Guatemala constrói cidade utópica para escapar do crime

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Na Cidade da Guatemala, onde metade dos 14 milhões de habitantes vivem na pobreza, construtoras erguem condomínio isolado do centro para os ricos

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Uma estrada segue em direção à fronteira final da Cidade da Guatemala, passando por uma região onde os moradores mais pobres da capital vivem em cabanas cobertas com plásticos e roubam energia elétrica de postes de iluminação nas proximidades.

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Carro passa pela rua principal de Paseo Cayala, uma quase cidade independente no subúrbio da Cidade da Guatemala

Cerca de 11 km ao sul do centro histórico, a esburacada estrada de duas pistas chega a portões de ferro que abrigam prédios de apartamentos e lojas decorados em estilo colonial espanhol. Moradores do local saboreiam cappuccinos e cafés com leite sob guarda-chuvas vermelhos nas cadeiras de prata elegantes das cafeterias que ficam diante de um calçadão.

Construtoras guatemaltecas estão construindo ali uma cidade quase independente para os ricos de uma capital marcada pelo crime e pelos engarrafamentos. No centro dessa nova empreitada, fica a propriedade de 14 hectares batizada de Paseo Cayala, que contempla apartamentos, parques, botiques de luxo, igrejas, casas noturnas e restaurantes, tudo isso dentro de um grande condomínio fechado.

Os construtores do Paseo Cayala disseram que o local oferece alojamento para os guatemaltecos com variedade de rendimentos, embora até agora o apartamento mais barato custe cerca de 70 vezes a média do salário anual na Guatemala. Eventualmente, o Grupo de Gestão de Cayala pretende expandir o projeto "Cidade de Cayala", tomando uma dimensão de 352 hectares, uma área um pouco maior que a do Central Park de Nova York.

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Apoiadores do Cayala o promoveram uma espécie de porto seguro em um país conturbado, local que pode ser considerado independente da caótica capital. Ele também abraça uma filosofia que defende um regresso a um conceito tradicional de uma cidade, com espaços agradáveis onde as casas e lojas estão misturadas.

Críticos, no entanto, disseram que o empreendimento é algo negativo para a esperança de salvar o verdadeiro coração tradicional da Cidade da Guatemala, fazendo com que os cidadãos mais privilegiados abandonem o centro urbano e deixem de participar da vida econômica e social de uma cidade que há tempos vem lutando com a pobreza e altos índices de criminalidade e violência.

Cayala "é um lugar que tenta imitar um centro histórico, a forma como as pessoas se locomovem ao redor de uma cidade urbana, mas ainda não atingiu tal objetivo, pois não é uma cidade", disse o arquiteto Carlos Mendizabal, que trabalhou para reconstruir o cinema CINELUX, um dos primeiros cinemas da Cidade da Guatemala.

Mendizabal disse que o setor privado separa os mais ricos dos pobres no país. "Cayala criou um mundo para aqueles que podem pagar por ele. Cayala vende a ilusão de que tudo está bem, mas não é aberto a todas as pessoas", disse.

Muitos, porém, estão contentes com esse mundo. "Na minha opinião, Cayala dá uma nova oportunidade para os guatemaltecos viverem sem medo da violência", disse Diego Algara, que se mudou para um apartamento em Paseo Cayala no final do ano passado.

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Visitantes passeiam por Paseo Cayala,na Guatemala

Algara, diretor-geral de uma empresa que é proprietária de dois restaurantes e uma das boates mais frequentadas da Guatemala, disse que a maioria de seus vizinhos são jovens profissionais e recém-casados que buscam segurança.

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Carros entram no Paseo através de uma única porta e estacionam imediatamente em uma garagem subterrânea. Moradores e visitantes sobem a pé através de escadas rolantes cobertas por uma tenda decorada como se fizessem parte do metrô de Paris.

Seguranças particulares vestindo ternos e fones de ouvido ficam escondidos atrás de colunas e patrulham o empreendimento usando Segways.

Diferente da maioria dos shoppings de luxo e de outras lojas da capital, onde os guardas privados abertamente carregam fuzis, os seguranças de Cayala carregam pistolas escondidas.

Maritza Alfaro, 39, professora, disse ter ficado estupefata durante sua primeira visita. "É simplesmente irresistível. Nem parecia que eu estava na Guatemala", disse. "Eu acho que mais lugares como este deveriam ser construídos. É lindo demais."

Os construtores de Cayala compraram o terreno em 1980 e iniciaram a construção de diversos loteamentos. Mas nos últimos anos eles começaram a transformá-lo em uma cidade. A unidade principal, Paseo Cayala, começou a ser erguida em janeiro de 2011 e os construtores disseram ter investido US$ 66 milhões ali até agora. Os planos incluem uma igreja neo-clássica que deverá acomodar cerca de 700 pessoas.

Pedro Pablo Godoy, um dos 25 arquitetos que trabalharam no Paseo Cayala, disse que esse é o primeiro projeto na Guatemala que adere ao Novo Urbanismo, um movimento que promove a criação de bairros tranquilos com uma gama de tipos de habitação e comércio.

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Embora os mais privilegiados do país, tradicionalmente, optassem por morar em propriedades familiares e fazendas fora da capital, o objetivo da Cidade de Cayala é o de transformar a maneira que os guatemaltecos levam a vida na cidade, tendo como objetivo uma geração mais jovem que gosta de um estilo de vida mais cosmopolita. Godoy disse que o projeto poderia servir como um modelo para outras regiões da capital.

Segundo o idealizador, a primeira fase do projeto Paseo tem 110 apartamentos, com preços de venda que variam entre US$ 260 mil e US$ 800 mil, muito além do alcance da maioria dos guatemaltecos, cujo salário médio mensal é inferior a US$ 300. De acordo com o desenvolvedor, o primeiro dos dois edifícios no entanto vendeu 80% de suas unidades.

Godoy disse que os futuros empreendimentos do Cayala deverão atender a um mercado mais amplo. "Sem a criação de unidades que visam uma variedade maior de mercados é simplesmente insustentável", disse.

Alguns urbanistas e arquitetos estão céticos de que o projeto irá prosperar a longo prazo em um país com uma das taxas mais altas de homicídio do mundo e com cerca de metade de seus 14 milhões de pessoas vivendo na pobreza.

"Não podemos nos enganar acreditando que um projeto rígido, controlado e elitista será um espaço público e que irá contribuir para a cidade, quando claramente não é o caso", disse Alejandro Biguria, um arquiteto que trabalhou na reabilitação em grande parte bem sucedida de centro histórico da Cidade da Guatemala. "Uma cidade deve ter diversidade sócio-econômica e cultural."

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Paseo Cayala fica dentro da Cidade da Guatemala

Hector Leal, engenheiro e gerente geral do projeto Cidade de Cayala, discordou. Ele creditou o sucesso do projeto ao fato de ser uma iniciativa do setor privado, que não tem que passar por intermináveis obstáculos burocráticos.

"É a ideia de um espaço público criado pelo setor privado", disse Leal. "Nós temos mais controle. Isso nos dá a capacidade de oferecer segurança e criar o tipo de cidade na qual as pessoas queiram habitar."

Por Romina Ruiz-Goiriena

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