Barreira na Cisjordânia impulsiona boom imobiliário em Jerusalém

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Empreiteiros passaram a construir centenas de apartamentos baratos em Kufr Aqab, para que a oferta atraísse árabes da cidade para o outro lado do muro

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Dezenas de prédios vêm surgindo ilicitamente em um bairro árabe de Jerusalém e estão criando uma nova dinâmica na luta pelo controle da cidade sagrada, o centro do conflito israelense-palestino. Kufr Aqab é uma das muitas áreas árabes dentro de limites municipais de Jerusalém que foram separadas da cidade pela barreira que Israel construiu para cercar a Cisjordânia.

Embora Israel controle rigidamente as construções em qualquer lugar dentro da barreira, no bairros árabes, fora da fronteira, a situação é bastante diferente - como em Kufr Aqab.

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Os palestinos acreditam que Israel está fazendo vista grossa para as centenas de apartamentos baratos sendo construídos lá, esperando que a oferta irá atrair árabes da cidade para o outro lado.

Eles temem que Israel um dia torne a barreira em uma nova fronteira municipal para cimentar uma maioria judaica na cidade, cuja parte oriental, incluindo a Cidade Velha, com seus principais santuários religiosos, é reivindicada pelos palestinos como sua capital. "Eles querem que os árabes partam de Jerusalém ", disse Ayoub Burkan, um dos recém-chegados em Kufr Aqab.

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Autoridades israelenses negaram a afirmação de que querem mudar o limite de Jerusalém unilateralmente. Desde que capturou Jerusalém Oriental, em 1967, Israel construiu um conjunto de assentamentos para aumentar o controle sobre a área.

Esses assentamentos, que Israel chama de bairros, são agora lar para cerca de 200 mil judeus, em comparação a 300 mil palestinos em Jerusalém Oriental. Ao todo, Jerusalém tem pouco mais de 800 mil habitantes.

No verão passado, o prefeito de Jerusalém Nir Barkat alimentou os temores de que haveria uma mudança de status para os bairros da cidade fora da barreira, quando, ao citar dificuldades "relacionadas à segurança" na prestação de serviços na região, propôs que militares israelenses assumissem a tarefa. O prefeito negou que sua ideia, que foi rejeitada pelo Exército, foi precursora da mudança das fronteiras de Jerusalém.

O porta-voz do governo israelense Mark Regev disse que a barreira de separação não é uma fronteira política, e que uma futura fronteira entre Israel e um Estado palestino só pode ser discutida através de negociações. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu se opõe a abrir mão de qualquer parte de Jerusalém Oriental.

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O novo bairro no extremo norte de Jerusalém é apenas um dos sinais mais visíveis de uma reação em cadeia da migração árabe desencadeada pela barreira.

Kufr Aqab começou como uma aldeia da Cisjordânia, mas tornou-se parte de Jerusalém, depois que Israel capturou o setor leste da cidade e da Cisjordânia, da Jordânia. Ele estendeu as fronteiras da cidade para o leste, na Cisjordânia, triplicando o tamanho de Jerusalém em uma anexação que não foi reconhecida internacionalmente.

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Em 2002, Israel começou a construir a barreira, retratando-a como uma defesa temporária contra militantes palestinos que mataram centenas de israelenses em uma revolta armada.

Em 2005, a barreira no norte de Jerusalém foi concluída e residentes de Kufr Aqab tiveram que passar por longas esperas nos postos de controle da barreira para chegar a seus empregos e escolas na sua cidade.

Inicialmente, muitos moradores da cidade árabe mudaram-se para áreas no interior da barreira para evitar tais dificuldades. Mas isso aumentou ainda mais o custo de moradia em Jerusalém Oriental.

A opção de se mudar para subúrbios mais baratos da Cisjordânia era arriscada. Ao deixar os limites da cidade de Jerusalém, os moradores corriam o risco de perder suas licenças de residência em Jerusalém, o que lhes concedia liberdade de circulação e de acesso ao serviços de saúde e sociais de Israel.

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De repente, Kufr Aqab tornou-se uma opção atraente mais uma vez. Segundo moradores, após a barreira ter sido construída, os inspetores da prefeitura pararam de ir para a cidade. Devido a uma enorme demanda, empreiteiros começaram a construir um grande número de apartamentos na região.

Ultimamente, a estrada principal de Kufr Aqab, que leva da passagem de Qalandiya na barreira de Jerusalém para a cidade de Ramallah na Cisjordânia, sede do governo palestino, está repleta de arranha-céus, muitos ainda em construção.

Barak Cohen, um porta-voz da prefeitura, disse que a cidade continua a prestar serviços de saúde e de educação, mas que uma ameaça à segurança na área de serviços da cidade pode torná-los mais difíceis.

Daniel Seidemann, um advogado e ativista israelense de Jerusalém classificou o caos em Kufr Aqab como "absurdo e insustentável" em relação à política israelense nas áreas árabes da cidade.

Aparentemente, apenas uma negociação israelense-palestina poderia definir a situação de Kufr Aqab, mas essa saída parece cada vez menos provável.

Enquanto isso, o boom da construção desregulada está causando danos a longo prazo em áreas como Kufr Aqab, que formam o núcleo urbano de uma futura Palestina, disse Ahmed Saleh, um oficial do Ministério do Planejamento palestino. "Um dia, quando tivermos um Estado, esta área será um enorme obstáculo para qualquer planejamento e desenvolvimento", disse.

Por Karin Laub

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