respeito ao Brasil. Quarta maior economia sul-americana, a Venezuela é a oitava maior importadora de produtos brasileiros no mundo. Em 2012, ela foi responsável por 2% de todas as compras de produtos brasileiros, quantia só superada na América do Sul pela Argentina.

Segundo a Embaixada da Venezuela no Brasil, as relações comerciais entre Brasil e Venezuela cresceram 287% nos últimos 13 anos. O saldo é amplamente favorável ao Brasil, que detém superávit de cerca de US$ 3,8 bilhões nas trocas com o vizinho.

Para Nicholas Watson, as relações comerciais entre Venezuela e Brasil hoje se assentam em bases sólidas e dificilmente serão afetadas pela morte de Chávez.

No ano passado, os laços econômicos entre os dois países ganharam um novo ramo quando a Venezuela ingressou formalmente no Mercosul, também integrado por Uruguai, Paraguai e Argentina. Na última cúpula do bloco, no início de dezembro, anunciou-se que Caracas buscaria antecipar a adoção de todas as normas técnicas do grupo, processo que poderia durar até quatro anos.

Watson diz crer que a morte de Chávez não deve prejudicar a adesão e que, sem o presidente, a faceta econômica do grupo deve ser fortalecida.

“A entrada da Venezuela no Mercosul foi um ato mais político do que econômico. A remoção dos elementos ideológico e político que Chávez representava pode ser conveniente ao bloco.”

O analista diz ainda que o Brasil e outras grandes economias sul-americanas poderão tirar proveito caso o novo governante da Venezuela abra o setor petrolífero do país a investimentos externos. Sob Chávez, a Venezuela – dona das maiores de petróleo do mundo – restringiu a ação de empresas estrangeiras.

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