Irã dá conselho claro a críticos das eleições de junho: 'Fiquem quietos'

Por iG São Paulo |

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A quatro meses da votação, campanha do governo tem o objetivo de amordaçar qualquer dissidência aberta em relação ao processo para selecionar sucessor de Ahmadinejad

Ainda faltam quatro meses para as eleições que escolherão o próximo presidente do Irã, no entanto a liderança do país não parece querer perder tempo. O alerta dado a qualquer um que pretenda questionar a votação de junho é: fique quieto.

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AP
Presidente do Irã, Mahmud Ahmadinejad (C), participa coletiva com clérigos sunitas egípcios no Cairo em 05/02: eleição de junho define seu sucessor

Uma grande campanha de comunicação que incluiu observações contundentes do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, visa a amordaçar qualquer dissidência aberta em relação ao processo para selecionar o sucessor de Mahmoud Ahmadinejad, no qual deve ser escolhido um novo presidente com uma personalidade política muito mais amena.

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Denúncias públicas não são novidades contra alguém que se afasta da conduta oficial iraniana. Mas esses avisos preventivos parecem refletir as preocupações de que a campanha eleitoral possa abrir espaço para a crítica e reclamações sobre os diversos desafios do Irã, incluindo uma economia enfraquecida por sanções do Ocidente, a inflação de dois dígitos e uma moeda nacional cujo valor despencou.

"As eleições são uma oportunidade para que a voz do povo seja ouvida", disse Mustafa Alani, analista do Centro de Pesquisa do Golfo, com sede em Genebra. "Os líderes do Irã entendem isso muito bem e provavelmente não querem correr nenhum risco."

E as autoridades iranianas detêm quase todo o poder. Seu principal objetivo dessa vez é o de evitar o que aconteceu em 2009, quando candidatos com tendências reformistas apareceram na cédula, desencadeando uma revolta sem precedentes logo após a reeleição de Ahmadinejad em meio a alegações de fraude eleitoral.

Os líderes do protesto estão agora sob prisão domiciliar e seu Movimento Verde foi sistematicamente desmantelado por meio da repressão e intimidação. O próximo grupo de candidatos à presidência - que deve ser aprovado por clérigos dirigentes do Irã - provavelmente não surpreenderá ninguém.

Em vez disso, é provável que o foco esteja em aliviar o atrito político interno na tentativa de encontrar maneiras de enfrentar as sanções enquanto se negocia um acordo com os EUA e aliados para permitir que Teerã mantenha alguns níveis de enriquecimento de urânio, o ponto central de seu programa nuclear.

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O Ocidente e outros temem que a capacidade do Irã em produzir combustível nuclear possa eventualmente levar à construção de uma bomba. O Irã afirma que só busca reatores para a produção de energia e aplicações médicas.

Mas ainda faltam alguns meses antes do início de qualquer tipo de disputa. Enquanto isso, as autoridades iranianas parecem estar prontas para atacar com força qualquer tipo de oposição.

Debates entre reformistas e moderados, incluindo entre o ex-presidente Akbar Hashemi Rafsanjani, sobre a possibilidade de o Irã realizar "eleições livres" têm despertado um certo incômodo no governo - algo que aponta para a rejeição prevista de potenciais candidatos da oposição.

Meir Javedanfar, analista da política iraniana baseado em Israel, disse que os levantes da Primavera Árabe - incluindo a rebelião contra o principal aliado do Irã na Síria, Bashar al-Assad - devem manter as autoridades iranianas alertas para quaisquer sinais de distúrbios à medida que a eleição se aproxima.

Em mensagens religiosas em 11 de janeiro, líderes de todo país descreveram a frase "eleições livres" como um novo chavão para criar "discórdia" na próxima eleição.

"Aqueles que promovem o termo 'eleições livres' são politicamente derrotados. Outros que promovem esse termo são imperialistas como os EUA e Israel. Por que você repetiria as palavras do inimigo?", questionou o aiatolá Ahmad Jannati ao conduzir as orações de sexta na Universidade de Teerã. Jannati administra o Conselho Guardião, que veta candidatos eleitorais.

Davoud Hermidas Bavand, analista político do Teerã, interpretou os ataques como uma tentativa de impedir Rafsanjani e outros de estabelecer um movimento pró-reforma tão perto das eleições.

"O slogan 'eleições livres' questiona a autenticidade das eleições anteriores", disse. "Isso faz com que o poder central fique preocupado e as autoridades consideram isso como uma indicação de que os reformistas estão querendo provocar tensões antes das eleições."

Por Ali Akbar Dareini e Brian Murphy

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