Uma foto com o papa vale quantos votos na eleição da Itália?

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Em meio à renúncia de Bento 16, Mario Monti, católico praticante, poderá receber um impulso em relação a Silvio Berlusconi, conhecido por seu modo de vida amoral

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Quão importante será o endosso de um Papa quase aposentado na próxima eleição? Não, não é aquela eleição – a que escolherá o próximo líder da Igreja Católica. Outra eleição também está se aproximando, na qual os italianos irão às urnas neste domingo, 24 de fevereiro, para escolher um novo primeiro-ministro. E com a Itália em clima solene por causa da renúncia histórica de Bento 16, a "visão moral" do titular Mario Monti poderá receber um impulso quando comparada à posição de Silvio Berlusconi.

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Papa Bento 16 cumprimenta o premiê italiano Mario Monti durante audiência privada no Vaticano (16/02)


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Mesmo que a grande maioria dos católicos italianos não frequente a missa de domingo regularmente, o Vaticano tradicionalmente exerce influência sobre a política na Itália, um país onde democratas-cristãos têm dominado há décadas. Praticamente qualquer coisa que o papa faz ou diz vira uma grande notícia. E o Papa Bento 16 não escondeu sua preferência por Monti, um católico praticante, a quem cumprimentou calorosamente no dia 16 de fevereiro em uma de suas últimas audiências privadas com um líder político italiano.

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Por outro lado, o Vaticano expressou seu horror sobre a série de escândalos sexuais e de corrupção que giram em torno do bilionário magnata da mídia Berlusconi. E com a dignidade da transição papal bastante presente na mente dos italianos, a preferência papal por Monti poderá ser um fator que fará os eleitores pensarem duas vezes antes de apoiar uma figura que se tornou sinônimo de um modo de vida amoral.

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Mas especialistas alertam: Não espere que o fator papal influencie a eleição. Embora, obviamente, é claro, os candidatos poderão ajustar sua retórica de acordo com o momento.

O principal candidato, Pier Luigi Bersani, um veterano de esquerda da Itália que defende um tipo de visão ética mais secular, falou sobre a questão da "moralidade" em um comício de campanha no domingo, 17 de fevereiro, na região da Lombardia. Embora ele venha de uma tradição política diferente da de Monti, os dois compartilham uma ênfase sobre a reforma econômica que poderia muito bem funcionar em um futuro governo de coalizão.

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A lei italiana proíbe a publicação de pesquisas de opinião nas últimas duas semanas antes das eleições, por isso é difícil dizer se o foco repentino sobre assuntos religiosos católicos fez com que os eleitores indecisos optassem por votar em Monti, o único católico praticante entre os principais candidatos.

Mas uma sessão de fotos com o Papa é o santo gral para um candidato italiano, e Monti, por ser o favorito, teve a oportunidade de estar frente com Bento 16 durante a despedida do pontífice. O fato do Papa ter concedido tempo nos últimos dias de seu papado para conversar em privado com Monti refletiu tanto a importância dada ao relacionamento entre a Itália e a Santa Sé, quanto à preferência do próprio Vaticano por Monti.

Monti, um economista respeitado internacionalmente, claramente tem a bênção do Vaticano.

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No final de janeiro, uma pesquisa encomendada pelo italiano semanário católico Famiglia Cristiana descobriu que mais de um terço dos católicos praticantes inquiridos estavam indecisos, em consonância com o percentual de italianos indecisos em geral. Mas a mesma pesquisa descobriu que uma boa quantidade do apoio de Monti vem dos católicos praticantes.

Bento 16 não fez comentários públicos sobre seu encontro final com Monti. Mas o Vaticano disse que os dois compartilharam de um "encontro particularmente cordial e intenso". O papa também poderá presenciar quem será o futuro líder da Itália, mas apenas após o fim da votação. "Qualquer tipo de exposição será boa para Monti", disse James Walston, professor de ciência política da Universidade Americana de Roma, sobre o possível efeito da audiência papal.

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Até mesmo os analistas políticos que duvidam que a Igreja Católica exerça qualquer influência nos eleitores italianos concordaram que os principais candidatos precisam manter as sensibilidades católicas em mente. "Um partido político na Itália, já que estamos na Itália, com suas tradições religiosas, com a presença histórica da Igreja, é preferível que não pareça anti-católico", disse Pietro Grilli di Cortona, professor de ciência política na Roma Tre, uma universidade estadual em Roma.

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Após ter sido surpreendido por um escândalo sexual, até mesmo Berlusconi tentou parecer piedoso em relação ao papa Bento 16 na esperança de um impulso político. Em 2009, durante a sua terceira passagem como primeiro-ministro, em meio a relatos de um namoro com uma prostituta, Berlusconi escreveu uma carta de Natal para Bento 16 afirmando que os valores cristãos orientavam o trabalho de seu governo.

E embora Bersani tenha raízes no extinto Partido Comunista da Itália, sua coalizão inclui vários ex-democratas cristãos. Na coalizão de Bersani, disse Walston, "há um forte elemento dos católicos".

Por Frances D'Emilio

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