Judeus que possuem centro comunitário no 'edifício branco' são os que lutam pela destruição do prédio, que está em péssimas condições

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Um prédio antigo da Polônia abrigou o ritual do banho de mulheres judias. Também foi uma clínica para tuberculose, sobreviveu ao ataque alemão e se tornou um ponto de encontro para sobreviventes do Holocausto.

Agora, "o edifício branco", a sede da comunidade judaica e um dos poucos remanescentes sobreviventes do Gueto da Varsóvia poderá ser demolido para dar lugar a uma torre de vários andares que se encaixará perfeitamente no horizonte moderno da cidade.

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Pedestres passam pelo 'edifício branco', prédio que abriga centro comunitário judeu em Varsóvia, Polônia
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Pedestres passam pelo 'edifício branco', prédio que abriga centro comunitário judeu em Varsóvia, Polônia


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O destino do edifício será determinado pelo Ministério da Cultura, que tem sido questionado por defensores da preservação histórica para transformá-lo em um monumento histórico, uma classificação que poderia proibir sua destruição.

Ainda não está claro qual será o critério levado em consideração pelas autoridades para chegarem a uma decisão apesar de decisões anteriores já terem declarado o local como não apto para ser preservado. Agora, aqueles a favor e contra a destruição do velho edifício estão esperando ansiosamente por um veredicto.

Talvez o que seja inesperado neste caso é quem está lutando pelo quê: a comunidade judaica de Varsóvia, proprietária do edifício de três andares em ruínas, é favorável à sua destruição. Os líderes da comunidade afirmam que um prédio maior é necessário para acomodar uma comunidade judaica que vem ressurgindo na jovem democracia polonesa depois do Holocausto e décadas de repressão comunista.

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O "edifício branco", no coração do distrito de negócios da cidade, é o local onde a comunidade judaica se reúne para palestras, jantares do Shabat, feriados e até mesmo para a prática de esportes. Líderes judeus argumentaram que ele é muito apertado e infestado por fungos e que já não atende tão bem às necessidades de uma comunidade que triplicou na última década.

Hoje, ele já não acomoda todos aqueles que querem participar dos jantares de Shabat após as orações de sexta-feira. Não há espaço para celebrações festivas no feriado de Purim. E uma nova congregação de reforma, que engloba um estilo moderno de adoração diferente dos serviços ortodoxos realizados na sinagoga Nozyk, precisa se reunir do outro lado da cidade em salas alugadas.

"Eu discordo da opinião de que o prédio é mais importante que o futuro da comunidade", disse Andrzej Zozula, vice-presidente da comunidade judaica. "Mas, infelizmente, essa é a essência do conflito."

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O rabino chefe da Polônia Michael Schudrich chegou a citar a história do rei Herodes reconstruindo o Segundo Templo em Jerusalém cerca de 2 mil anos atrás, para que aceitem a demolição do local.

"Por mais que respeitemos o passado, temos que olhar para o futuro", disse Schudrich. "Por mais que houve uma santidade pelo templo, que estava de pé, o templo foi reconfigurado em uma escala muito mais grandiosa para atender as necessidades e os desejos de uma comunidade judaica. Então isso de alguma forma representa a luta na qual estamos diante."

Ativistas tentam salvar o 'edifício branco', que abriga um centro comunitário judeu em Varsóvia, Polônia
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Ativistas tentam salvar o 'edifício branco', que abriga um centro comunitário judeu em Varsóvia, Polônia

O debate também é um microcosmo para questões mais profundas que emergem hoje no planejamento da cidade de Varsóvia, uma cidade que foi quase totalmente destruída durante a Segunda Guerra Mundial (1939 - 1945) e que tem presenciado um grande desenvolvimento à medida que a economia tem crescido na era pós-comunista.

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Na região do antigo gueto, não resta quase nada do passado. Ao lado do edifício branco encontra-se a sinagoga Nozyk, a única construída antes da guerra ainda existente na Varsóvia. Ela sobreviveu pois os alemães a transformaram em um estábulo para cavalos. Há uma igreja do período pré-guerra sobrevivente, do outro lado da rua, assim como quatro prédios próximos na rua Prozna, com fachadas de tijolo ainda com buracos de tiros. Também é possível encontrar marcas de balas nas paredes do gueto.

O debate sobre o "edifício branco" levanta questões que fundamentam diversos projetos imobiliários em toda a cidade: Se edifícios antigos forem preservados, será que isso impedirá a modernização? O que exatamente vale a pena salvar em uma cidade como Varsóvia? Estruturas como o "edifício branco", que seria banal em uma cidade como Roma ou Paris, precisam ser preservados simplesmente, porque quase todas outras relíquias viraram pó?

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Nesse caso, os opositores do plano disseram que líderes judeus não têm o direito de destruir uma estrutura rara, argumentando que pertence ao maior patrimônio da Polônia. Mas líderes judeus disseram que seria injusto se eles fossem impedidos de desenvolver sua comunidade, quando a presença de arranha-céus há muito tempo apagam qualquer vestígio de característica pré-guerra no bairro.

O "edifício branco" está claramente em decomposição. Embora tenha uma adega de quase mais de dois séculos, a maior parte do edifício tem cerca de 130 anos e já passou por grandes reformas desde então.

Não há planos específicos para o novo desenvolvimento ainda, porque investidores precisam ser encontrados - e depende em primeiro lugar de obter permissão para reconstruir. Mas líderes judeus disseram que imaginam um edifício de cerca de 80 metros de altura - ou cerca de 20 andares.

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Um pequeno porém determinado grupo de arquitetos e outros - incluindo judeus e não judeus - que acreditam que a estrutura, localizada na rua Twarda 6, deve ser preservada como um local de importância histórica para todo o povo da cidade, é contra a reforma. Eles reconhecem que o "edifício branco" realmente está em um estado deplorável, mas acusaram a comunidade judaica de deixá-lo deteriorar-se para justificar sua destruição.

"Para mim, isso é um escândalo, pois é um legado histórico de todos poloneses", disse Joanna Jaszunska, uma designer gráfica. "Agora é o momento para fazermos algo para salvar este edifício."

Uma decisão de um escritório independente de patrimônio do Estado no ano passado se recusou a conceder ao "edifício branco" o status de monumento histórico. Embora tenha reconhecido sua longa história entrelaçada com os judeus de Varsóvia, ele finalmente declarou a estrutura "desprovida de qualidades artísticas".

Ainda não está claro quando o Ministério da Cultura decidirá a classificação do edifício. Mas Sujecki disse que, se seu lado perder a batalha, ele continuará lutando e irá apelar a decisão.

No quarteirão onde fica o 'edifício branco' é possível ver uma sinagoga em Varsóvia, Polônia
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No quarteirão onde fica o 'edifício branco' é possível ver uma sinagoga em Varsóvia, Polônia


Por Vanessa Gera

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