Acusado de roubo, Issa Alzouma teve seu braço direito amputado sem passar por julgamento; família passa dificuldades, enquanto morador de Gao não consegue emprego

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Extremistas islâmicos no Mali se aproximaram da cela de Issa Alzouma e o levaram à praça pública renomeada por eles de Place de Shariah. Eles o colocaram sobre um apoio, amarraram seus braços e pernas antes de amputar sua mão e antebraço direito com uma faca.

"Eu desmaiei de dor", disse o pai de três filhos de 39 anos de idade, exibindo o toco logo abaixo do cotovelo ainda envolto em gaze. "Quando me dei conta, estava no hospital."

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Issa Alzouma, 39 anos, posa em frente a sua casa em Gao, no norte de Mali
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Issa Alzouma, 39 anos, posa em frente a sua casa em Gao, no norte de Mali


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Alzouma ainda carrega o pedaço de papel dobrado que recebeu ao ter alta do hospital depois de cinco dias. Em seu diagnóstico dizia: amputação.

A cidade de Gao celebrou a partida dos radicais islâmicos depois de quase 10 meses de ocupação. Mas a intervenção militar francesa que fez com que os jihadistas armados fugissem veio tarde demais para Alzouma e outros homens que perderam suas mãos e, provavelmente, seus meios de subsistência, quando os militantes realizaram amputações como punição pelo roubo e outros supostos crimes sob sua interpretação estrita da sharia , ou lei islâmica.

Alzouma, o último prisioneiro em Gao cuja mão foi cortada, não sabe como sustentará sua esposa e três filhos. Seu ganha pão era cavar cascalho. "Até mesmo para homens que possuem ambas as mãos é difícil encontrar trabalho", disse, sentado em uma esteira dentro de sua cabana de palha em um bairro de Gao.

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Quando extremistas islâmicos primeiro assumiram o controle de Gao em abril de 2012 , Alzouma disse que falavam sobre o Islã e a importância de ser um bom muçulmano. Só mais tarde começaram a impor suas regras estritas.

No início, eles disseram às pessoas que os cigarros eram ruins e que elas não deveriam fumar. Em seguida, as mulheres foram orientadas a não saírem às ruas sozinhas. Só mais tarde é que eles começaram a chicotear aqueles que saiam em público sem véu. No total, realizaram nove amputações em Gao, segundo os moradores.

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Em novembro, Alzouma estava viajando de moto entre a sua cidade natal e Gao quando os jihadistas o prenderam e o acusaram de espionagem. Alzouma negou qualquer tipo de envolvimento, e disse que estava parado sozinho na estrada, pois estava trocando uma vela do motor de sua moto que estava com defeito. Mais tarde, os extremistas disseram que testemunhas o viram invadir uma loja das redondezas.

Ele disse que não houve julgamento. Um vizinho mais tarde veio à sua casa para dizer a sua esposa, Fatimata, que sua mão havia sido amputada. Ela não sabia como iria explicar a seu filho Ousmane de 7 anos que seu pai havia perdido sua mão. Quando foi visitá-lo no hospital, Ousmane chorou ao ver o toco do braço de seu pai enfaixado.

Depois de sua amputação, Alzouma comprou à sua esposa um véu com as doações que receberam. Ela só o vestiu uma vez para ir ao mercado antes da missão francesa expulsar os rebeldes islâmicos . Hoje, ela envolve a cabeça em um pano de cor azul-petróleo e observa que mais do que nunca é pressionada a abandonar a cabana da família.

Pequena, mas persistente, Fatimata agora carrega o peso da responsabilidade para o futuro de sua família, embalando carvão em sacos plásticos para vender para sustentar seu filho e marido. Os jihadistas queriam manter as mulheres em casa, mas, ironicamente, a amputação mudou a dinâmica dos papéis de gênero, com Fatimata agora saindo para trabalhar, enquanto Alzouma fica em casa se recuperando e ajudando a cuidar das crianças.

Alzouma não consegue comprar medicação para dor. Ele retorna a cada 10 dias para o hospital para que cuidem de seu curativo. Ele espera que um dia consiga obter uma prótese que lhe devolverá algumas habilidades. Ele sabe, porém, que não será capaz de cavar o cascalho como fazia antigamente.

"Todo dia quando rezo pergunto a Deus: 'o que posso fazer para sobreviver? Como posso sustentar minha família?'", disse.

Os militantes disseram que cortaram sua mão seguindo a lei islâmica. Alzouma, porém, disse que submeter ele e seus filhos a uma vida de pobreza não está de acordo com sua fé. "Eles disseram que eram muçulmanos, mas não eram", disse. "Eles são criminosos."

Por Krista Larson

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