Praias, bombas e bandidos: Córsega se torna uma vítima de seu próprio turismo

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Crime organizado ganha terreno no charmoso refúgio para os franceses, prejudicando os moradores que sonham com a independência

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Bombas devastaram centenas de quilômetros do litoral da Córsega, destruindo dezenas de vilas localizadas em algumas das terras mais belas e valiosas da Europa. Em outra região na mesma ilha francesa, que fica ao largo da costa do Mediterrâneo, um jovem foi morto a tiros em seu carro e seu enteado ficou ferido.

A noite de violência no início de dezembro sintetizou os problemas da ilha natal de Napoleão: o crime organizado está ganhando terreno, espalhando-se para o setor imobiliário, o turismo e a política. Além disso, os separatistas, que extinguiram-se em confrontos mortais no final dos anos 1990, voltaram a travar uma batalha para evitar que o turismo de massa dominado pela máfia condene seus sonhos de independência.

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Dominique Bianchi, ex-líder nacionalista que recentemente renunciou seu cargo de prefeito de Villanova, fala sobre o crime na Córsega


Os preços das terras costeiras subiram até cinco vezes em três anos e o número de turistas também aumentou à medida que esse refúgio, antes exclusivo de ricos com seus iates e casas de temporada, tornou-se um destino de cruzeiros e vôos baratos. Mafiosos corsos - conhecidos na França continental e nos Estados Unidos por suas ligações com jogos de azar, casas noturnas e drogas - viram no local uma oportunidade.

A guerra de gangues pelos espólios da Córsega e a campanha de bombardeios separatistas criaram um clima de ilegalidade na ilha embora os combatentes tenham o cuidado de não atingir os turistas com sua violência.

"O Estado tem falhado completamente", disse Dominique Bianchi, um antigo líder nacionalista, que recentemente deixou o cargo de prefeito da aldeia de Villanova. "Neste mundo, só há uma coisa que conta: como dividir os espólios da guerra."

Abalado pelos acontecimentos, o governo de Paris está fazendo novas promessas de melhorar a situação em uma ilha onde o sentimento separatista existe desde que a França oficialmente assumiu seu controle em 1769. A Córsega se tornou uma joia do turismo de massa francês recentemente: mais de 4,2 milhões de turistas franceses visitaram a ilha no ano passado, em comparação com 2,4 milhões em 1992. O Tour de France 2013, competição mundial de ciclismo, começará na Córsega - aumentando ainda mais a sensação de que o lugar se transformou num destino de viagem superior.

Para complicar a situação, o desafio para a França é o que as autoridades chamam de "código de silêncio" - conhecido como "omertà" - que também funciona nas regiões tomadas pela máfia no sul da Itália. Os moradores dizem que é o medo, e não o omertà, que mantém as pessoas em silêncio.

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Cidade de Bonifácio, na parte sul da Córsega, na França

Dos 85 assassinatos e tentativas de homicídio do crime organizado na Córsega nos últimos oito anos, apenas um caso - um complô contra um nacionalista que se tornou presidente da maior equipe da Córsega de futebol - acabou em condenação.

Segundo os corsos, a violência da máfia e os atentados reivindicados por militantes nacionalistas têm a mesma raiz: a terra.

Praias intocadas com uma deslumbrante vista do Mediterrâneo a apenas um vôo de 90 minutos de Paris. "Onde mais você poderia ir e ter esse tipo de terra virgem? Isso não existe mais", disse Dominique Yvon, que faz parte de um grupo anti-corrupção da Córsega.

Na década de 1990, a ilha foi abalada por mais de mil ataques separatistas. Para investidores tradicionais, a Cote d'Azur da França era mais estável, apesar de sua própria máfia e era uma opção melhor na época.

Os separatistas chegaram ao fim junto à década de 2000, mas o crime organizado chegou à ilha, vendo uma abertura para a lavagem de seu dinheiro proveniente das drogas.

A maioria dos turistas que se hospedou na ilha em 2012 ficou em casas alugadas, muitas delas suspeitas de ligações com o dinheiro da máfia. O número de visitantes de cruzeiro também subiu de 298 mil em 2001 para 1,1 milhão em 2011 - eles gastam dinheiro em lojas, restaurantes e clubes antes de retornar a seus navios.

No verão, a população da Córsega dobra de seus 300 mil habitantes habituais. Os visitantes pagam o preço que for para apreciar a vista para o mar. Apesar de uma taxa de homicídios de cerca de oito vezes maior em comparação ao resto da França, eles se apegam ao fato de que nenhum turista foi morto na ilha.

A cidade corsa de Ajaccio foi o berço de Napoleão Bonaparte, que deixou a ilha jovem depois de decidir que sua grandeza não poderia ser alcançada lá. Muitos outros fizeram apostas semelhantes sobre o seu futuro em uma ilha com poucos recursos além de sua beleza natural. Entre eles, o caminho preferido é o império criminoso.

A política do governo francês era e continua sendo de que a Córsega é uma parte integrante da nação. Os ilhéus, por sua vez, chamam o resto da França de "o continente" e orgulhosamente falam sua própria língua, a qual o governo de Paris tentou sem sucesso extinguir.

Por Lori Hinnant

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