Nova abordagem de presidente mexicano contra violência é questionável

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Peña Nieto não convoca mais coletivas para divulgar estatísticas nem mostra à imprensa fotos de membros de cartel presos, prática que já recebeu críticas e elogios

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Dois meses depois que o presidente Enrique Peñaa Nieto tomou posse prometendo reduzir os crimes violentos, os assassinatos ligados a cartéis de drogas do México continuam em alta. O que diminuiu é o quanto o governo fala sobre eles.

Dezoito membros de uma banda e sua comitiva foram sequestrados e mortos no final de semana no Estado de Nuevo Leon por homens armados que lhes disseram para que nomeassem o cartel de sua filiação antes de serem baleados e jogados em um poço.

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Presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, ri durante encontro da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe em Santiago (25/1)

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Catorze presos e nove guardas morreram em uma tentativa de fuga de uma prisão no Estado de Durango. Nove homens foram mortos na véspera de Natal em Sinaloa. No Estado do México, que faz fronteira com a capital, mais de uma dúzia de corpos foram encontrados na semana passada, alguns desmembrados.

A diferença do novo governo para o antigo é que ainda não foram feitas grandes coletivas de imprensa anunciando a introdução de mais tropas para ingressar no combate contra as drogas. Os desfiles de suspeitos de tráfico recém-detidos com suas armas, dinheiro ou contrabando que aconteciam diante da mídia também já não ocorrem mais.

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Peña Nieto prefere divulgar dados sobre a educação, as reformas fiscais e a energia. No fim de janeiro, ele disse a uma cúpula de líderes da América Latina e do Caribe no Chile que quer que o México se concentre em resolver problemas mundiais e regionais.

Alguns observadores políticos o elogiaram por tentar mudar de assunto e por tentar apresentar uma outra face do México. Críticos sugerem que os novos líderes do país acreditam que a melhor maneira de resolver uma crise de segurança é criando distrações.

"O que Peña Nieto está fazendo é apenas varrer a violência para debaixo do tapete na esperança que ninguém perceba", disse o especialista em segurança Jorge Chabat. "Essa tática pode ser eficaz a curto prazo, até que a violência se torne tão óbvia que será praticamente impossível ignorá-la."

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O governo de Peña Nieto se recusou a responder publicamente às críticas. Mas em uma entrevista concedida em dezembro à Associated Press, ele disse que não iria colocar quaisquer metas ou prazos em sua campanha contra o crime organizado e que seu foco estaria na prevenção.

"Dessa maneira, evitaremos que haja terreno fértil para que a violência e a insegurança continuem crescendo", disse Peña Nieto.

O perito em comunicações Ruben Aguilar disse que o atual governo está agindo corretamente em tentar mudar o foco das atenções da segurança, que foi o tema principal durante o mandato de seis anos do presidente Felipe Calderón, que deixou o cargo no dia 1º de dezembro de 2012.

É difícil dizer se a violência das drogas aumentou, porque o governo não fornece números - prática que começou com Calderón. A última divulgação de estatísticas relacionadas a mortes e tráfico de drogas foi em setembro de 2011.

Ao tomar posse no dia 1º de dezembro de 2012, Peña Nieto anunciou que trabalharia para restaurar a paz, dizendo que o governo iria mudar sua estratégia de segurança para reduzir assassinatos, sequestros e extorsões mais do que ir atrás dos líderes de cartéis.

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Ele lançou um plano de segurança que não era tão diferente quanto o de Calderón. Entre as poucas diferenças estava um plano para estabelecer um polícia para patrulhar áreas perigosas, uma força que levará vários anos para ser construída. Enquanto isso, ele está mantendo os militares nas ruas, assim como Calderon o fez.

O governo de Peña Nieto também disse que só irá falar sobre a violência em termos de "dados concretos".

Eduardo Sánchez, o subsecretário de mídia no Ministério do Interior, disse à agência mexicana oficial de notícias na semana passada que o governo federal não apresentará mais presos à mídia ou mencionará os apelidos dos presos - seja ele o "Esquilo" ou "El Brad Pitt" - uma prática muito criticada sob o governo de Calderón.

A idéia, disse Sanchez, é a de evitar a glorificação da violência, que já é celebrada em alguns círculos através da música e estilos de roupas. "Nós não queremos que a juventude deste país veja o crime como algo atraente ou um bom lugar para aumentar seu status social, econômico", disse a jornalistas locais na semana passada.

Carlos Reyes, porta-voz da delegação do congresso do Partido da Revolução Democrática, criticou a nova abordagem. "As ações do governo precisam ser transparentes em termos de exatidão sobre o nível do problema e sobre como lidar com isso, e não fugir dele ou disfarçá-lo", disse.

Edna Jaime, diretora da firma de análise política México Avalia, disse que ainda é muito cedo para criticar a abordagem do novo governo. "A dinâmica da violência não vai mudar em um mês ou um mês e meio", disse, embora tenha acrescentado que a esta altura, o governo deveria ter uma estratégia. A narrativa mudará "quando for acompanhada por uma mudança real", acrescentou.

Por E. Eduardo Castillo

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