Para recriar passado, China destrói sua própria história em distrito de Pequim

Por AP |

compartilhe

Tamanho do texto

Autoridades querem reconstruir praça com base em arquitetura da dinastia Qing à custa de dezenas de casas que representam patrimônio cultural de séculos do país

AP

Em um canto da antiga Pequim, o governo poderá em breve destruir sua história.

Autoridades do distrito querem recriar um pedaço do passado glorioso da China dinástica reconstruindo uma praça perto da Torre do Sino e do Tambor com base na arquitetura da dinastia Qing. Para fazer isso, eles demolirão dezenas de casas que preservacionistas disseram terem se tornado parte de uma história cultural que desaparece rapidamente à medida que a capital muda.

Censura: Apesar de discurso sinalizar abertura, China mantém forte cerco à imprensa

AP
Bicicleta é estacionada do lado de fora de casa hutong com aviso de demolição perto da Torre do Sino e do Tambor em Pequim (26/12/2012)

Comportamento: China proíbe banquetes luxuosos regados a álcool para militares

Por causa da recente renovação, há muitas casas novas e sem história. Mas as antigas se encontram em becos tortos conhecidos como "hutongs", e sua história começou séculos atrás.

Ao longo de suas ruas e dentro de suas paredes remendadas, um velho modo de vida ainda é visível – quartos pequenos, pátios partilhados, roupas penduradas para secar – contra um pano de fundo de arranha-céus.

O plano para reconstruir o bairro tem despertado a ira de quem acredita que isso seria como trocar uma peça real e viva da história de Pequim por algo estático e falso.

"Eles querem que a praça da Torre do Sino e do Tambor volte ao tempo da dinastia Qing, mas ao fazer isso destruirão uma obra rica do patrimônio cultural", disse He Shuzhong, fundador do Centro de Proteção do Patrimônio Cultural de Pequim, um organização não-governamental.

"Acreditamos que a proteção do patrimônio cultural tem a ver com herança, com história. É um processo da história. O patrimônio não precisa necessariamente refletir o mundo que vivemos hoje", disse.

Governo: 'Príncipes' da China usam seu poder para transformar política do país

Dominic Johnson-Hill, um empresário britânico que passou nove anos vivendo no bairro da Torre do Sino e do Tambor, disse que os hutongs "são uma espécie de museus vivos da China ou pelo menos de Pequim".

"Se você visita a Cidade Proibida, ela tem uma sensação de ser completamente vazia, assim como muitos outros marcos culturais na China. Mas quando você visita um hutong, você sente como se estivesse em algumas das melhores obras vivas de Pequim", disse Johnson-Hill.

Um plano anterior de 2009 que pretendia demolir as casas com intuito de construir um shopping subterrâneo foi arquivado após a oposição de grupos cívicos e de alguns moradores. Agora, um plano menos ambicioso está sendo ponderado.

O governo distrital de Dongcheng disse que o novo plano pretende preservar a história. Ele restaurará a praça "à sua aparência original" utilizando mapas do período Qianlong na dinastia Qing no século 18 e outros períodos não especificados, embora os projetos ainda estejam em discussão e os detalhes sejam vagos. Moradores, no entanto, foram notificados que deverão se mudar em dezembro.

Transição: Congresso confirma Xi Jinping como novo líder da China

Os desalojados serão transferidos para apartamentos maiores mais distantes do centro da cidade. Moradores que agregaram ilegalmente um segundo e terceiro andar não serão compensados, disse Li Guanghui, vice-chefe da administração de moradia de Dongcheng.

Autoridades disseram que o projeto elevará os padrões de vida dos residentes e resgatará a aparência histórica da região. Especialistas em patrimônios culturais discordaram, dizendo que as casas existentes deveriam ser renovadas e não destruídas.

AP
Turistas caminham perto de casas hutong perto da histórica Torre do Sino e do Tambor em Pequim

O crescimento econômico da China e a explosão imobiliária ao longo das últimas três décadas transformaram suas grandes cidades à custa da história. Um terço dos hutongs de Pequim desapareceu desde o início dos anos 1990 e outro terço perdeu sua aparência original após a renovação, de acordo com estimativas do Centro de Proteção do Patrimônio Cultural de Pequim.

Autoridades de Dongcheng afirmaram que a praça da Torre do Sino e do Tambor não se tornará uma rua comercial e a área circundante permanecerá residencial. Mas aqueles nas imediações terão de desocupar o local.

Saiba mais: Entenda os desafios que aguardam a nova liderança chinesa

Muitos não estão preocupados com a mudança e estão ansiosos para morar em casas mais novas e maiores. "Queria mudar de casa há 30 anos", disse uma mulher que se identificou apenas pelo sobrenome Wang.

Liu Fengying, 64, foi mais melancólica. Liu, que se lembra que três gerações anteriores de sua família viviam no bairro, hospedou visitantes enquanto vestia um casaco de inverno e sentava-se em uma cama que ocupava cerca da metade de um de seus dois pequenos quartos. O varal passava pelo meio de sua sala e um calendário com um desenho de um jovem Mao Tsé-Tung estava pendurado na parede.

"Não estou disposta a ir embora", disse. "Mas se o Estado precisa dessa terra, então não temos escolha. Eles vão nos dar casas maiores, apesar de estarem localizadas um pouco longe de tudo."

Por Louise Watt

Leia tudo sobre: chinapequimpatrimônio cultural

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas